A velha ponte da Buarque de Macedo, muito diferente da que vemos hoje – larga e com duas pistas de asfalto -,  era estreita e dividida ao meio por um muro baixo de ferro. De um lado, dormentes e trilhos, por onde passavam os trens indo e vindo de Jaraguá, além de moleques velozes e afoitos, que contrariavam, ao primeiro descuido, as ordens de pais zelosos.

Do outro lado, um vão estreito, protegido por um corrimão de madeira, que servia de poleiro para os meninos-passarinhos em tempos de cheia do Salgadinho – o salto e o mergulho eram a sequência da felicidade. Ali ficava a passarela segura para os pedestres que cruzavam a Buarque de Macedo em direção à Avenida Maceió (e vice-versa) – marcando o limite entre a parte da cidade que era nossa, o Centro, e o outro lado, o Poço.

Eu já estava acostumado a ir a pé para o Colégio Marista, no Farol, pela calçada que margeava o pequeno riacho (depois subia a ladeira de barro do Reginaldo). Eram tempos, ainda, em que ninguém desconfiava que aquele corpo d’água que ia dar no mar da Avenida, paisagem da nossa infância e adolescência, já apodrecia por dentro, sem cura e sem direito a piedade. Nada fizemos para conter o avanço da ação do homem no modo “destruição”.

Seguia sempre acompanhado do meu amigo Fred, além de Maninho e Raimundo, dois irmãos  e companheiros muito presentes naquela quadra da minha vida. Certo dia, porém, observamos que havia um casal morando embaixo da ponte, algo inusitado, a imagem contundente da extrema pobreza.

Era um homem de meia-idade, que não aparentava viver na miséria absoluta, mesmo estando ali. Resquícios dos dias mortos, vestia-se de forma digna, o cabelo bem penteado, sempre calçado. Dividia o pequeno espaço com a sua mulher, imaginamos, também ela trajando vestidos aparentemente bem conservados.

Um velho colchão de casal, um pequeno fogão, um móvel improvisado onde guardavam seus pertences  – eram os sinais de que a vida nem sempre fora tão perversa com eles. O homem, não demorou muito para que ficássemos sabendo, era alcoólico, talvez esta a razão da sua desgraça. Mas com seu jeito cordial não nos provocava temor ou repulsa – nada disso.

A cena era marcante para os garotos que andavam por aquelas redondezas movidos pela curiosidade própria de quem tem onze, doze anos de idade. E era tão frequente a troca de olhares entre nós e o casal, que os cumprimentos diários se tornaram comuns. Eles viraram parte da comunidade, que não parecia muito incomodada com a sua presença.

Numa manhã de inverno, pouco antes de seguirmos para o colégio, chegou-nos a notícia: o homem havia morrido. À noite chovera bastante, mas o dia molhado não foi capaz de disfarçar as lágrimas da pobre mulher, curvada ao lado do corpo inerte daquele que fora sua companhia de sobrevivência.

As horas daquela semana, para nós, passaram alvoroçadas, e não conseguíamos conter a curiosidade sobre a repercussão do acontecimento: saiu no jornal, na rádio, que um homem morrera onde vivera seus últimos tempos – debaixo da ponte?

As respostas nos traziam frustração. Não teríamos a oportunidade de nos apresentar como testemunhas de uma história pungente, de contar para outros curiosos que havíamos conhecido o morto, de quem éramos quase íntimos (como haveríamos de dizer se nos fosse dada a chance de fazê-lo). Guardávamos, então, a ilusão de que um pobre-diabo atrairia o interesse de leitores e ouvintes, já não houvesse outras mortes, bem mais espetaculares, que continuavam a acontecer e a dar algum sentido à vida do grande público – o conforto que as tragédias deixam na alma de quem as vê a distância.

Lembrei-me dessa história, na semana que passou, por causa de um comentário enviado ao blog, repetidas vezes, como sempre carregado da fúria e da estupidez desses dias. Aprendi que quando uma afirmativa se replica com insistência agora, podemos cravar: ela brotou e se multiplicou nas redes sociais, território onde a ignorância e a perversidade se sentem em casa. “Ninguém nunca viu um morador de rua morrer de Covid-19”, dizia. Claro que o objetivo era sugerir que o vírus só ataca covardes e fracotes.

