Sim, gente, um brasileiro já recebeu o Prêmio Nobel, e de Medicina/Fisiologia. O laureado foi o biólogo Peter Medawar, nascido em Petrópolis, em 1915. Filho de uma inglesa e de um empresário de origem libanesa, ele cresceu no Brasil e aqui ficou até os 15 anos de idade, quando foi para a Inglaterra com a família.

Na terra de Darwin, ele fez os seus estudos e tornou-se uma referência mundial em imunologia. Suas descobertas são consideradas fundamentais para a realização de transplantes em humanos. Medawar foi além das pesquisas científicas, escreveu sobre filosofia da ciência e se tornou também um ferrenho crítico do “esnobismo” britânico. Ele conta em um dos seus livros:

– Dizem que na antiga China os mandarins permitiam que suas unhas das mãos crescessem tanto que os tornassem visivelmente incapacitados para qualquer atividade manual, e com isso deixavam bem claro que eles eram refinados e superiores demais para se dedicarem a tais afazeres. Esse é um gesto que não pode deixar de agradar aos ingleses, que suplantam todas as demais nações em esnobismo.

Se por aqui tivesse permanecido, o “biólogo britânico” poderia estender suas críticas aos nacionais. Num país, o nosso, cuja economia se desenvolveu a partir do trabalho escravo, persiste o preconceito em relação aos ofícios desenvolvidos pela força e/ou habilidade manuais.

Por esses tempos de pandemia, muitos de nós tiveram de (re)descobrir os trabalhos domésticos, repetitivos, e que nos remetem ao castigo de Sísifo, condenado a empurrar diariamente uma enorme pedra até o alto do morro e vê-la cair sempre que atingia o topo. Enxergar-se na mitologia grega talvez abrande mais a nossa repulsa às atividades que vamos abandonando com o avançar dos anos – os que podem, que fique claro.

Eu fui criado na velha Buarque de Macedo, numa família de cinco irmãos. Ainda que na minha casa quase sempre uma empregada doméstica ajudasse nos afazeres diários, todos nós tínhamos missões a cumprir: forrar a cama, a cada manhã, lavar os pratos após as refeições, além das tarefas do final de semana. Aos sábados, eu e o Beto, meu irmão, nos revezávamos nos deveres de encerar a casa – uma dureza, viu, gente?- e engraxar todos os sapatos da família (e a graxa não era líquida). Só estávamos autorizados a sair para brincar, jogar bola, ir para a praia – e até ganhar um trocado – depois que cumpríamos a dupla missão.

Com a meninada da rua, aprendemos a fazer preciosidades com as mãos: caminhões de madeira e lata de óleo, patinetes, gaiolas, tudo que era ambição de posse brotava dos trabalhos manuais, que desenvolvíamos na linha de produção doméstica. O suor derramado e até alguns pequenos acidentes com as ferramentas precárias usadas eram recompensados pelo prazer de ver, pronto e acabado, o objeto que se tornaria o centro das nossas vidas, pelo menos por um tempo.

Trabalhar “como um mouro”- expressão que, hoje sabemos, está carregada de preconceito – era parte da nossa existência de meninos e adolescentes da família Mota e também da garotada que crescia junto, rumando sabe-se lá para onde, em aceleradas corridas pelo chão de terra batida.

Fato concreto, o que há de valer para britânicos e todas as nacionalidades espalhadas pelo planeta, os trabalhos manuais só alcançam respeito e admiração quando realizados por artistas plásticos. No mais, em todas as sociedades contemporâneas ocidentais, eles são destinados às mulheres – ainda – e às camadas sociais mais pobres.

Cá para nós: pode ser até mais um daqueles projetos de vida que nunca haveremos de pôr em prática, como o pai de Carlos Heitor Cony – Quase memória -, mas guardo grande esperança de que ainda poderei retomar minhas habilidades manuais perdidas lá na infância.

Enquanto não tenho de volta o tempo perdido, sigo por aqui lavando prato, algumas peças de roupa e ajudando em outros trabalhos de Sísifo.

Mãos à obra.

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  • Nilda de Oliveira Chagas Fuonke

    Voltei à infância agora, com esse seu post. Lá em Santana do Ipanema éramos dez filhos e todos tinham atividades a cumprir, seja durante a semana, seja antes da brincadeira na rua com a molecada, ou no sábado, dia de feira, quando a trabalheira era maior.
    E as tarefas eram divididas por idade, de acordo com sua complexidade.
    Trouxemos nossas habilidades para a vida de hoje, tão cara e com mão de obra difícil.
    Não tínhamos nada em excesso, mas éramos felizes.
    A felicidade, essa sobrava. Trouxemos uma boa reserva dela para o hoje.

