Carregar o título de Almirante Negro não é para qualquer um na história do Brasil. É exclusivo de João Cândido, líder da Revolta da Chibata, um momento heroico das camadas mais pobres de um país ainda marcado – até hoje – pela crueldade da escravidão.

O negrão alto, forte, respeitado e admirado pelos colegas humilhados, a quem comandou no motim, em novembro de 1910, que finalmente possibilitou a proibição dos castigos físicos impostos pelo oficialato branco aos afrodescendentes que formavam – majoritariamente – a Marinha do Brasil.

João Cândido e seus companheiros terminaram vencendo essa batalha, mas a custo de muito sofrimento. O herói de tez escura e clareza de princípios, no entanto, penou as dores da prisão e do Hospital Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro, após comandar a revolta. Foi lá, ao que parece, que desenvolveu um inusitado talento: o de bordador.

Dois dos seus trabalhos, em fortes tons vermelhos, se encontram no Museu de Arte Regional, de São João del-Rei (MG), mostrando a insuspeita sensibilidade e a destreza daquele homem imenso, inclusive na coragem. O adeus do marujo e Amor são a síntese da obra artística de João Cândido, numa atividade consagrada no mundo pelas mãos femininas de sucessivas gerações.

E daí?

Não é que pior fez Virgulino Ferreira da Silva, que ficou conhecido pelo mundo como Lampião, o Rei do Cangaço? Até Eric Hobsbawm registra a sua importante passagem na história do Brasil, notadamente do Nordeste, ainda que não tenha contado que o polêmico personagem – meio herói, meio bandido – era uma espécie de Clodovil da caatinga.

Isso mesmo.

Em seu belíssimo livro de arte A Estrela de Couro – A Estética do Cangaço, o incansável historiador Frederico Pernambucano (até no nome) de Mello nos apresenta o Virgulino costureiro e estilista, a projetar e executar peças do seu colorido guarda-roupa, com adereços ricos e até valiosos. Com máquina, agulha, linha e apetrechos brilhantes – ouro, inclusive -, ele punha em prática suas ideias de design-mor da moda cangaceira, costurando, bordando e enfeitando peças as mais variadas, de tecido e de couro, que podem ser vistas até hoje (Lampião morreu em 1938, aos 40 anos).

Tanto sucesso fazia o Rei do Cangaço no mundo da moda, que mesmo os “macacos” tentavam imitar os homens e mulheres do seu bando. Mas só estes tinham um Pierre Cardin pra chamar de seu.

Os dois personagens, “machos de meter medo”, acima citados tiveram a coragem de assumir a delicadeza de alguns talentos atribuídos exclusivamente à condição feminina ou, quando não, a gays que resolvem enfrentar os preconceitos e a resistência de uma sociedade machista e fortemente hipócrita, conquistando a admiração e o respeito pelo exercício de seu talento nas artes – principalmente nelas, onde são mais aceitos e se sentem mais à vontade.

É claro que há muita resistência ainda, mas essa “brava gente brasileira” vai avançando e, aos poucos, invadindo atividades em que, de pronto, seriam os homens vistos de forma enviesada. A dança clássica é um exemplo do que por aqui ainda é tido como “exclusividade” de mulheres e homossexuais. Uma descomunal bobagem, como ensinam centenariamente os bailarinos russos.

Fato concreto é que o preconceito de gênero (palavra perigosa por esses tempos) termina por se estender a uma das mais belas manifestações das artes do palco (citando apenas a dança).

Há de se imaginar que o nosso caminho civilizador vai nos fazer superar também esse defeito de formação do caráter de um povo tão sofrido, que tem como motivo de orgulho o ‘Almirante’ João Cândido, símbolo do destemor e da luta contra as injustiças raciais e sociais.

Quanto a Lampião, quem diria, hein?

Marx Beltrão leva de volta ao Palácio um ou dois deputados estaduais?
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  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    Aprendemos ALGO nestes ~110 anos dsd a Xibata na bunda do Planeta Xuxa , Caro RICARDO!
    Adriana BOMBOM, a dançarina de 1974 c’You Can Dance e PAQUITAS: Dança da BB Bom Apetite (Gabriel Pensador).
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Adriana_Bombom
    Adriana DIVERSÃO acertada em Malhação e n’A Turma do Didi, no Zorra Total + Sob Nova Direção … é MOLE?
    Já o BOZO eleito deu errado… rsRs
    Ou ele inventa outro, ou inventaM outro por ele. [23mar19]
    https://reinaldoazevedo.blogosfera.uol.com.br/2019/03/23/o-fim-de-bolsonaro-5-ou-ele-inventa-um-outro-ou-inventam-outro-por-ele/

