O jardineiro que trabalha mensalmente na minha casa tem me deixado encantado com os resultados daquilo que as suas mãos produzem. Quero crer que ele antevê coisas que nós, pobres mortais, só enxergamos depois de prontas. No pequeno espaço do meu jardim – bem mais de Tania, minha mulher -, ele tem produzido belezas que eu não imaginava possíveis. Antônio é o nome dele.

Talvez não por coincidência, sempre que ele chega para exercer a sua arte, lembro-me de Rubem Alves, um sujeito que pensava os homens e media as palavras com sua paixão pela educação e pela escrita. Ele é o autor de uma ótima crônica publicada na Folha de São Paulo em maio de 2000 (morreu em 2014), com o sugestivo título: Sobre Política e Jardinagem.

Dedicado aos jovens, o texto é lírico e instigante, buscando seduzi-los e impulsioná-los para a atividade política:

“De todas as vocações, a política é a mais nobre. Vocação, do latim vocare, quer dizer chamado. Vocação é um chamado interior de amor: chamado de amor por um ‘fazer’. No lugar desse ‘fazer’ o vocacionado quer ‘fazer amor’ com o mundo”.

Mas depois de estabelecer que “vocação é diferente de profissão”, embora ambas não excludentes, ele condena o amor que, em regra, o político tem pelo poder. E arremata:

– De todas as profissões, a profissão política é a mais vil.

É lê-lo e entendê-lo.

Mas a questão em causa, aqui, é a vocação. Ouvi certa feita um artista de humor, Agildo Ribeiro, numa definição que me parece precisa sobre a nossa musa do momento: vocação é aquilo que a gente faz com mais facilidade e prazer. Se isso nos rende a sobrevivência, melhor.

(Desconfio que o talento caminha no seu próprio leito, atuando como um esmeril a retirar os excessos, as excrescências da matéria-prima bruta, dando o refinamento à peça que chega ao mundo.)

Conto-lhes uma passagem que ficou gravada na minha memória de repórter – e lá se vão mais de 40 anos. Eu fui ao Hotel Jatiúca, aí pelo início da década de 1980, entrevistar um grande empresário nacional. Naquela época – quatro décadas, gente! –, o equipamento de TV pesava bastante e esquentava nas mãos dos operadores.

Concluída a recomendada e demorada entrevista, aliviado, enrolei o fio do microfone, meus dois companheiros de batalhas arrumaram suas “malas” e tratamos de retomar o caminho de volta para a emissora em que trabalhávamos – acho que era a TV Gazeta.

Eis, pois, que já no saguão do hotel, ouvi uma voz a me chamar – e não pelo nome:

– Ei, não vai me entrevistar, não?

Olhei e identifiquei: era Ronald Golias, comediante que fazia o Brasil rir até calado, com suas caretas e piadas de múltiplos sentidos (hoje seria trucidado pelo Tribunal do Facebook). Respondi com alegria que estava ali “para isso”. Desmontamos lentamente a aparelhagem, sentei ao seu lado e fiz uma só pergunta, algo tolo, como “o que você faz em Alagoas?”

Foi quase uma hora de piadas, histórias que ele tratava de emendar uma na outra, sem dar tempo para ninguém tomar fôlego. Os hóspedes formavam uma plateia cada vez maior, o calor da iluminação se espalhando pelo pequeno espaço, e todos preocupados apenas em gargalhar, cada vez mais alto, em tons e timbres diversos, sem freios – o riso solto, acho, nos torna a todos crianças.

Golias, quanto mais as pessoas riam, mais se entusiasmava e dava sequência ao seu show gratuito. O que se via nele era o mais puro prazer com a sua arte, no seu palco ambulante, que ele carregava no imaginário para onde fosse.

Como eu não pudesse – e lamentava – ficar mais ali, saí à francesa (ninguém usa mais isso, Ricardo), sem que ninguém notasse. Aliás, seria perda de tempo e de humor.

Creiam, me despedi com a convicção de que aprendera, da melhor maneira possível, o que é a vocação e o quanto generosa ela pode ser com os homens.

E olha que alguns até nem a merecem.

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  • Há Lagoas

    Duas características que eu tenho grande admiração, a vocação de exercer a jardinagem e o humor!
    O jardineiro foi a primeira “profissão” da humanidade, é só lembrar que Deus criou o homem e o pós no jardim, ou seja, sua vocação era ser jardineiro…
    Deu no que deu, após a queda, creio que o humor – que só pode florescer em meio as agruras da vida – fez de nós, simples mortais, um “jardineiro” em meio as plantas desbotadas e murchas deste imenso jardim em que estamos imersos! E o humorista se torna um pintor, ao pincelar com tinta colorida, aqueles que precisam sorrir, para sobreviver.
    PS. Congratule o sr. Antônio, ele têm a melhor das vocações!
    Excelente crônica, e um excelente domingo a todos!

  • Antonio Moreira

    O jardineiro que trabalha mensalmente na minha casa tem me deixado encantado com os resultados daquilo que as suas mãos produzem.

    Pois é, cada um com sua profissão imprescindível para vida humana, inclusive o setor jurídico, embora diferente das demais profissões, é uma das classes notadamente mais remunerada no Brasil.
    Onde trabalho:
    Recentemente, um pai de aluno chegou na sala que trabalho e suas mãos transformaram o ar condicionado que estava praticamente morto em um aparelho vivo e produtivo.
    Um técnico (de eletrônica/Informática) transformou 3 computadores quebrados em uma máquina funcionando.
    Um outro técnico de eletrônica e Professor, sem demora , instalou um motor e configurou controles para abrir/fechar o portão da garagem da escola.
    Todos como amigos da escola e uma espontaneidade gigante.
    Levei uma colega até a sua casa e ela me disse que tinha uma empregada (está afastada do trabalho por motivo de doença) que deixava a porta da sua casa (patroa) bem limpinha. Realmente, tinha bastante mato. Desci do meu carro e precisei de mais de uma hora para deixar a porta da casa dela um brinco. Infelizmente o rapaz que ficou de limpar …
    //
    – Ei, não vai me entrevistar, não?
    Olhei e identifiquei: era Ronald Golias, comediante que fazia o Brasil rir até calado.
    De fato, esse cara era muito engraçado…

    Ontem, fim de tarde, cheguei correndo no fim da Pajuçara (Beer CRB), deparei com 4 homens de costas com os braços para cima sob o controle de um policial. Eu estava com uma vontade enorme de fazer xixi, então apontei com um dedo para a minha “bilunga” e o policial entendeu meus gestos (eu estava desarmado) e gentilmente permitiu eu acessar o lugar onde eles se encontravam (próximo a jangadas) … Tudo isso aconteceu rapidamente. Que alívio!!!

    • Fernando

      A que ponto chegamos, a violência está tão normal que nem uma cena de um homens armados e outros com braços suspensos foi capaz de inibir o “cabo Jorge” de bater continência e se aliviar. Hilário sem dúvida.

  • Eduardo Antonio de Campos Lopes

    A inusual vocação, cada vez mais rara, cada dia mais “cancelada”. Onde a encontramos senão no passado.

  • Oliveira

    Há humoristas que o seu combustível é seu próprio riso assim era Golias um gênio

  • Antonio Carlos Barbosa

    Texto para reflexão e orientação, principalmente aos nossos jovens vestibulandos e aqueles que estão procurando suas profissões, seus ofícios. Se guiem bela belíssima e singela fala do comediante e ator Agildo Ribeiro.
    “vocação é aquilo que a gente faz com mais facilidade e prazer. Se isso nos rende a sobrevivência, melhor ainda”.
    É o que basta.
    Vida que segue.