Recém-saído da adolescência, iniciando o curso de Medicina – que eu não terminei –, fui tomado de encantamento por um pequeno livro que fazia sucesso entre os da minha geração interessados na psicologia humana.

O corpo fala, de Pierre Weill, caiu em minhas mãos como uma paixão avassaladora. E, como tal, passageira. Li-o seguidamente do alto da minha imaturidade e movido pela curiosidade/sofreguidão. Cheguei a decorar alguns capítulos, os que me pareceram mais instigantes. Imaginava que estava diante de um pequeno manual de intenções e gestos dos pobres humanos (talvez não me desse conta, então, que eu era um deles).

Passei, com meu entusiasmo juvenil, a acompanhar os movimentos corporais das pessoas, inclusive aquelas com as quais interagia: braços cruzados, na frente de alguém que fala, significaria desinteresse e/ou antipatia;  tronco vergado para frente, em direção ao interlocutor, representaria vivo interesse; pernas cruzadas por baixo da mesa, no diálogo de um casal, sinalizaria que dali não brotava o desejo – se bem me lembro.

Claro que o tempo e algum aprendizado me mostraram o óbvio: não há uma obra apenas, de qualquer campo do conhecimento humano, capaz de explicar essa espécie tosca e sofisticada de que fazemos parte. Daí, o livro do psicólogo Pierre Weill tomou o destino do esquecimento (nem sei mais se ainda o tenho). A culpa, que fique claro, foi minha ‒ não dele.

Por esses dias, um crime absurdamente bestial ‒ o do garoto Henry, no Rio de Janeiro ‒ me vez voltar a outro livro, mais recente e bastante interessante: Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado, da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva. Revisitei-o provocado pelo caso extremo com que nos deparamos agora. Não é um manual ou guia sobre a maldade humana, mas pode nos ajudar a sobreviver – até fisicamente.

De fácil compreensão para os leigos, a publicação trata de um tema difícil até mesmo para os especialistas. Ela nos conduz, no entanto, à compreensão do porquê uma pessoa tão cruel pode ter atravessado boa parte da sua vida sem que seja  desmascarado.

O problema central, para qualquer um em qualquer tempo, é que o psicopata, nada tendo de louco, quase sempre é alguém como nós, gente como a gente, com família, amizades (nunca verdadeiras, por óbvio), profissão, time de futebol, coisas que são comuns à maioria das pessoas.

Entretanto, numa frase bem precisa da pesquisadora, “eles são verdadeiros atores, que mentem com a maior tranquilidade, como se estivessem contando a verdade mais cristalina”.

Esse comportamento é facilitado por aquilo que é uma das características principais do psicopata: ele é desprovido de emoção, embora isso não lhe  roube a inteligência e a capacidade de praticar as piores atrocidades com desfaçatez e nenhum sentimento de culpa, compaixão ou arrependimento.

Diz a escritora: “Os psicopatas em geral são indivíduos frios, calculistas, inescrupulosos, dissimulados, mentirosos, sedutores e que só visam o próprio benefício”. Ainda assim, pasmem, são capazes de mimetizar o amor e o comportamento de alguém apaixonado, algo que eles nunca serão verdadeiramente (tara é outra história). Resumindo: “São predadores sociais”.

Que fique claro, o livro não é feito apenas de adjetivos e sentenças duras, nada disso. A doutora Ana Beatriz traz a narrativa de casos conhecidos do grande público e indica traços clássicos da personalidade do psicopata, como, por exemplo, provocar a mais sincera piedade naqueles com quem convive:

‒ Muito mais do que apelar para o nosso sentimento de medo, os psicopatas, de forma extremamente perversa, apelam para a nossa capacidade de sermos solidários.

Numa metáfora com a Biologia, arrisco,  o criminoso – potencial ou não – age como o parasita que cresce dentro da sua presa, devorando suas entranhas, e dali só se retirando quando mais nada tem a sugar. É, na verdade, um vampiro da alma, que rouba a essência das suas vítimas. Se não há o bem e o mal no mundo animal – excluindo o homem ‒, quando tratamos desses espécimes podemos concluir que o seu código moral é mais precário do que o de um orangotango (muito mais empático).

Mas a questão se complica porque o psicopata costuma ser espirituoso e muito articulado, “tornando uma conversa divertida e agradável”. Em resumo, é “um profissional da lorota”, que não se constrange ao ser desmascarado como farsante.

O pior de tudo é que ele se mostra capaz de cometer os piores crimes – matar, roubar, estuprar, e fraudar -, se isso atender aos seus objetivos mais imediatos e desejados. A culpa? Haverá de ser sempre dos outros; ele “só” fez e faz o que for preciso para se dar bem.

