Ainda de cabeça baixa, ela foi se arrastando numa interminável fila de cinco pessoas à sua frente. Os minutos saíam das horas cravadas numa lentidão idosa e ela fazia o percurso no chão de piso imperial com as vergonhas dos condenados. Não pela sua vida miserável nascida de um ventre solitário, mas pelos olhares peludos e galopantes do repulsivo desprezo dos pares andantes. Ali, naquela fila, os pés eram de couros reluzentes e os rostos traziam a seiva da beleza dos cosméticos. O homem de trás recuava como um corcel domado, sob a maestria de arreios prontos para soltar o animal por cima daquela raquítica criatura que sujava o seu dia, o seu supermercado, o seu lugar, o seu Deus do fausto presépio na sala de estar. Era dele a vida, o dinheiro e o menino-deus que estava para nascer — “Ora! Que o divino rebento esperasse um pouco mais para vir ao mundo… depois das compras”. O homem de trás tinha muito o que levar do supermercado, ainda. Não era possível que aquela fedelha, esmoleira e com odor acre fosse tirar a pureza de um dia tão esperado para os bons de coração.
                             A menina via que o caixa estava sob uma luz opaca e coberto por uma névoa escaldante, como uma miragem em campo aberto do deserto humano. Mesmo assim, ela avançou, depois que a quinta pessoa pagou as compras. Faltavam quatro. “Não vou conseguir ver Naninho comer o chocolate branco. Vão me tirar daqui. ‘Tô cum medo’. Vou correr”, pensou.
                             O menino, sujo pelo tempo das ruas, estava inanimado lá fora, como quem estivesse paralisado pela demora impiedosa. Lambia seus pequeninos lábios e fazia uma careta de choro iminente. Seus quatro anos se perdiam na fantasia de um mundo doce, a dividir seus devaneios com a irmã dois anos mais velha, a que estava no corredor da morte, sob a adaga da desafeição.
                             A menina, por fim, alcançou a fronteira de uma planície que jamais estaria em seus planos: comprar um chocolate para Naninho no Natal. Ela tinha pedido numa beira de calçada as moedas de sempre. Mas nesse dia, tudo o que queria era juntar uma pequena fortuna de sete reais para comprar o doce do irmãozinho. Conseguiu até mais, sete reais e noventa centavos. Tinha no bolso o orgulho e a força da persistência em arrancar um sorriso desdentado do seu único parceiro de desolação.
                            A moça do caixa ainda deu um troquinho do dinheiro miúdo e colocou num saquinho aquilo que foi o maior presente de todos os tempos para aquela menininha de olhos fundos de fome: ter sobrevivido aos olhares indiferentes de uma gente limpinha, com mais de sete reais em suas vontades.
                                                                                         Osvaldo Epifanio (Pife)

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  • Há Lagoas

    O Natal hoje, reflete aquilo que nos tornamos!
    Muitos são aqueles que comemoram o nascimento dEle, mas sem convidá-lo!
    É profundamente triste que a hipocrisia tenha um lugar de honra na maioria das ceias de natal…
    Ainda bem que, nas grotas, comunidades e assentamentos, ainda existe o verdadeiro espirito do Natal. Na sua simplicidade, no seu compartilhar e na sua alegria sincera, comemorando tão somente, que o Salvador veio – principalmente para os desvalidos – trazendo esperança de um novo porvir.

  • Antonio Moreira

    Era o mercadinho de referência do bairro. Uma senhora pobrezinha quando pagava sua pequena compra entregava o dinheirinho na mão da dona do mercado. A dona jogava troco no local onde passavam as mercadorias e sequer olhava no rosto da cliente.
    A cliente disse para um ex colega de trabalho: aqui na sua venda além de botar as moedas na minha mão o senhor ainda diz muito obrigado.

  • Mac Medeiros

    Que crônica mararavilhosa! Me senti fisgado, conectado, remoído com a capacidade descritiva do professor Osvaldo PIFE. Fui arrebatado para um mundo que não conhecia. Fui teletransportado emocionalmente para esse “conto” não tão de fadas, por assim dizer. Parabéns Ricardo, pela postagem! Parabéns Pife, pela maestria intelectual e pela sensilibilade literária descomunal!

  • Laskdo

    Brilhante crônica. O personagem fora de contexto; menina pequena, sozinha, fedida e mal vestida, em um lugar predominante de repulsivos adultos, infelizmente o oposto do que é socialmente convencionado. Acho que a mensagem sugere mais empatia e menos preconceito.

  • RICARDO GOIS MACHADO

    Tudo real.
    E não nos esqueçamos que grande parte da miséria é consequência da roubalheira e da corrupção da classe política.