  • Sertanejo ENLUTADO esperando Justiça e PAZ com FÉ

    Êita SERGIPE parêia da Comarca SERVIL desde 1817 da peste preta do RATO mijão de enxurrada!
    Acoloiando LAMPIÃO depois da surra do SÉ[email protected] bordador em Mossoró – RN, nadas haveres c’U bordel do Jaraguá interditado em 1967 pela milicada do Cel LUDUGÉRIO, o oficialto preferiu a discrição do Tabulêro … quem nunca?
    E o GOLFO de Graciliano (1892-1953) NUM veio a tempo de Joel Silveira (1918-2007). [18abr16]
    http://blog.tnh1.com.br/ricardomota/2016/04/18/o-dia-em-que-alagoas-virou-o-golfo-de-graciliano-ramos/
    Assim em SERGIPE agora em 2019 o … ISLÃ ganha seguidores em ITABAIANINHA – Sergipe.
    Ex-pastor funda mesquita e difunde o nome de Alá na cidade dos ANÕES. [23mar19]
    https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/03/isla-ganha-seguidores-e-muda-cara-de-cidade-no-agreste-nordestino.shtml

  • Meu NOME é Gal desejando rapaz: SEM cultura NEM crença OU tradição, AMO igual!

    Êi, Ricardo … que Zorra TOTAL é essa, amigo? … Pq hj é SÁBADO, 23mar19 Sak’a MOTO?
    > Rodrigo Maia tem um ponto: […] QUEM quer tuíte de golden shower e mamadeira de piroca?
    – SEM comunismo o presidente vai reduzir as 64 mil mortes violentas anuais?
    > COMO gerar postos de trabalho formais pra 12,7 milhões de desempregados?
    – Vai garantir ESGOTO à metade das escolas q NUM contam com o serviço da CASAL nem no BRASIL?
    https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/03/23/bolsonaro-trava-uma-guerra-pelo-twitter-mas-nao-e-pelo-bem-do-brasil

  • Há Lagoas

    Como diz uma determinada propaganda: “Tudo começa pelo respeito”.
    São os excessos de ambas as partes que leva a animosidade dos extremos.
    Em sala de aula, respeito a opção sexual de meus alunos, ao mesmo tempo que procuro sempre o diálogo para que eles respeitem meus princípios cristãos.
    Eles, não mudam por causa do professor, eu não finjo por causa dos meus alunos, ambos respeitamos um ao outro, até porque a Bíblia não me ensina a descriminar, mas sim amar sem fazer acepção de pessoas.

  • Roberto

    Qué isso?!! O cabra era topado na macheza! Levava uns sacodes de Maria, mas, e daí?
    Quanto a Marinha do Brasil mudou a forma de chibatear…a humilhação permanece!

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Realmente, merece todo o destaque possível no seio da humanidade aqueles que, sem interesses puramente pessoais, agiram em favor dos mais necessitados… e, em defesa destes, imolaram sua própria vida, seu conforto, seu bem estar pessoal… e, com certeza, esses que assim agiram, o fizeram, se não declaradamente, mais inequivocamente, por Amor ao próximo… e, mais ainda, se destacaram por defender os menores sem usar de qualquer violência física contra alguém ou mesmo contra um sistema qualquer… senão vejamos o exemplo de Ghandi, o apóstolo da não violência… ou de Paulo, o apóstolo, em defesa dos gentios… e temos, como expoente Maior, Jesus, que, por Amor, deixou-se imolar na Cruz para trazer ao mundo as bases da verdadeira paz e ordem social que a humanidade pode aspirar… e Ele nos deixou lições imorredouras de grandeza sublime, sempre nos indicando que o melhor caminho será sempre aquele em que possamos colocar nosso “coração” e nosso “amor ao próximo”, porém sempre nos acautelando contra os “caminhos tortuosos” que, muitas vezes, “inadvertidamente”, possamos tomar, por não entendermos, com profundidade, Suas amigas palavras… senão, vejamos o que li ainda hoje cedo:
    1. “ A árvore que produz maus frutos não é boa e a árvore que produz bons frutos não é má; porquanto, cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto. Não se colhem figos nos espinheiros, nem cachos de uvas nas sarças. O homem de bem tira boas coisas do bom tesouro do seu coração e o mau tira as más do mau tesouro do seu coração; porquanto, a boca fala do de que está cheio o coração”.
    (LUCAS, 6:43 a 45)
    2. “ Guardai-vos dos falsos profetas que vêm ter convosco cobertos de peles de ovelha e que por dentro são lobos rapaces. Conhecê-los-eis pelos seus frutos. Podem colher-se uvas nos espinheiros ou figos nas sarças? Assim, toda árvore boa produz bons frutos e toda árvore má produz maus frutos. Uma árvore boa não pode produzir frutos maus e uma árvore má não pode produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Conhecê-la-eis, pois, pelos seus frutos”.
    (MATEUS, 7:15 a 20)
    Entendo, pelo texto evangélico, que não se deve destacar o “erro” como sendo detentor de pretensas “virtudes”, pois “aplaudir” o erro é incentivar o comportamento errado, de forma a apresentá-lo como coisa “boa” a ser seguida… são, infelizmente, os “sofismas” onde, forçadamente, “dobramos” o que é correto, para que uma “meia verdade” possa parecer totalmente verdadeira… cuidado, pois, devemos ter com o que falamos… não foi à toa que Jesus também recomendou: “seja o seu falar e o seu proceder sim, sim e não, não”… Bom domingo.