Assim, vai levando a vida, destruindo outras vidas, muita vez sob a “simples” aparência de um mau-caráter, esperando o momento exato de praticar sua hediondez. O tempo não o melhora, a velhice não lhe dá consciência dos seus atos de perversidade – ele permanece perigoso até o último sopro.

Não existe uma vacina para nos prevenir das ações desses personagens da vida real. O distanciamento social parece ser o mais prudente – desde quando eles nos dão as primeiras pistas sobre o que guardam em si.

E como, sabe-se, os psicopatas “entendem a letra, mas não compreendem a música”, comecemos com um chorinho instrumental de Paulinho da Viola (Choro Negro) ou um noturno de Chopin. Talvez possamos afugentá-los, com arte, do seu/nosso convívio.

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  • Há Lagoas

    Em uma sociedade cada vez mais doente, este tipo de anomalia é cada vez mais comum!
    E infelizmente, com o esfacelamento de códigos e regras tão caras a nossa sociedade, aquilo que é definido por Zygmunt Bauman como “Sociedade Líquida”, o ser humano busca a todo custo sua própria felicidade e realização, em detrimento de quanto isso pode custar aquele que está ao seu lado!
    Toda regra tem sua exceção – disso não tenho dúvida – e a caso em que o divórcio parece ser a única opção.
    Mas o que leva uma mulher a silenciar diante de um bandido que espanca o seu próprio filho?!
    Uma boa semana para todos nós!

    • Laskdo

      Acho que ela é tão desequilibrada quanto ele, talvez até mais. Pois logo após saber que seu filho tinha sido torturado pela a empregada, qualquer mãe corria em seu socorro, ela foi ao cabeleireiro. Após o enterro, ela foi pra casa pesquisar cursos para fazer. Após ser intimada, ligou para seu advogado pra saber com que roupa causaria a melhor impressão. Já na delegacia, fez uma selfie e postou em suas redes. Não foi atoa que ele chegou aonde chegou, qualquer mãe de verdade defenderia com unhas e dentes seu filho, mas ela, era conivente.

      • Laskdo

        *Correção: “Logo após saber pela empregada, que seu filho foi torturado

  • Antonio Moreira

    Por esses dias, um crime absurdamente bestial ‒ o do garoto Henry, no Rio de Janeiro.
    E a mãe do garoto Henry ???

    Recentemente , assisti na Netflix vários episódios “The Alienist” (é uma série televisiva de drama e suspense).
    Sucessivos assassinatos de crianças e por coincidências em datas religiosas. Em uma época que já existia o luxo, miséria, corrupção de grupo policial/justiça/político/igreja/empresário …
    Uma mãe foi executada por um crime que certamente não cometeu e tantas outras loucuras…
    //
    Na vida real, eu conheci (ainda estão vivas) 3 mulheres, são mães e a cor da pele igual. Vivenciei atitudes dessas criaturas que nunca me agradaram. Risos sombrios com as desgraças dos outros; sabotagens; mentiras e etc.

  • Bernardo

    A Mãe do garoto assassinado é pior que o tal Jairinho!

  • otavio cabral

    Obrigado pela crônica. Muito obrigado. Me emociono sempre que vejo alguma matéria sobre o assassinato desse garoto. Sua crônica também me emocionou. Parabéns.

  • CÍCERO FREDERICO DA SILVA

    Uma criança assassinada com a mãe condizente com esse marginal vereador.
    O seu histórico lhe condena e as pessoas que conviveram com ele sabia , e infelizmente não o denunciaram

  • Gardênia

    Passou da casa dos mil infectados diários em Alagoas! Renan está certíssimo em liberar ( aumentar ) os horários de funcionamento! Show de bola Renan !! Vai com ao senado ! Vc vai ter os votos dos empresários donos de restaurantes e bares !

  • Laskdo

    Excelente crônica, me pareceu um tutorial de como identificar um psicopata. Acabei identificando, não só o “dr. jairinho”, como a própria mãe de Henry. Mas acabei identificando na crônica um outro psicopata, ainda mais cruel e ainda mais perverso e nocivo para toda sociedade. Ele bate com toda a discrição da Dra. Ana Beatriz traz, não tem empatia, é dissimulado, mentiroso, culpa sempre os outros quando é desmascarado. É insensível mesmo diante da morte de mais de 300 mil brasileiros. Quando questionado disse: é daí? Ou simplesmente: “vida que segue”. Nem adianta me perguntar, que não vou dizer quem foi.
    Uma boa noite a todos!

  • Antonio Carlos Barbosa

    Texto perfeito, principalmente nos dias tenebrosos de hoje, servindo para todos os leitores do Blog, de uma análise profunda, principalmente nas pessoas do nosso convívio. O psicopata é desprovido do sentimento de culpa e de todos os já mencionados no texto.