Entre as boas e didáticas histórias da Mitologia Grega, a saga de Prometeu está entre as mais conhecidas e populares. Ele foi o personagem que roubou o fogo de Zeus para dá-lo aos homens (não sabia, pois, no que ia dar).

Como consequência, foi punido pelo pai dos deuses – e de forma bem cruel: Zeus mandou prender o nosso herói com correntes atadas aos membros, enquanto seu fígado era devorado diariamente por uma águia. Era bem verdade que o mesmo órgão, todas as noites, crescia de novo (sonho de muita gente), dando alimento à ave vingadora.

Há de se esclarecer, por necessário, que Prometeu – que trouxe o conhecimento à nossa mal-agradecida espécie – tentou enganar Zeus, na partilha de um boi, em que o todo-poderoso ficou apenas com os ossos e uma porção de gordura.

A história dos homens, no entanto, registra o quanto aqueles que conquistam e tentam espalhar o conhecimento são alvos da fúria própria da ignorância e dos seus pregadores, espalhados pelo planeta – e hoje, pelas redes sociais -, semideuses do baixo Olimpo que são.

Charles Darwin, não nos esqueçamos, foi humilhado e ridicularizado por muitos dos seus pares e pelos meus coleguinhas da imprensa inglesa do século XIX (Darwin foi caricaturado como um macaco com a cabeça humana – a dele).

Os nomes dos detratores? Quem há de saber? O que ninguém pode desconhecer hoje é que o pai da Teoria da Evolução conquistou a intocável condição de “Gênio da raça”. Ainda que muitos teimem em explicações alternativas (?) para o surgimento de vidas imbricadas e tão distintas quanto a nossa e a do bichinho que está enlouquecendo o mundo (é verdade que muitos nem precisaram dele para sair do eixo), o tempo só dá razão ao cientista inglês.

Albert Einstein, cuja principal descoberta – a Teoria da Relatividade Geral – foi degenerada pelos seus semelhantes com a sua transformação na mais mortífera arma de guerra, também acumulou inveja e inimigos.

Ele conseguiu fugir da Alemanha antes que Hitler chegasse ao poder e espalhasse a morte por onde passou. Já conhecido e reverenciado em todo o mundo, o físico judeu viu seus compatriotas se submeterem ao jugo do nazismo publicando a obra 100 autores contra Einstein. Sua resposta, redundantemente genial, foi curta e certeira: “Por que cem? Se eu estivesse errado, um só era suficiente”.

Mas quem disse que a estupidez se acanha de passar vergonha no rumo da História? Nada disso. E ainda consegue piorar nos seus métodos e ações em defesa do atraso e da cegueira consentida.

Por esses dias, o mais conhecido virologista belga, Marc Van Ranst, teve de se esconder com a família, protegido 24 horas/dia por agentes de segurança, por causa das ameaças de um negacionista de extrema direita, especialista em tiros e armas de grosso calibre – e o tema é Covid-19, gente! -, que anunciou pretender trucidá-lo e aos seus.

Por aqui, no Brasil, infectologistas que têm dedicado seus dias e noites sem sono a abrir os olhos da população para os males do negacionismo redista vêm recebendo ameaças constantes. Afinal, o conhecimento – o fogo prometeico – é o grande inimigo dessa gente boçal.

E é para ela que deixo a pequena fábula de Esopo – da bela edição da saudosa Cosac Naify –, sobre o mesmo Prometeu.

O alforje

Quando outrora Prometeu moldou os homens, pendurou neles dois alforjes, um cheio dos vícios alheios e, o outro, repleto de vícios pessoais, acomodando na frente o primeiro e prendendo atrás o segundo. Disso resultou que os homens enxergam num relance o vício dos outros, mas não notam os próprios.

Moral da história: procure saber onde se encontra o saco dos seus vícios. Ele pode estar no lugar errado.

Aliado histórico de Roberto Jefferson, Collor pode voltar ao PTB
------------------------------------------------------
  • Antonio Carlos Barbosa

    O conhecimento humano sempre foi motivo de preocupação e ataques do poder dominante. A santa Inquisição Moderna da Igreja Católica, concentrada em Portugal e Espanha, que durou do século XV ao XIX, perseguia, torturava, julgava, condenava, queimava em praças públicas, pessoas acusadas de propagar o conhecimento, a ciência e de se desviarem das normas e condutas da Santa Igreja Católica.
    Hoje no Brasil vivemos o negacionismo e as condenações nos tribunais dos Bolsonaristas Genocidas nas redes sociais. Com o golpe contra a democracia e o conhecimento em curso, o Miliciano/Militar/Rachadinha Bolsonaro, passará a ser conhecido como Bolsonaro Tomás de Torquemada.

  • Vania

    A escuridão sempre teve medo da luz por que sabe que as duas não existem juntas. Mais uma vez, ótimo e iluminado texto.

  • Antonio Moreira

    Sei que ninguém é perfeito, mas gostaria de saber onde se encontra o saco dos meus vícios, já que é mais fácil enxergar o vício dos outros.

    Onde (em que lugar) está tão boa a situação atual do Brasil?
    Os seguidores, defendem o homem ou a gestão do Presidente do Brasil ?

    Por que a infectologista Luana Araújo, foi anunciada pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para o cargo de secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, mas teve a nomeação cancelada dez dias depois?

  • Laura Pedro

    E impressionante a informação sobre as ameaças aos especialistas, feitas, imagino, por um bando que transita nas redes sociais. Estou entre os que acreditam que o mundo foi feito em sete dias – tempos bíblicos – mas deixo a minha para os meus momentos de intimidade comigo mesma.
    Gostaria que a maioria dos que creem como eu soubesse separar as coisas.
    Bom domingo.

  • Carlos

    Os desejos ocultos deixam o homem na defesa e o circo do comportamento dissimulado vale tudo pra se dar bem. Sinceridade é coisa pra poucos.

  • Edson José de Gouveia Bezerra

    …..eita Ricardo, rindo por aqui!! Abraços, os de sempre…