Imagino que a maioria dos leitores, assim como este escrevinhador domingueiro, aprendeu o Teorema de Pitágoras concomitantemente aos palavrões mais cabeludos vociferados pelas ruas.

“A soma dos quadrados de seus catetos corresponde ao quadrado de sua hipotenusa” – e está resolvido o problema (ou não).

Só que a história do sujeito que tornou o triângulo retângulo uma das figuras geométricas mais populares do planeta tem mais de três lados: foi matemático (por óbvio), filósofo, místico, político e, nada mais, nada menos, o gênio que descobriu a relação entre os intervalos musicais e as proporções numéricas simples, além de associar a simetria à beleza. Pitágoras tinha uma lógica especial, está claro.

Mas suas ideias políticas não eram lá muito democráticas: defendia a supremacia intelectual e espiritual da cidade de Crotona, no Sul da Itália, levando seus discípulos à morte ou ao exílio. E não há de ser fácil dizer o que foi pior.

Aí, perguntaremos: como o Mestre, que era capaz de ouvir a “música celeste” mentalizando intrincados cálculos matemáticos que expressavam a harmonia perfeita, pôde criar uma seita em que os seguidores eram proibidos de comer feijão – por causa do pum! –, ou até de se aproximar de açougueiros e caçadores (os pecados da carne)?

A turma o seguia cegamente e até surdamente, como só pareceria possível a Ludwig van Beethoven, mais de mil anos depois. Se eles não ouviam a tal melodia cósmica, a explicação estava na ponta da língua:

– O que acontece com os homens é o que acontece com o ferreiro, tão acostumado com o constante bater do martelo que nem é mais capaz de ouvi-lo.

(Acho que isso vale mais até para o que toca por esses tempos – e nem me toca – do que naquele longínquo século VI a.C., não é não?)

O sonho de Pitágoras, entretanto, era atingir um “estado catártico, a completa purificação da alma através do espírito da beleza dos números”, nos diz Marcelo Gleiser: o real e o divino, a ciência e a espiritualidade – tudo tendo a matemática como o fio condutor.

Pitágoras e pitagóricos se fundiram e tiveram sacadas pra lá de interessantes. Exemplo: consideravam o número 10 mágico e o chamavam de tetratkis, já que a ele se chegava, e só a ele, pela soma dos quatro primeiros números. Duvida? Então, conte.

Mas eu queria mesmo era falar da sogra de Pitágoras, uma sábia nas coisas do amor. Ela dizia que “a mulher que se deita com um homem deve deixar a vergonha junto com a túnica, e só retomá-la de volta com o saiote”. Acho até que o conselho serve também para o homem, desde que não seja daquilo tipo de (mau) caráter que faz questão de sair espalhando o ‘feito’ por aí.

É aquela história: entre quatro paredes, o limite há de ser o que for permitido por ambos, prescindindo do testemunho do resto do mundo – que ali não há de caber nem saber, assim continuo achando (e em tempos de nudes, hem, Ricardo?).

Penso que Pitágoras, nem nos seus melhores cálculos, imaginou que poderia entrar em contato com a canção do universo de dentro pra fora, compartilhando-a numa solidão apenas superada pela morte.

(Também, com uma sogra assim o céu havia mesmo de ficar mais perto.)

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