“Se a única coisa de que homem terá certeza é a morte, a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano”.

Não se pode dizer que o autor da frase acima, o Velho Graça, fosse exatamente um apaixonado pelo carnaval, mas ele conhecia, como poucos, o que se pode chamar – ainda – de alma brasileira.

É impressionante como o carnaval muda, se transforma, morre, renasce, toma formas distintas daquelas que conhecemos a cada geração, ressurge como uma nova espécie da qual até se ignora o ancestral mais próximo, mas ele está aí, de novo, “bombado” pela mídia nacional como a última e definitiva criação humana.

No delicioso Memórias de um Sargento de Milícias, Manuel Antônio de Almeida narra o que teria sido um prelúdio da grande festa à brasileira (quem disser que é o maior feriado do país não estará mentindo).

Ele nos conta o que se aprontava nos dez (!) dias da festa do Espírito Santo, até chegar o domingo, desfecho arrebatador das comemorações. E já então, creiam, o narrador se queixava das transformações por que passara a festança de rua: “Longe está o que agora se passa daquilo que se passava nos tempos a que temos feito remontar os leitores” (sem falar na ‘procissão dos ourives’, que tinha até a ala das baianas – ao modo).

Por óbvio, não era um elogio aos “novos tempos”. Destaca, o sargento memorialista, o desfile do “rancho de meninos, caprichosamente vestidos à pastora: sapatos de cor-de-rosa, meias brancas, calção da cor do sapato, faixas à cintura, camisa branca de longos e caídos colarinhos, chapéus de palha de abas largas, ou forradas de seda, tudo isso enfeitado com grinaldas de flores, e com uma quantidade prodigiosa de laços de fita encarnada. Cada um levando um instrumento pastoril em que tocavam, pandeiro, machete, tamboril”.

E daí?

Bem, ainda havia o imperador, que ia no meio, “um menino mais pequeno que os outros, vestido  de casaca de veludo verde, calção de igual fazenda e cor, meias de seda, sapatos afivelados, chapéu de pasta”.

O que isso tem a ver com o “tríduo momesco” que conhecemos de pouca ou nenhuma roupa, no máximo uma rala fantasia, que “é um troço que o cara tira no carnaval”, nos versos de Aldir Blanc?

Pois eis que os pequenos pastores, em paradas muito aguardadas pelo grande público, se transformavam em “devassos” a cantar canções ressaltando os prazeres da vida profana:

O Divino Espírito Santo
É um grande folião
Amigo de muita carne
Muito vinho e muito pão.

Digamos que o pão – metafórico – dos tempos de agora fica para a quarta-feira de cinzas; a carne, não; o vinho, este tempera aquela.

Já vivi tantos e tão variados carnavais nos meus mais de sessenta. É provável que enquanto você lê este texto eu esteja me refazendo do sol escaldante da beira-mar da Pajuçara, no longo andar – pra mim já é andar – do Pinto da Madrugada.

Neste sábado, é verdade, faltou ali um folião que estaria completando ontem exatos 63 anos e que não perdia um desfile do bloco, vestido em sua tradicional indumentária: uma das suas dezenas de camisas do Palmeiras, que ele fazia questão de ostentar a cada ano, cumprindo todo o percurso no quentíssimo asfalto da orla.

Que ele, meu amigo Fredão, me perdoe a ausência, mas eu nunca vi em toda minha vida ninguém tão desengonçado e sem ritmo para “fazer o passo”.

Mas essa era uma das suas paixões – e quem haverá de explicar o que é paixão?

