Eu li Doze Contos Peregrinos, de Gabriel García Márquez, de forma apropriada, como me parece ainda hoje: viajando. Entre o aeroporto, o avião e o hotel. Que maravilha!

O Gabo conta pequenas, trágicas e iluminadas histórias – como sempre, de forma cativante.

Lembro-me de várias delas, como a da jovem recém-casada que fura o dedo no espinho de uma rosa, com desfecho surpreendente e pungente. Outra é um enredo bem comum a todos os mortais: o viajante fantasia um romance “vivido” com a bela passageira ao lado. Paixão que dura o tempo exato do voo.

É claro que dá para ler o livro, com prazer, em condições e lugares em tudo diversos de como eu fiz; mas dentro de um avião foi impagável.

Bem além do amor romântico, as viagens aéreas inspiram muito medo, resultando em histórias risíveis no currículo de personalidades tão queridas por nós, brasileiros. O poetinha Vinícius de Moraes ficou conhecido não apenas por sua encantadora obra: tinha pavor de avião.

Em sua fase baiana, ele costumava, já dentro da nave, tomar um banho de farinha para se livrar de surpresas desagradáveis. E não se preocupava muito – ou nada – com quem estranhava o seu ritual “poético-espiritual”.

Mais radical ainda, Tim Maia entornava um litro de uísque antes de alçar voo. As confusões eram inevitáveis. Numa delas, foi preso ainda no aeroporto. Indagado, certa feita, se após a bebedeira ele perdia o medo, o “síndico” foi taxativo:

– Depois, eu piloto até o avião.

Já o Dom Quixote da nossa língua pátria, Ariano Suassuna, resistia , tanto quanto possível, a entrar naquele gigante de metal, bem mais pesado que o ar – uma grande criação da mente humana.

Nem os melhores argumentos conseguiram convencê-lo de que era mais seguro voar do que andar pelas estradas esburacadas e mal sinalizadas do Brasil: “E se o motorista cochila, ou perde o controle do veículo à beira de um abismo, isso não é mais arriscado?”

A voz da sabedoria:

– O problema com o avião é que o abismo nos acompanha durante toda a viagem.

Eu já chacoalhei assustadoramente no vácuo em um voo ao Recife, numa manhã de sábado de carnaval. À medida que nos aproximávamos dos sons dos metais, mais crescia a nossa suspeita de que o tal abismo virara nosso companheiro de viagem.  A expressão de pavor nos olhos das comissárias de bordo e a voz hesitante do comandante denunciavam que algo desagradável estava muito próximo de acontecer e que íamos celeremente ao seu encontro.

Deduzi conformado, quase, que seria o “inferno”, pela simples razão de que ele estava abaixo dos meus pés e acima, talvez, das minhas expectativas.

Ele não veio e eu não fui – pelo menos por enquanto.

A diplomacia suína do deputado Eduardo Bolsonaro
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  • Democracia ao PONTO: garçon + 1 cana, tira gosto SARDINHA péÓóRrrrr sem ELA!

    Caro Ricardo MOTA … um bom domingo nas asas da Panair [1929-1965]!
    Aérea pulverizada por desrazões da maroLLinha demoCrôta 1964-1985
    … e tão BEM Dominguinhos [1941-2013] cultivoua tOnto medo!
    > É q … ‘o abismo nos acompanha durante toda a viagem.’ [Ariano 1927-2014]
    – Mas … ‘Depois, eu piloto até o avião.’ [TIM Maia 1942-1998]
    E com alegria LOVE is in the AIR no Tico Tico no Fubá (1917) em o2′ 34
    … com Yamandu nas cordas e Dominguinhos nú fole resfulengão.
    https://youtu.be/nizF-qwguhM
    Garçom + 1 ! ! !, p’um choro da 1a República 1989-1930.
    DE Zequinha de Abreu (1880 Império-1935 G Vargas I)
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Zequinha_de_Abreu

  • Meu NOME é Gal desejando rapaz: SEM cultura NEM crença OU tradição, AMO igual!

    Aí, caro Ricardo … quem BEM avoava: Carmem Miranda em BOM português n’u$_tate$!
    > 1 Tico-Tico só lá comendo todo, todo, meu fubá, seu Nicolau
    … do pica-pau 1 tiro sai? – Gravação de 1947 – COLORIZADA!
    – E alegre já voando saltando de lá para cá, 1 dia ele num voltou
    … fubá o vento levou: num era um, já dois: ninhos e filhinhos!
    https://youtu.be/oFw9HWUdYF4

