Por esses dias, precisei ir a uma farmácia. Ao chegar ao local, entrei no estacionamento e me deparei com a vaga exclusiva para os que passaram da primavera, viveram o verão e agora transitam por entre os dias e noites outonais. É onde sempre costumo estacionar – afinal, já são quatro anos de idosidade.

Ao descer, atinei que o desenho que identifica o suposto dono da vaga no estacionamento era um bonequinho curvado sobre si, quase um Corcunda de Notre Dame sem corcunda, que se mantinha em pé graças ao amparo de uma bengala. Gracioso, o velhinho!

Por um momento, senti-me um usurpador, já que não carregava, então, a órtese indicada. Pelo menos por enquanto ainda não aderi à moda. Mesmo que um tanto constrangido pela falta do apoio material, mantive-me altivo ante a possibilidade de ser acusado de impostura. Armei-me de documento na mão.

Talvez este sentimento de inegável valentia tenha sido motivado por algum processo psicológico de autoengano, de quem acha que ainda não chegou a hora de buscar o necessário equilíbrio artificial para ações naturais e cotidianas.

Falando quase sério, é assim que a maioria de nós brasileiros vê o idoso, de forma geral: alguém que não se sustenta em si e que está prestes a embarcar para a terra do Nunca Mais. O pior é que vivemos numa sociedade que alimenta o etarismo – nome que se dá ao preconceito contra o idoso – na mesma proporção em que cultua a juventude. Que é boa, sim, enquanto dura e se dura for.

Na pandemia isso ficou explícito ainda mais, pelo menos até a mais recente onda da Covid-19. Morriam mais os velhos? Porque velhos eram! E aí entrávamos no perigoso território da meia-verdade, sempre colada à sua  metade mentira. Embora as doenças se sintam mais atraídas pelos entrados na velhice, ela, a velhice, não é uma doença em si.

Já o homem do posto, ao que parece, anda consumindo gasolina estragada e resolveu dar mais uma contribuição ao tema. É dele a recente afirmativa de que a longevidade não faz bem ao erário.

Claro: se o velho ou a velha for pobre; se não for, tornar-se-á, aos seus olhos, uma referência moral e coisa e qual – ou melhor: um investidor de capital num tal pactual.

Haveremos de lembrar, entretanto, que a bengala longe de ser um mito da velhice é, aí sim, mitológica. A historinha: nascida no Egito e tendo migrado para a Grécia, a Esfinge é uma das mais citadas figuras da fantasiosa e metafórica área onde deuses e homens tinham um convívio estreito e cotidiano.

Ela era um monstro mitológico – há outros não necessariamente mitológicos – que guarnecia o templo de Apolo, no famosíssimo oráculo de Delfos. Vivia de provocar os visitantes ansiosos por saber do futuro – já que presente e passado não mais os satisfaziam -, com seus enigmas quase sempre irrespondíveis. Diríamos os de hoje, beneficiados pela experiência acumulada pelos mortos e pelos muito vivos, que a tal figura com cabeça de mulher, corpo de leão e asas de águia, vivia de pegadinhas – graciosas e mortais: “Decifra-me ou devoro-te”. A maioria, por óbvio, virara comida quente – só não sei se da mulher, do leão ou da águia.

É aí que entra a bengala. O mais conhecido e letal enigma da muito falada – até hoje – Esfinge é talvez pouco conhecido, ainda que deveras interessante. Responda-o:

– Que animal anda pela manhã sobre quatro patas, à tarde sobre duas e à noite sobre três?

– Você!

Quer dizer: eu, qualquer um de nós, mesmo que não se enxergue agora ou mais à frente se apoiando no terceiro membro, a vagar trôpego pelo planeta dos macacos pelados, a enfrentar a fila do INSS, esperando sua aposentadoria (dá pra agendar, gente).

É verdade que eu não me chamo Édipo, mas depois daquela visitinha à farmácia, imagino que a assustadora criatura que assombrava os curiosos visitantes do oráculo de Delfos não mais me devoraria. O enigma está decifrado, ainda que eu continue sem ter à mão a terceira perna.

