Fazer 61 anos não há de ser projeto de vida pra ninguém. É saber apenas que nem todos chegam até aí, e nem todos os que chegam se dão bem com o seu próprio tempo.

Como cada vez mais dispenso discussões inúteis, inclusive comigo mesmo, comunico ao distinto público que quebrei a barreira das seis décadas, o que não há de ser motivo de comemoração para muitos, menos ainda para mim.

Mas explico: este tem sido – já se vão três décadas – um dia de mergulhar fundo demais, em que as ausências se mostram, por dolorosas, no clímax das tristes partidas.

Talvez seja essa coisa que os estudiosos da mente humana chamam, desde o final da 2ª Guerra Mundial, de “síndrome do sobrevivente”, definindo, então, a ‘culpa’ tatuada na alma dos que resistiram ao holocausto.

Confesso que já pensei muito sobre isso, e já não creio que valha a pena tentar explicar coisas que a gente sente, simples e irremediavelmente, e sente-se arrastado por um calendário que não pede passagem. Sigo, pois, como a folha caída no leito do rio, que há de encontrar uma margem onde a parada é obrigatória – para que eu possa seguir em frente.

Não carrego culpas, acho, mas cuido das minhas saudades como seres muito queridos e como se elas dependessem exclusivamente de mim para existir – esquecê-las seria um ato de alta traição, de que não me sinto capaz (mesmo que Brutus seja “um homem de bem”, ele não teve destino melhor do que o de Júlio César).

Chegar aos 61, não como um projeto de vida, mas como uma possibilidade ofertada pela vida, há de ter alguma vantagem. O corpo ainda não me cobra tropeços e a mente permanece curiosa, mesmo que já não tenha a ilusão de um dia aplacá-la.

Preciso de muito pouco, eis uma verdade, para me sentir bem: além dos meus afetos, por óbvio, um bom livro, um bom filme, um tanto de música, um tanto de silêncio – se possível, na mesma proporção, às vezes junto, às vezes misturado.

Tudo coisa barata, mas que me são muito caras.

Claro: agora tem João Vicente, ainda que ele não tenha a mínima ideia do por que eu virei um velho bobo.

Nasci num ano de seca: 1958
A terra queimava de febre
Matava de sede os bichos
De tristeza, os homens
As mulheres, da esperada viuvez

Mas à minha frente
Era o azul que infestava a paisagem
Fui batizado nessas águas salgadas
Abrigo, depois, de tantos dos meus pecados

Cresci
Perdi minhas ignorâncias
Para logo ganhar outras
Vesti roupa de andarilho
Para ficar, lá, no nº 688
Da velha Buarque Macedo
Que hoje os carros cortam
Com a mesma velocidade da vida

Ainda ando por aí
Meio mar, meio morto
Meio reto, meio torto
Em ferro e flor fundido
Acho que devem ser assim
Os homens de alma: inteiramente repartidos

 

A máscara do Zé
Moro desfaz a fantasia do ministério de "porteira fechada"
  • Lion

    Grande verdade….

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Parabéns por mais um evento natalício nesta romagem terrena, e que esta data se repita por muitas e muitas outras oportunidades, sempre com muitas alegrias, saúde e paz. Concordo com o texto quando diz que, como uma folha nas águas (da vida…) um dia encontra um recanto, uma margem onde para… porém que prossegue sempre… eis uma imagem muito boa da essência da vida… a vida biológica para, para que a essência prossiga sempre… a folha não se acaba… se transforma e se funde à terra e ao ar, devolvendo-lhes os elementos tomados emprestados para sua vida… assim é o que acontece com o corpo biológico… a essência, o ser pensante, esse também passa por uma transformação… muda de plano, de ambiente, de habitat… sua essência, por ser quintessenciada, de uma matéria sutil, incapaz de ser percebida normalmente pelos sentidos obtusos do corpo físico, volta a se integrar (sem se anular… a consciência de individualidade nunca termina…) ao meio do qual, um dia, veio… retorna, então, para esse mesmo meio… que, ao contrário do que muitos imaginam, tem estrutura, massa, matéria… pois se os gases ainda são matéria, por que não poderia existir uma matéria ainda mais sutilizada?!!! e a vida, com suas belezas, sentimentos, descobrimentos, perguntas e respostas ao sem fim, continua com seus desafios e encantamento para todos… aprendemos nesta vida biológica, para continuar a progredir na vida além… e lhe digo, um dia todos tomaremos consciência dessa Vida Maior… Bom domingo.

