Faz parte da rotina do meu “novo normal” assistir a um filme a cada dia. Melhor: a cada noite. E foi seguindo com rigor essa programação eclética e prazerosa que eu revi o documentário O inimigo do meu inimigo, de Kevin Macdonald.

O filme conta a trajetória do oficial nazista Klaus Barbie, o Açougueiro de Lyon, que se exilou na Bolívia depois da 2ª Guerra Mundial. Ele foi o responsável, na França rendida e ocupada, pela prisão e morte de Jean Moulin, o líder da resistência francesa (não confundir com o governo colaboracionista/nazista da França do período da ocupação).

O criminoso, que foi contratado pelos EUA, após a guerra, para combater o comunismo e que atuou na estruturação e apoio a várias ditaduras na Bolívia, ficou mais conhecido pelas suas técnicas de tortura e pela sua impiedade. Eis que no seu julgamento, em 1987, na França, vemos o depoimento pungente e sincero da sua filha, que o via como um homem “doce e afetuoso”.

Barbie era um “homem comum”, como já havia nos alertado a filósofa Hannah Arendt sobre Adolf Eichmann, outro carrasco nazista, que foi julgado em 1961, em Jerusalém (ela foi massacrada por isso. Não suportamos ser flagrados na alma).

A ficção também trata bem e profundamente esse tema: um pai bandido pode ser “doce e afetuoso”, como o Açougueiro de Lyon foi com sua filha – que culpava a guerra pelas acusações feitas e ele.

Em Muito mais que um crime, feito quase vinte anos antes do documentário sobre Klaus Barbie, o diretor grego Costa-Gavras conta a história de um carrasco nazista (húngaro) que se tornou um bom cidadão e um ótimo pai nos EUA, país onde se refugiou no pós-guerra. Como é tocante a dor da filha advogada que reconstrói a vida do seu “herói”!

(Vale o registro sobre a arte premonitória: Chaplin começou a produção de O Grande Ditador em 1937, dois anos antes da deflagração da 2ª Grande Guerra.)

Em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa nos traz como personagens fundamentais jagunços impiedosos, mas que se desmancham em ternura e amor pelas suas crias – a arte imitando a vida ou vice-versa, não importa.

Não há paradoxos nessas narrativas, as reais ou as inventadas: elas tentam traduzir a complexidade humana e, principalmente, esse mistério ainda tão pouco desvendado que é o “homem comum” – seja o de Arendt, seja o de Montaigne.

O comportamento paternal, “doce a afetuoso”, pode ser ainda mais revelador da índole do criminoso: este teria discernimento sobre o mal que pratica, mas pratica – ainda que protegendo os seus da sua sordidez. Enfim, é quase que uma confissão involuntária.

Já tive a oportunidade de conhecer pessoas exemplares, boas e generosas, filhas de criminosos perversos, perfeitos pilantras, corruptos assumidos. É claro que o contrário também existe, o que só confirma a máxima de que não há um jeito único e seguro de “fazer gente” – a mais difícil e adorável tarefa a que alguém pode se dedicar, deliciosamente agridoce.

Imagino que para um pai – ou mãe – a pior de todas as penas há de ser a constatação, nas últimas curvas, de que botou um canalha no mundo. Até porque se não é justo condenar um filho pelo que o pai foi ou é, não podemos também nos eximir de culpa se o nosso legado não for simplesmente “um bom sujeito”, alguém que vaga pelo planeta carregado dessas coisas que não dão dinheiro.

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  • Antonio Carlos Barbosa

    A maior alegria de um pai e mãe, é que suas crias sejam melhores que os seus criadores.
    Vida que segue.
    Bom domingo.

  • Há Lagoas

    Meu velho pai me ensinou – dentro de sua simplicidade – caso eu caísse em algum erro, uma simples frase proferida por mim o absorveria pela eternidade.
    Essa frase seria: “Bem que meu pai me avisou”. Isto seria a remissão dele, saber que me ensinou o caminho certo.
    Lembrando sempre: Princípios e legados não se negocia.
    Um bom domingo a todos!

