Há autores difíceis? É claro que sim. E é para isso que existem o estudo e a disposição intelectual para darmos alguns passos adiante. Mas eles não podem ser confundidos com os prolixos intencionais, os enganadores da oratória adiposa e inconsistente.

A linguagem empolada – e não trato aqui especificamente do uso e abuso do latim, tão apreciado por juristas – pode esconder uma grande e monumental fraude, e se buscarmos entender o que de fato foi dito, podemos chegar à triste conclusão de que há mais ilusionistas verbais do que os artistas teatrais/circenses que usam a nossa distração em proveito dos seus números.

Em Fome de saber, o primeiro volume da sua autobiografia, Richard Dawkins mostra como é fácil ser um farsante nos tempos de hoje, ganhando fama de gênio incompreendido. Um dos maiores biólogos e polemistas do planeta, ele guarda outra grande paixão: a ciência da computação.

O autor de Desvendando o arco-íris nos alerta para o fato de que vários programas de computador, ótimos para estudar gramática – e ele criou alguns –, podem ser incubadoras do que ele chamou “metabobageira pseudointelectual”, que você também pode batizar de “engana otário” (e nós podemos ser a vítima, não esqueça). Assim, qualquer um, apertando apenas a tecla enter do computador, pode construir textos com “sentido sintático, mas não semântico”.

E como nada melhor do que um ilusionista para desmascarar outro, ele indica o método de Andrew Bulhak, que colocou na internet o software Gerador de Pós-Modernismo, que ensina a elaborar preciosidades vazias e impactantes. É dele o texto abaixo:

“Ao examinarmos a teoria capitalista, nos vemos diante de um impasse: rejeitar o materialismo neotextual ou concluir que a sociedade tem valor objetivo. Se o dessituacionismo dialético tem validade, temos de escolher entre o discurso habermasiano e o paradigma subtextual do contexto. Pode-se dizer que o sujeito é contextualizado num nacionalismo textual que inclui a verdade como uma realidade. Num certo sentido, a premissa do paradigma subtextual do contexto afirma que a realidade advém do inconsciente coletivo”.  

Impressiona, eu sei, mas não se assuste. Qualquer um de nós, não sendo um ilusionista, pode cair na armadilha de um gênio incompreendido. É ficar atento, e sempre que um autor ou um orador nos parecer incompreensível e inatingível, perguntemo-nos por que sujeitos que ocupam generosos espaços na história da inteligência humana – Sócrates, Platão, Tales,  Aristóteles, Diógenes, Montaigne, Schopenhauer, Nietzsche  etc. – conseguiram ser claros e acessíveis aos que não têm preguiça mental (e não precisamos concordar com eles, certo?).

Há autores, e isso também é verdade, com os quais só atamos relações quando nos familiarizamos com sua linguagem, sua escrita heterodoxa – como José Saramago e o maravilhosamente brasileiro Guimarães Rosa (a quem sempre reverencio aqui). Mas, meus queridos e minhas queridas, quando começamos a nos entender com eles descobrimos uma nova – e definitiva – forma de paixão.

Eu sei: há os outros, os pescadores de palavras em dicionários, verbosos, aqueles que se fazem de sabichões para enganar os bestas. Em Imposturas intelectuais, Alan Sokal e Jean Bricmont, dois físicos e gozadores, trazem a narrativa de fraudes cultuadas e cultivadas por pensadores pós-modernos, que conquistaram bandos de seguidores apaixonados, com sua linguagem protocientífica. Afinal, a Matemática, a Biologia e a Física inspiram credibilidade e dão sustentação a muitos discursos, levando-os, tantas vezes, à condição de irrefutabilidade (aquela história do caolho em terra de cego).

(Atenção: se você aí do outro lado for do sexo masculino com convicção de gênero, vá com calma à conclusão dessa conversa domingueira – não se impressione nem se sinta humilhado.)