  • JEu

    OBS: há poucos dias fiz 62…

  • Dayane Laet

    Ricardo, espero amadurecer com a mesma percepção de vida e morte. E para a citação a seguir, deixo meu silêncio admirado:
    “Ainda ando por aí
    Meio mar, meio morto
    Meio reto, meio torto
    Em ferro e flor fundido
    Acho que devem ser assim
    Os homens de alma: inteiramente repartidos”

  • Antonio Moreira

    Um dia me chamaram de coroa – achei estranho.
    Anos depois – me chamam de velho – aceito com naturalidade.
    Recentemente me chamaram de vovô – achei engraçado, mas foi legal(sorri).

    Em terras distantes e clandestinas
    nasceram de uma só vez duas pombinhas brancas.
    Já faz um tempinho que elas já têm filhotes.
    Vivem em silêncio e em paz.

    Ando por aí para fazer digestão
    a barriga meia mole, meia dura
    a perna esquerda meia doida, meia mole.
    Suado, a cabeça e o corpo agradecem.

    ¨Mesmo andando de ladeira abaixo, 61 anos é privilégio de poucos.
    Suar, saúde faz bem!
    Viva!!!

  • Antonio Carlos Barbosa

    Bom dia, velho Mota, belíssimo texto. Muita paz e saúde. João Vicente sua continuidade.

    “a existência humana reside não só em viver, mas também em saber para que se vive”. Dostoievski.

    Estamos lhe esperando pós carnaval.
    Grande abraço. Vamos em frente

  • CICERO FREDERICO DA SILVA

    Parabéns, pra começo e dizer que a vida segue(como Silvanio Barbosa). Emas a fila anda.
    Estou perto de você nessa idade.
    Há, a felicidade sempre vem , e mim lembrar um escritor não sei o nome:
    DISSE. Eu devia ter viajado mais, pois é a única coisa que aproveitamos, o resto é besteira.
    BEM, nesse domingo minha filha estar aniversariante.
    Sim, vamos comemorar a vida é curta. E Oscar Niemeyer dizia É UM SOPRO.
    FELIZ ANIVERSÁRIO E……E BOM. E MUITO BOM VÊ SEUS ESCRITOS E …..

  • Vitor Hugo

    Mais perfeito, impossível.
    Parabéns Ricardo.

  • Sandra

    Poxa! O tempo voa mesmo. Ainda me lembro, eu quando adolescente, de você em cima do trio cantando a música oficial do Bloco meninos da Albânia. Felicidades meu caro!

  • Antônio Pinaud

    Parabéns Ricardo!
    Aprendemos a não apressar o Rio
    (ele corre sozinho)”.
    Saudações tricolores

  • Antônio Carlos Gouveia

    Parabéns e felicidades Ricardo Mota. Seu registro nos remete a uma conscientização interior do existir. Admiro-o sempre por trazer em seus registros algo a mais. Vida longa de bênçãos e conquistas lhe desejo.

  • Juvenal Gonçalves

    Ei, Ricardo, felizes os que têm histórias, e estórias, pra contar!
    Bobagem é olhar para trás e nada enxergar…
    A vida é bela, sábia e prudente,
    Dá-nos sempre a recompensa de tudo que semeamos. Isso é muito bom!
    Ah, o João Vicente! Esse um dos bons frutos que você está a colher. E isso não é bobagem: é a felicidade!
    “Sem ter amor nessa vida, não quem seja feliz de verdade”, disse o poeta.
    Felicidade é o podemos desejar àqueles que sempre estão à procura do fazer o bem.
    Que os seus próximos sessenta sejam os melhores!!!
    Abraços, extensivos a todos. Com o desejo de um bom descanso, para uns, e boa diversão para outros!!!

  • Adilio Faustini

    Parabéns pelos 21 anos bem vividos.Não esqueça que estás na melhor idade, a vida começa aos 40 anos rs… Eu já fiz 26 e minha mulher também é de maio 1958, estamos juntos e misturafos nesta viagem.

  • Lucio Rocha

    Pisciano, como todos, sempre andam, nadam, acompanhados, em bandos, ou cardumes, mas sempre estão sozinhos, introspectivos, a questionar tudo e todos. Parabéns Peninha, saudades!!!!
    Ricardo Mota, conheço pouco…….. mesmo assim, felicidades.

  • Há Lagoas

    Aplica-se aqui a velha máxima de “olhar pelo retrovisor”: muito a agradecer, pouco a pedir e nada a murmurar!
    És um bem aventurado!