(Postiça, pois não?)

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  • Antonio Moreira

    Eram dois amigos que dividiam a mesma sala de trabalho. Um deles me chamava de velhinho de forma carinhosa e infelizmente foram vencidos pela doença da moda contrariando a ordem natural da vida e das coisas.

    Faz tempo que escutei de um colega de trabalho:
    No transito, um homem disse um monte de besteira sem necessidade a um idoso que dirigia. Lá na frente, o idoso jogou o seu carro no carro do homem e disse-lhe: O mundo não é do velho e nem do novo, é de quem tem DINHEIRO !!! E o prejuízo ???

    Em um aplicativo (Kwai) – Pegadinhas, na praia – jovem usando uma bengala dentro do seu calção de praia causando sustos principalmente para mulheres.

  • Flavio

    Velho Mota: saber rir de si mesmo é sinal agudo de inteligência e sabedoria.
    Valeu!

  • Há Lagoas

    “A velhice começa quando as lembranças são mais fortes que a esperança”.
    Provérbio Hindu

    Excelente crônica!
    Uma excelente semana a todos!

  • Amélia Bandeira

    Mais uma genial crônica!
    Parabéns!
    Aplaudo de pé!

  • Fernando

    Ha 10 anos viajei aos EUA, assim que cheguei algo me chamou a atenção, muitos idosos trabalhando. Logo na alfândega, na apresentação do passaporte fiquei boquiaberto, pois quem me atendeu foi um idoso com um braço só. Por incrível que pareça era a fila que andava mais rápido. Depois de alguns dias passeando por diversos lugares, minha impressão inicial se confirmou, idosos de 60, 70 ou mais trabalhando era normal por lá. Conversando com o americano que nos recepcionou, comentei que me chamou muito a atenção tantos idosos trabalhando. Então ele disse algo que explicou muita coisa, principalmente o fato de serem o país mais rico do mundo. Ele disse: “é por causa do sonho americano”. Como assim? – perguntei. Ele explicou que desde de criança as pessoas são ensinadas a trabalhar até ficarem ricas e se não conseguir continuam trabalhando até não puder mais. Ele perguntou como era no Brasil, eu disse: “o sonho brasileiro é trabalhar e se aposentar o mais cedo possível ou se aposentar sem trabalhar”. Ele riu e disse algo que me marcou muito: “Isso não é bom para saúde, trabalhar é bom para o corpo e principalmente para a mente”. De lá pra cá, tudo que eu já li e pesquisei, a conclusão que chego é: o americano estava certo.

  • Álvaro Antônio Machado

    Sem dúvida alguma, amigo Ricardo, em que pese o histórico mitológico da órtese-esfinge, esse emblema das vagas preferenciais para idosos, inegavelmente, é um símbolo pejorativo e constrangedor. Identifica o idoso como pessoa fragilizada, incapaz de deambular sem ajuda de uma bengala e, ainda por cima, doente, pois anda encurvado sobre a mesma.
    Ou seja: aquilo que deveria ter sido criado para proteger, revelou-se, no nascedouro, um preconceito do criador contra a criatura. Além de não refletir a realidade de grande parte dos idosos, nivela-os pelo que há de mais constrangedor na diferença com os de menor idade.
    Mas há luz no fim do túnel: um projeto de lei que nasceu de um movimento social para que essa imagem seja substituída por outra que retrate exclusiva e objetivamente a idade mínima de 60 anos, já foi aprovado no Senado Federal e no momento está em tramitação na Câmara dos Deputados. Oxalá não esbarre, lá na frente, com a objeção do homem ― idoso ― da “gasolina” (gostei do neologismo) estragada…

  • Diógenes dos Anjos

    Feliz aquele que chega à idade da sabedoria! Não necessariamente à velhice!
    Excelente texto para reflexões atuais e futuras!

  • Antônio Carlos Barbosa

    Infelizmente, a velhice é um massacre. Como me disse meu avô, todo fim de vida é penoso.
    Vida que segue.