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Tema universal esse do medo da morte… de muito maior impacto do que aqueles temas abordados no livro mencionado, que fala das (desarrazoadas, talvez…) estórias que passam nas mentes de muitas pessoas quando embarcadas em uma aeronave… mas a natureza e suas leis (inevitáveis) está sempre presente na vida de todos… e a morte (do veículo biológico) é algo tão natural quanto o nascer (de novo?!!!) neste mundo… já o mais importante de tudo é a verdade imanente que muitos de nós insiste em negar, e que está muito claramente narrado não só nas mais antigas tradições de civilizações antigas, quanto no domínio do pensamento exotérico e espiritista da atualidade: a vida sempre continua… outro dia ouvi uma narração bastante jocosa: um cidadão tinha um verdadeiro terror de viajar de avião e não havia quem o fizesse entrar em um deles… o interessante é que morava perto de um aeroporto… até que, um dia, um avião de pequeno porte caiu em cima de sua casa com ele dentro e ele enfrentou, de qualquer maneira, o que tinha muito medo que era morrer (para uns, para outros, é desencarnar) de acidente de avião…!!! mas, mesmo que não queiramos pensar, ou tenhamos um medo sem fim, mais dia, menos dia, haveremos todos de passar (mais uma vez?!!!) por essa experiência… e o que é mais interessante, ainda, é lembrar que, mesmo todos os doentes que foram curados, como narrado nos evangelhos, e até mesmo Lázaro, que dizem foi “ressuscitado”, um dia tiveram que enfrentar a “passagem” e ninguém ficou aqui, com um corpo biológico, para sempre… creio que o mais sábio, na vida, é ficar com as proféticas palavras de Jesus: “ninguém verá o reino de Deus se não nascer de novo”… e entendam como quiserem… bom domingo.

  • Antonio Moreira

    AVIÃO:

    A mulher rezava na poltrona ao lado de Leandro Karnal enquanto ao avião passava no catabilho.
    Ela o questionou – Por que o senhor não está rezando também? Ele disse-lhe: Estamos colado um no outro,
    Se Deus lhe salvar, eu serei salvo também! Não lembro, acho que foi aqui no país.
    //
    Faz pouco tempo que vivia momentos de desconfortos emocionais. Não era por causa de R$ 455,00 por uma hora aula, mas pelo medo. A mesma aeronave que se acabou junto com o Cantor Gabriel Diniz, era a mesma máquina que o meu menino pilotou algumas vezes sob olhar de um instrutor. Antes dessa tragédia, uma vez escrevi aqui, do céu cai até avião… e disse também, em um momento cultural(carnaval), o alunado só pedia para tocar “o nome dela é Jennifer.

  • Maria

    Tanta gente se achando grande e superior aos outros e eu só em olhar para o céu me sinto tão pequena e vulnerável.Confesso que para mim é muito tenso e chego a sentir calafrios em viagens de avião,mesmo assim com toda a minha fragilidade não me permito desistir de fazer minhas viagens simplesmente por medo ou qualquer outro tipo de limitação. É que muitas vezes os abismos são criados por nós mesmos e diante disso procuro um jeito de evoluir. A vida é tão incerta, mas vale a pena viver. Não sou nem menos,nem mais, apenas mais uma no meio de tantas igual a mim. É ter fé e esperança e seguir em frente…

  • Nelson

    Meu pensamento levanta voo e volto uns trinta anos no tempo ! Um tempo em que a revista playboy além das belas mulheres sem tatuagem e sem um peitoral largo e braços musculosos, também trazia grandes reportagens e entrevistas. Numa dessas edições, uma conversa com um comandante de vôo intercontinental da saudosa Varig….perguntado sobre o momento mais perigoso de vôo do Rio de Janeiro para Páris, o Comandante disse que era quando tirava o carro da garagem e dirigia até o Galeão ! Mas quando sentava no cockpit do poderoso 747 o mêdo sumia, e a paz e a confiança retornava ao corpo. Com as informações de hoje na internet sobre o funcionamento do avião, só tem mêdo de voar quem quer.

  • CICERO FREDERICO DA SILVA

    Fez lembrar JOÃOZINHO TRINTA:
    quem gosta de miséria é intelectual e políticos.
    A nossa viagem no tempo, vê com deveras preocupação os doentes políticos, que atacam os eleitores não o candidato.
    O que dizer do nosso povo que defende os corruptos, mas na sua familia cala-se.

  • SEBASTIÃOIGUATEMYRCADENACORDEIRO

    A CLEPTOPLUTOCRACIA DA QUAL ESTÁVAMOS REFÉNS NÃO SERIA UM OUTRO TIPO DE VAZIO ABISSAL , MATÉRIA !?

  • Há Lagoas

    Já enfrentei – por puro pavor – a cansativa viagem São Paulo – Maceió de ônibus…
    E não foi uma ou duas vezes!
    E depois que muito a contra gosto embarquei em um troço desses e tive que fazer escala em Brasília, aguardando “pacientemente” umas cinco horas por causa da escala. Tenho visto Maceió cada vez menos…
    PS. Não consigo ler dentro do avião, mesmo que o autor tenha o quilate de Gabriel García Márquez!