  • Zé MCZ

    E imaginar que o Almirante liderou o levante mais de 20 anos depois da “liberação dos escravos”… Inclusive o contingente de escravos de foi para a guerra do Paraguai. Uma nova finalidade. Que custo! Até agora ainda tem uma parcela enorme atualmente bastante miscigenada que continua na mesmíssima condição.
    Quanto a Virgulino, ele era sensível, requintado, chic e chiliques até na hora de eliminar seus monstros de dentro para fora ou era de fora para dentro? Não sei! Pelo menos tem o Sigmundo(e todos os discípulos ou discordantes) para tentar explicar o inexplicável.

    • Zé MCZ

      Valeu a correção Ricardo!
      Eu não sei de onde fui buscar o século de diferença, acho me baseei na Inconfidência.

  • Antonio Moreira

    Vejo(na televisão/internet) mulheres sendo machucada e morta pelo homem – Pergunto:
    Por que o homem é capaz de praticar uma coisa dessas?

    Não é novidade, em diversas atividades humanas, alguém não se controlar e desviar
    de finalidade. Eu, uma vez, em uma consulta médica, percebi que um urologista não estava bem intencionado.
    Imaginem tantos outros casos que foram desmascarados!

    O amarelinho gritou – valei meu Padrinho Cícero, isso é um inhame!!!
    E o brabo(garanto que não foi o Lampião), respondeu:
    E outra coisa, amarelinho, não vou cuspir não, viiiuuu!!!
    Finalmente terminou em 1 a 1, lá e lô.
    Tome, amarelinho! Gostou!!!
    Se foi verdade ou não, foi a resenha que os colegas diziam do amarelinho, na hora do almoço, lá na Indústria onde trabalhei. o amarelinho ficava doido!!!

  • José Hercílio Freitas

    Excelente incursão pela história e sociologia, Ricardo. Parabéns.

  • Antonio Angelo

    Caro Ricardo. Nos últimos três anos tenho estudado a vida de Lampião e seus cabras. Conheço a obra de Frederico Pernambucano e posso afirmar, com certeza, que Lampião foi o primeiro estilista do Brasil. Porque ele criava, desenhava no papel e passava para o couro, geralmente de carneiro. E ele próprio costurava. Os adereços eram uma condecoração aos cabras mais valentes e mais competentes do bando. E pode se ver a qualidade de suas obras, que marcaram uma época, como se vê no livro de Frederico.
    Um grande abraço.

    • Zé MCZ

      Uma pena ele não ter nascido na França e se juntado do Coco Chanel, de quem era contemporâneo. Já imaginou!? Mas o destino lhe foi cruel…
      Foi tão somente o fruto da árvore que plantaram, como ainda hoje há e hipocritamente quem a planta, faz usufruto e depois elimina faz de conta que nunca teve a ver.

  • Juvenal Gonçalves

    Ricardo,
    Doutrabanda, de modo antagônico, não poderia esquecer da “General-mor”, grande mãe, D. Rosa da Fonseca. Também a exemplar Ana Neri. Para não ficar somente nas duas, lembremos também do charme de: Maria Quitéria de Jesus, Anita Garibaldi…
    Mulheres!!!

    Para todos, uma boa semana!

  • Gabriel Lessa

    Será que ele é… se for, e daí?

    É intrigante como bípedes que sobrevivem uma efêmera calefação de vida – 70 anos, em média, no Brasil – se preocupam tanto em relação às particularidades de outrem. É um gasto desnecessário da maior substância de vida que temos: o tempo. Por que não se dedicar às belas artes? à boa música, aos bons poemas… Temos Byron, Goethe, Camões, Homero, Hesse… Mas calma lá! aos bípedes isso soa como um estrangeirismo esquizofrênico… preferem falar da vida alheia, do cotidiano, da filha de fulana que é “bolacheira”, da tragédia ocorrida há pouco em Papua-Nova Guiné. Para que versos Alexandrinos existem, se há a sociedade alagoana para entreter-me? Nem a melhor comédia de Molière se comparar ao hebdomadário fluir do tempo nas Alagoas.

    Maceió é uma floresta habitada por criaturas a quem o fato de andarem sobre duas pernas conferiu o direito de tornarem-se iguais aos pensantes. Mas me limito a esse comentário.

    Quanto a lampião, o Robin Hood do Sertão, uma lenda romancista que enaltece qualidades mitológicas do “povo sertanejo”, nada tenho a dizer, apenas que gostam muito da noção de justiça de Lampião. Só que a justiça de um olho por um olho -muito enaltecida por alguns bárbaros de nosso Estado- acabará por deixar toda a humanidade cega.

    Resposta

    Valeu o comentário. O blog agradeceria se outros viessem na mesma linha, mesmo correndo o risco de serem deturpados por leitores ávidos por adjetivos “mortais”.
    Saudações democráticas,
    Ricardo Mota

  • Fernando Andrade

    No sertão o encontro da arte natural de quem precisava usar indumentária rústica para enfrentar os marmeleiros e xique-xique. No mar a guerra para não se deixar afogar na intolerância e subserviência. Muito arretado!