A dupla Sokal e Bricmont, que desvendou o mistério de tantos gênios incompreendidos, cita o exemplo de Jacques Lacan, influente psicanalista, que não satisfeito com sua obra e graça na área em que atuou profissionalmente – e com muito sucesso -, invadiu a álgebra com uma pérola que há de ter lacrado junto ao seu extenso fã clube: para ele, o órgão erétil, tão caro ao seu dono, corresponde à raiz quadrada de -1 (menos um).

Ah, coitado!

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  • Antonio Moreira

    Há muito tempo, desconfio quando 100 % diz:
    Ah, esse(a) é bom!!! Agora encontrei a solução para minha vida!

    Em vários ramos de negócios sempre ficamos sabendo por diversos meios de comunicação e até por vítimas que foram enganadas/roubadas/violentadas por gênios das malandragens.
    Ainda assim, existe muita gente continua defendendo/apoiando enganadores impunes.
    Que diabo esse povo tem na cabeça?
    Que necessidade é essa de acreditar em tudo?
    Também tenho o direito de sondar, analisar e tirar minhas conclusões.
    Ninguém é obrigado assinar nada ou teclar para ganhar um possível falso tesouro.
    Isso não significa que NÃO posso ser enganado…

    Há 30 anos, como amador, adorava criar, alterar e compilar meus programinhas.
    Assim como fiz muito para facilitar/agilizar serviços nos meus trabalhos. Toda estrutura escrita em inglês. Uma vez ou outra ainda gosto de reinar…
    Uma Professora(Brasileira) de inglês disse, quem criou o WhatsApp é um gênio. Ele foi perfeito em formar a palavra “WhatsApp”.
    Ela disse que nos Estados Unidos já existiam aplicativos de textos gratuitos, portanto, os Americanos usam para interagirem como por exemplos – Europeus e Brasileiros porque usam bastante o WhatsApp.

    Os pais buscaram todo tipo de ajuda – sua filha vacilou, opção por mesmo sexo:
    Um malandro apoiado de uma muleta, começou tocando nos membros superiores da moça e ele perguntava se ela estava sentindo alguma coisa.
    Quando ela percebeu a sacanagem, ela deu-lhe uma pesada – a muleta foi para um lado e o tarado para outro – no chão. Não sei quanto foi a consulta.
    Foi um relato de um colega de trabalho. A moça é prima dele.

    • Laskdo

      Só para curiosidade: há mais de dois mil anos já existia o “WhatsApp”, eram os pombos correios. Talvez tenha sido inspirado.

      • Antonio Moreira

        Ok. Ela quis dizer, a palavra foi inventada, ou seja, a palavra não existia na língua inglesa. What significa uma coisa. App significa outra coisa. Enfim, juntou as palavras e combinou perfeitamente com o serviço que esse aplicativo chamado Whatsapp oferece para o mundo.

  • Tales

    Mesmo com seu aviso, me senti humilhado.

  • Desconfiado

    Tipo Olavo de Carvalho, que de bobo não tem nada!

  • Laskdo

    Excelente Texto Ricardo. Às vezes a “linguagem empolada” tem sua sofisticação, um sertanejo foi jantar na casa de uma grã-fina na capital, que era adepta da linguagem em questão, na hora de servir o prato principal ela disse: -agora vcs comerão flocos de milho vaporizado com entranhas suínas”, ou seja, cuscuz com tripa de porco. Imagine a surpresa agradável do cabrõco.

  • GUILHERME BRAGA

    👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
    É um prazer ler suas crônicas todos os dias mais principalmente no domingo.

    Continue assim sempre!

    Um grande contador de histórias deliciosas da vida e principalmente do nosso dia a dia.

    Guilherme Braga

  • Antonio Carlos Barbosa

    “Quem escreve deve ter todo o cuidado para a coisa não sair molhada. Da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as necessárias. É como pano lavado que se estica no varal”
    Graciliano Ramos.

  • Neto

    “Eu sei: há os outros, os pescadores de palavras em dicionários, verbosos, aqueles que se fazem de sabichões para enganar os bestas.”

    Só lembrei do chato do Cel RR Joilson Gouveia, o que escreve muito, mas não diz e nem acrescenta nada!