  • Laskdo

    ‘O comportamento paternal, “doce a afetuoso”, pode ser ainda mais revelador da índole do criminoso: este teria discernimento sobre o mal que pratica, mas pratica’. Perfeito! Se ele esconde até dos seus, a ponto de ensinar o certo, então ele discerne e condena o mal que faz escondido a outros.
    Não foi o caso de Pablo Escobar, ele também é retratado como pai e marido afetuoso, embora no seu caso ele não escondia da sua família, todos sabiam que ele era bandido e cruel com seus inimigos. Será que nesse caso, seus familiares seriam cumplices de suas maldades? Moralmente sim, porque podiam pelo menos discordar ou se afastar. Agora se NÃO tinham participação e nem usufruto dos mal feitos dele, então NÃO tinham responsabilidades.

  • Antonio Moreira

    Se o homem é capaz de amar uma mulher
    como ele é capaz de matar a/o sua/seu filho/a?

    Por que muitos matam membros da família para ficar com os bens/dinheiro?

    A casa era pequena, mas nunca presenciei desentendimento entre meu pai e minha mãe.

    Meu pai já era aposentado e passou um tempo fazendo um serviço no matadouro de boi da prefeitura da cidade.

    Eu e meus dois filhos ganhamos cada um bezerro de presente, mas confesso que não me senti
    bem quando disseram que tinha ferrar o animal.
    Agora, imagine fazer o serviço que meu pai fazia no matadouro!!!

    Já faz um bocado de tempo que como peixe quase todo dia,
    mas gosto e como um pouco de carne (bovina/frango) sem problemas.

    • Laskdo

      Sua história lembrou uma que aconteceu com meu filho. Há 32 anos quando ele nasceu ganhou do avô uma bezerra, fiquei impressionado, pois ele não era de dar nada a ninguém, muito menos seus bichos. Mas por não ter onde criar deixamos na fazenda do avô dele, junto com mais 1500 animais que ele tinha na fazenda. Anos passaram e viajamos ao interior para ver a vaca, imaginávamos encontrá-la adulta e já com várias crias, infelizmente tivemos uma surpresa, segundo o avô do meu filho apareceu uma cobra, picou a bezerra e ela morreu. Fiquei pensando, a cobra se rastejando por todo aquele pasto com mais de 1.500 bichos e acertou de picar justamente na bezerrinha do meu filho, pense num azar?

      • Antonio Carlos Barbosa

        Prezado Laskdo, pelo início do seu relato sobre a personalidade do avô do seu filho, o final já era previsível.

  • Lucas Farias

    Prezado Ricardo, Hannah Arendt nos legou uma análise crua e dolorosa de como nossa espécie é humana, demasiado humana. A banalidade do mal que ela descreveu em Eichmann escandaliza por revelar que não havia nada diabolicamente excepcional no oficial que colaborou com o planejamento do holocausto sem nenhum remorço e que, sim, com apoio popular do “cidadão de bem” que via nos outros (judeus, comunistas, ciganos, homossexuais, negros, pessoas com deficiência etc.) os inimigos que ameaçavam seu estilo de vida, suas crenças e valores. No excelente filme “A Queda”, a brilhante atuação de Bruno Ganz no ambiente melancólico e claustrofóbico do bunker nos faz entender os estranhos sentimentos de empatia e lealdade que aquela secretária continuava nutrindo pelo líder nazista às vésperas do fim inevitável. O homem que promoveu a mais terrível das hecatombes de nossa história era, afinal, vegetariano e amava sua cadela Blondi. Um abraço e bom domingo.

    • Fernando

      Hitler era católico e foi um seminarista exemplar, não sei o que isso significa, mas foi.

  • Edson José de Gouveia Bezerra

    ..um belo texto, uma delícia como expõe na densidade dos dilemas….Parabéns grande…

  • Dayane

    Que bom que li essa crônica, ainda que tardiamente. A dicotomia humana segue intacta, mesmo com tantas bengalas tecnológicas. Acredito que potencializou-se, inclusive. Vc sempre cirúrgico em temas tão complexos.
    Já anotei o nome do filme, inclusive.