Seria simples, até para eles, constatar que moradores de rua morrem todos os dias, meses, anos, de gripe, de pneumonia, de câncer e de tantas outras doenças – e nós não ficamos sabendo. Morrem silenciosamente, clandestinamente, como agora há de estar ocorrendo na pandemia. São mortes secretas, que não saíram nem sairão nos jornais, o que pode sugerir aos incautos que a teoria redista está correta.

De fato, esses mortos não formarão nas estatísticas como casos confirmados ou suspeitos de Covid – as que de  Covid forem. Lamento, entretanto, não haver mais meninos a propagar os acontecimentos corriqueiros e mundanos – gazeteiros das ruas, ávidos por narrar pequenas tragédias. Nem isso os mortos de agora terão.

Mas creio que haverá sempre uma mulher – ou um homem – a chorar por eles a mais solitária das dores.

(Que nome terá?)

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  • Há Lagoas

    Magistral! Crônica envolvente e bela!
    É possível até criticar a forma como a imprensa noticia os números da pandemia – quase sempre sem detalhar o número de curados – mas isso não nos dá o direito de fechar os olhos para a dor daqueles que perderam seus entes queridos!
    São artigos assim, movido – inclusive – pela compaixão aos negacionistas, que fazem até o incauto refletir. Creio que o altruísmo do menino que testemunhou aquele casal em sua desgraça, continua agora escrevendo como jornalista! E isso é muito bom para os seus leitores.
    Um boa semana a todos!

    • Idosamente MONGE no Sertão: busca SUS sem úi nem Ái!

      Hj é DOMINGO na Maçayó, sonho de SAL:
      – areia e SOL obscena `PÉ ca d’oro d’AL,
      … Ouro de [email protected]$?

      E amanhã + 1 semana entrando em CENA à Niterói-RJ
      – Êi CANTAREIRA viagem, dÓi trabalhar dsd 1970’s

      Amanhã, tá ‘tod’esperança P menÓ q’pareça
      Existe e é pra vicejar, apesar de hoje: estrada q’surge

      Pra se trilhar, Amanhã, mesmo q’uns Ñ queiram
      Apois outros esperam V o dia raiar, Ódios aplacados

      Temores abrandados, Será pleno (2 Xs)
      Será pleno, Acima do ilusório: Astr’REI vai brilhar

      E a luminosidade, alheia à qquer vontade, Há d’imperÁ
      Num lindo dia Da + lÕk’A alegria Q se possa imaginar

      Redobrada a força Pra cima, que não cessa
      Há de vingar! – 🙏 🤩 Guilherme ARANTES

      Desde 1953 em o6’ o6″ aos 68 – VACINADO!
      https://youtu.be/DfLqajYJc54

  • Tadeu

    Parabéns pelo belo texto!

  • Flavio

    Excelente texto! Título mais ainda. Certa Vez eu vi um homem ser morto covardemente perto do viaduto novo da Federal, os assassinos desapareceram numa moto e eu fiquei dias procurando alguma noticia daquele homem e nunca soube quem havia sido a vitima! Mortes silenciosas!

  • Antonio Moreira

    Faz alguns dias que meu irmão me falou:
    Em São Paulo, em suas caminhadas, costuma ver um homem sentado na porta de uma loja fechada e ao lado dele um carrinho de supermercado cheio de coisas. Também ao lado do homem outros moradores de rua bebendo e ele não (não participa da bebedeira). Um dia, no mesmo lugar, este mesmo homem estava sozinho ouvindo um radinho de pilha e meu irmão resolveu conversar com ele, mas logo o homem se alterou (baixou o espírito) e o mano foi embora. Por quê?
    //
    Morte Secreta:
    Ainda menino, todo mundo dizia que seu fulano (pobre) ganhou um carro de luxo em um bingo famoso da época. Logo, trocou o veículo em várias casinhas. O tempo passou e esse homem (já um tanto idoso) morreu morando sozinho em um pequeno quartinho alugado.
    Enquanto isso, era comum vê a sua ex esposa sentada na porta da sua casa com um outro homem. Aquela casa onde moraram juntos por muitos anos e nasceram vários filhos. Sinceramente, não sei o que aconteceu … Por quê?

