De quando em vez alguém me pergunta – os que se interessam pelo tema – por que sempre sugiro aos poucos leitores deste blog que embarquem nos Ensaios, de Michel de Montaigne, como um momento raro de descanso e aprendizado sobre si próprio.

Pelo simples fato, eis minha resposta, de que o filósofo francês não me parece querer ensinar nenhum pensamento a ninguém, mas ele me empurra, leve e sorrateiramente, a pensar, a argumentar e contra-argumentar, como qualquer homem comum é capaz de fazer – se assim o quiser.

Já o iracundo Schopenhauer estava convencido de que “pensar é para muito poucos, mas opinião todos querem ter”. A solução? Adotar as opiniões de outros, que se deram ao trabalho de formulá-las mesmo que à custa de evidentes sofismas, o que vale até para algumas “verdades” que se consolidaram como universais por longos períodos da história humana: brancos são superiores aos negros, mulheres são inferiores aos homens, gays são doentes do sexo – e por aí segue o que já se denuncia como estúpido demais para ser considerado fruto do pensamento, mas que persiste como parte essencial do comportamento de milhões de indivíduos no planeta.

Quem já teve algum contato com a obra do filósofo polonês – autor de dois ótimos ensaios sobre o amor e sobre a morte – sabe que ele não deixaria isso barato: a preguiça e a credulidade, aponta, arrastam multidões a seguir o que lhes chega como senso comum e que lhes é preferível a ter de “buscar comprovações fatigantes”. Para ele, “a generalidade de uma opinião não é nenhuma prova, nem mesmo um motivo de probabilidade de sua exatidão”.

Não por acaso, as ideias e proposições mais tolas e estúpidas têm tanto êxito entre nós, grandes primatas pelados, que tanto prezamos o nada fazer ou a mimetização, qualidade/defeito que atribuímos a espécies desinteligentes. Quanto mais simples as opiniões/convicções, maiores as chances de emplacarem na parada de sucessos da estupidez humana.

Ora direis: você fala, mais uma vez, das redes sociais?

Também, é verdade, mas está claro de que o nosso comportamento de rebanho, tão próprio da natureza dos mamíferos, vem de tempos imemoriais. Fato é que os novos meios de comunicação instantânea, simultaneamente, nos conectam em tempo real e nos mantêm agarrados a instintos primitivos e conceitos anacrônicos – pura manifestação da emoção rasa, que nos conduz em meio à manada.

Schopenhauer nasceu em 1788 e morreu em 1860, mas já enxergava, com a rara clareza dos homens inconformados com o que lhe ensinavam, aquilo que é a essência da espécie que se considera a dona da Natureza (da morte desta, certamente). Seguimos em bandos e assumimos como nossa uma opinião cuja origem nem sempre faz jus ao nosso processo de evolução cultural/civilizatória, que existe – e ainda bem. Disse ele:

– Não há uma só opinião, por absurda que seja, que as pessoas não tornem sua com facilidade, tão logo tenham sido convencidas de que ela é geralmente aceita.

Isso, imagino, explica muito o porquê de as fake news terem vida longa nas redes sociais, território em que a humanidade se fragmenta muito mais facilmente do que em qualquer outro território que já conhecíamos, mantendo cada agrupamento entre estreitos e opressivos corredores mentais. Então, se uma tribo replica uma informação entre seus integrantes, ela ganha ares de verdade – e verdade se torna.

E quem assim a torna?

“Ovelhas que seguem o carneiro-guia onde quer que ele as leve: para elas é mais fácil morrer do que pensar” (Arthur Schopenhauer).

Não, de jeito nenhum, eu não recuso um conselho ainda que ele me dê algum trabalho a mais para processá-lo, principalmente quando falamos de coisa séria, que tenha reflexos não apenas na nossa existência individual, até porque “é impossível ser feliz sozinho.”

Assim, acolho o ensinamento do cientista da computação Jairon Lanier (Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais), para quem as melhores decisões coletivas são tomadas individualmente.

É tentar escapar do carneiro-guia.

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  • Flavio

    Eis o que vivemos hoje. Muito bem explicado.

  • Mirtes

    Mais um ótimo texto de domingo. Nos ajuda a pensar e entender os riscos que corremos de ser levados na manada. .

  • Laskdo

    Foi o mais perfeito texto que li sobre o momento político social que vivemos. Gostaria de acrescentar que isso se deve ao fato das pessoas não quererem se comprometer. Porque quem planta opinião, colhe, entre outras coisas, oposição. Por isso as redes sociais fazem tanto sucesso, porque até com nome de cachorro, com foto canina no perfil inclusive, estão opinando sobre diversos assuntos.

  • Antonio Moreira

    Fizeram essa afirmação: Sem Deus ninguém consegue ser feliz. Como chegar e se juntar a Deus? Ah, faça assim e assado… porque Deus é a solução do seu problema… o humano quando está feliz com outro humano significa que ambos são munidos de Deus? Enfim, quem não quer ser feliz?

  • Antonio Moreira

    “É impossível ser feliz sozinho”.

  • Antonio Carlos Barbosa

    Velho Mota, no seu primeiro texto do domingo, após seu retorno, com passagem pelo estaleiro (entregue ao departamento médico), voltastes em grande estilo, com texto profundo e atual. Pensar, em sentido amplo, significa que o pensamento tem como missão, tornar-se avaliador da realidade. O pensamento reside na mente humana e proporciona ao ser humano modelar a sua percepção do mundo. O rebanho das ovelhas (fanáticos BolsonaristasFascistas e LulistasCínicos) não pensa e segue seus Carneiros-Guias cegamente. A realidade atual.

  • dayane

    Suspeito que já existam muitos carneiros autoproclamados guias. O refletir realmente é para poucos, mas porque dá mais trabalho e não temos tempo entre uma selfie e outra. Geração hedonista e tão pouco reflexiva.