  • Há Lagoas

    Já faz algum tempo, descobri o “ofício” de jardineiro em minha humilde morada. Não é lá grande coisa, se comparado aos outros, mas tem me servido de refúgio, principalmente nestes dias. Cavucar terra, recolher folhas, retirar galhos secos e ambiciosos “projetos paisagísticos” tem me consumido um tempo cada vez maior, cujo reflexo são dores nas articulações…
    Soma-se a isso as tarefas domesticas, auxiliando minha esposa naquilo em que ela permite minha participação.
    São essas simples tarefas, meu caro Mota, que me permitem sentir o gosto da vida. Nas necessárias tarefas domésticas, existe um segredo salutar, a simplicidade!
    Um Bom Domingo a todos!

  • Gilson Monteiro

    Leitura “amena” mas sem fugir da reflexão desses tempos covidianos. Amo essa capacidade de se olhar as coisas por um viés diferente, mas sem fugir do assunto que só o cronista consegue observar.  Quando sai mesmo o livro com a coletânea? rsrs

  • Antonio Moreira

    Tinha pouca idade, andava 3 km para ir e 3 km para voltar, tinha essa missão quase a semana toda para levar uma marmita (almoço/jantar) para o meu cunhado na usina onde ele trabalhava.
    Também Motoristas de caminhão de cana paravam e me davam carona.
    Uma vez uma motorista me perguntou: você é pai de quem, menino? – Prontamente lhe respondi: Sou seu pai e marido da sua mãe. Ele logo mandou eu descer da boleia do caminhão e continuei a minha viagem a pé.
    Juro, não respondi por maldade. Acho que é a primeira que vez que estou contando isso. Que vergonha!!!

    Também brinquei um bocadinho. Eram coisas simples da época, do lugar, da rua onde eu morava.

    Em um carrinho de mão, eu entregava uma lata de 20 litros de água no hospital da cidade.
    Funcionárias do hospital eram quem tiravam a lata do carrinho porque eu ainda não tinha força suficiente para fazer isso.

    Aos 14 anos comecei a trabalhar em um Supermercado, fazia de tudo, embora o senhor pai do dono da empresa não permitia pegar coisas pesadas.

    Sou muito grato toda a família dono da empresa. O tempo passou, faz 10 anos, tenho uma inquilina muito especial. O pai dela(sobrinho do dono da empresa), era o gerente da empresa e me tratava com muito respeito. Sempre me levava para os cantos onde ia.
    Fui até assistir filme em Recife-PE.

    Estou já chegando aos 60 anos de idade, não tenho mais nenhum desejo de projeto material na vida. Vivo uma sensação de um animal de barriga cheia.

    Independente dos dias de hoje, gosto muito de me movimentar, exercitar as mão, os braços e o meu corpo. Se eu ficar muito tempo sentado, parado, sinto as pernas travadas.

    Sei dos meus limites na leitura, dos meus estudos, mas ajudaram bastante na construção da minha vida profissional e no homem que eu sou.

    Resposta

    Caro Antônio:
    Cada vez mais eu lhe respeito e gosto dos seus comentários.
    Grande abraço,
    Ricardo

  • Antonio Moreira

    Uma revelação – Quando percebi que era um Jornalista diferenciado:

    Há muitos anos, gostava mais de escutar rádio, com exceção do Ricardo Mota, em nível de Brasil, nunca ouvi um outro Jornalista pronunciar a palavra “Seriíssimo”.
    Séri-o + o sufixo íssimo.

    Muito obrigado mais uma vez, Ricardo (você havia me dito 2 vezes pessoalmente que meus comentários eram bem-vindos no seu blog).
    Obrigado mesmo.

    Grande abraço.
    Antonio Moreira

  • M100

    Caro Ricardo! Vivi tudo isso e ainda passo por tal na situação do momento.. A mão está lisa de tanto lavar pratos, panelas, talheres..rsrsrsr. Lá atrás, fabriquei os carrinhos de lata de óleo, carrinhos de rolimã, pipas, encerava casa com aquele aparelho de altíssima tecnologia – de ferro que pesava uns 20 kg, vendia adesivos que “fabricava” com figuras do Snoopy e lembro que um dos maiores “castigos” era pegar as panelas de ferro, alumínio, quase “pretas” e deixá-las sem um pingo de vestígio do preto!!! Haja bombril e reclamações veladas e silenciosas…
    E também faço meus almoços, entre muito trabalho “rôumiófici”…
    Fato que esses afazeres domésticos me fazem uma pessoa melhor, independente e agradecendo sempre aos meus pais, principalmente à minha mãe. Tudo isso engrandece o ser humano,,,