    * (TRÂNSITO)*

  • Carlos Manoel Lins Wagner

    Caro, Ricardo, fiquei extremamente sensibilizado com sua crônica memorialista de um tempo em que as pessoas se cumprimentavam e percebiam as imagens do cotidiano a seu redor. Seu olhar de menino conseguiu registrar para posteridade uma cena triste da fragilidade e falibilidade humana; conseguiu transportar a invisibilidade dos vulneráveis do passado ao presente; conseguiu abordar de forma brilhante a questão seres humanos “invisíveis” para as estatísticas sociais e para grande parte da nossa sociedade.
    A miséria que aumenta a cada dia nos últimos tempos é uma realidade que muitos fingem não ver.
    Parabéns por sua crônica e um abraço fraterno.

  • Galba Nogueira

    Parabéns Ricardo!!

  • Jadson

    Ricardo sou aqui de Paripueira.

    Cresci vendo o homem da TV tocando violão com sua barba longa, com semblante inteligente e acolhedor.

    Ao conhecer seu blog aqui no TNH1 me fez um fã do jeito que você aborda os casos do dia dia.

    O texto de hoje me fez lembrar minha infância e também os tempos de escola, e me certificou do habilidoso é o blogueiro que admiro justamente porque tem uma forma própria de tocar as pessoas.

    Parabéns Ricardo!

    Muito obrigado pelo seu trabalho

  • JESB²

    Parabéns! Entre tantos outros, este foi magnífico. Até lembrou minha infância.

  • Luisa

    Ricardo você escreve e descreve com o coração…há alma nas suas crônicas…
    Parabéns!!
    Observação importante: nesta época o Salgadinho não era a podridão atual…

  • Mario Padilha

    Não se preocupe Ricardo, esses nomes não saem nos jornais, porém são úteis para a política. Ano que vem os mesmos que saíram as ruas ano passado em plena pandemia para abraçar os pobres, estarão junto a outros em busca de votos.
    Infelizmente, o pobre tem a sua utilidade, que é servir aos ricos e poderosos. Essa pandemia mostrou que os políticos podem ser piores que imaginávamos, pois a sede de poder e riqueza deles estão acima de qualquer coisa. Pena que as pessoas desse estado sempre votam nos mesmos, por que comem das migalhas que eles dão ou por que levam em si o mesmo sobrenome.

  • Antonio Moreira

    Falar em covid-19 , comparações e fatos recentes. O presidente do Brasil esteve aqui em Alagoas e foi bem recebido por seus amados… Em Portugal, a esposa do meu sobrinho pediu ao segurança para tirar uma foto com o Presidente de Portugal. O Presidente de maneira educada sugeriu (vamos tirar a foto assim,fica melhor). Todos dois de máscaras. Sem alvoroço, sem aglomeração … O casal mora e trabalha em Portugal. Ainda não faz um ano que mudaram para lá.

  • Antonio Carlos Barbosa

    Grande Mota, texto escrito com o olhar do adolescente, com sentimento humano e social, belíssimo. Quanto aos desumanos seguidores fanáticos do BolsonaroGenocidaFascista, afirmar que “ninguém nunca viu um morador de rua morrer de covid”, já ouviu de vários empresários retardados Bolsonaristas desumanas o seguinte: “na construção civil, não teve uma morte de covid” , “no campo, não teve um trabalhador rural, que tenha morrido de covid” explicação deles, o sol mata o vírus. São uns verdadeiros imbecis, e um perigo para a sociedade, pois espalham mentiras perigosas, causando mortes, como o maluco fascista do janelo, propagando cloroquina, o fascista Bolsonaro.
    Nossas elites, e principalmente os Bolsonaristas, somente querem o espaço no Brasil para eles, vejam o fascista Bolsonaro, que nunca produziu nada, vive da politica, juntamente com os três filhos, que também nada produzem, e roubam descaradamente 90% do salario dos servidores dos gabinetes, vivem da corrupção, e ressaltando a fala do Ciro Gomes, que BolsonaroGenocidaFascista, roubava o salário dos servidores do seu gabinete e até gasolina. Foi inserido agora na corrupção, o filho mais novo o zero 4, transvestido de empresário.
    Minha resposta aos Bolsonaristas, sempre é a seguinte, se você apoia a tortura, o pau de arara, o choque elétrico, a ditadura, a corrupção, a incompetência, o descaso humano e social, a milica, e é contra a ciência, o meio ambiente, a educação e a cultura, você é isso, parabéns Bolsonaristas.

  • RCesar

    E O SALÁRIO!!… Ó mimimimi…