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  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Permita-me discordar, em parte, com o Velho Graça, pois nem mesmo se pode ter certeza do carnaval do próximo ano… afinal, a morte pode alcançar qualquer em no percurso de 365 dias… agora, a festa, esta sim, acontecerá, ainda, por muitos e muitos, não digo anos, antes digo, decênios… agora, discordando, também de Caetano Veloso, quando diz que “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”, digo que, aqueles que se associam com grande apego e “paixão” ao carnaval, mesmo após a morte do veículo biológico (o corpo…) continuará a seguir os trios elétricos, blocos, escolas de samba, bailes e, até mesmo (e não pasmem…) dentro das próprias residências onde, alegremente, se festejam as festas momescas (se não acreditarem não faz mal não… sei que é assim mesmo…). No entanto, li alhures o seguinte: Sobre o carnaval
    Nenhum espírito equilibrado em face do bom senso, que deve presidir a existência das criaturas, pode fazer a apologia da loucura generalizada que adormece as consciências, nas festas carnavalescas.
    É lamentável que, na época atual, quando os conhecimentos novos felicitam a mentalidade humana, fornecendo-lhe a chave maravilhosa dos seus elevados destinos, descerrando-lhe as belezas e os objetivos sagrados da Vida, se verifiquem excessos dessa natureza entre as sociedades que se pavoneiam com o título de civilização. Enquanto os trabalhos e as dores abençoadas, geralmente incompreendidos pelos homens, lhes burilam o caráter e os sentimentos, prodigalizando-lhes os benefícios inapreciáveis do progresso espiritual, a licenciosidade desses dias prejudiciais opera, nas almas indecisas e necessitadas do amparo moral dos outros espíritos mais esclarecidos, a revivescência de animalidades que só os longos aprendizados fazem desaparecer.
    Há nesses momentos de indisciplina sentimental o largo acesso das forças da treva nos corações e, às vezes, toda uma existência não basta para realizar os reparos precisos de uma hora de insânia e de esquecimento do dever.
    Enquanto há miseráveis que estendem as mãos súplices, cheios de necessidade e de fome, sobram as fartas contribuições para que os salões se enfeitem e se intensifiquem o olvido de obrigações sagradas por parte das almas cuja evolução depende do cumprimento austero dos deveres sociais e divinos.
    Ação altamente meritória seria a de empregar todas as verbas consumidas em semelhantes festejos, na assistência social aos necessitados de um pão e de um carinho. Ao lado dos mascarados da pseudo-alegria, passam os leprosos, os cegos, as crianças abandonadas, as mães aflitas e sofredoras. Por que protelar essa ação necessária das forças conjuntas dos que se preocupam com os problemas nobres da vida, a fim de que se transforme o supérfluo na migalha abençoada de pão e de carinho que será a esperança dos que choram e sofrem? Que os nossos irmãos compreendam semelhantes objetivos de nossas despretensiosas opiniões, colaborando conosco, dentro das suas possibilidades, para que possamos reconstruir e reedificar os costumes para o bem de todas as almas.
    É incontestável que a sociedade pode, com o seu livre-arbítrio coletivo, exibir superfluidades e luxos nababescos, mas, enquanto houver um mendigo abandonado junto de seu fastígio e de sua grandeza, ela só poderá fornecer com isso um eloquente atestado de sua miséria moral.

    Emmanuel – Psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier em Julho de 1939. – Revista Internacional de Espiritismo, Janeiro de 2001.
    Bom domingo.

  • Antonio Moreira

    Eu era criança e não entendia o motivo de tanta euforia do povo na rua – era o carnaval.
    Já brinquei carnaval, assim como ir ao estádio de futebol.
    Já fui a cinema assim como ir a igreja.
    já fui a puteiro em busca de prazer, assim como fui(uma vez) ao psiquiatra em busca de remédio.
    Já fui a show musical assim como uma vez assistir A Dama das Camélias – Theatro Municipal – São Paulo-SP.
    Já participei de tanto longão(corrida de rua mais 20 km) assim como longas viagens de ônibus.
    Assim é a vida, o carnaval e a vida.
    Beba com moderação.

    • Sertanejo ENLUTADO esperando Justiça e PAZ com FÉ

      E apois, caro Antonio … somos a Velha ROUPA COLORIDA com Elis (1945-1982).
      > Nunca + teu pai falou: “She’s leaving home” e meteu pé n’estrada “like a Rolling Stone”
      – Pá corrê no seu carro, loucura, chiclete e som à rua em grupo reunido: dedo em V, cabelo U vento
      > No presente a mente, o corpo é diferente, e o passado é uma roupa que NUM nu$s serve +
      – O que há algum tempo era novo, jovem … Hj é antigo, peRcisamos todos rejuvenescer!
      DE Belchior (1946-2017) em 4min 14 seg _ https://youtu.be/Dv6IkNTfOro

  • ANTONIO MARTINS

    Pena que, nos três dias momescos, Maceió seja apenas o túmulo do carnaval.

  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    Ôi, Ricardo … cada PINTO com seu quebra-galho, aqui em St’Ana somos todXs BACURAU!
    Em 2025 – 150 anos da independent’AÇÃO de Santana. Resolução ESTADUAL 681 (24abr1875).
    – SESQUICENTENÁRIO com vias expressas e largas avenidas quase SEM Praças. – Somos DESPRAÇADOS? [14jun11]
    http://www.maltanet.com.br/noticias/noticia.php?id=604500pol0
    Com FORÇA pra manter viva a chama do SERTÃO Glocal: antigamente era + mUderno!
    > St’ANA do RI-Panema, fincada no SERTÃO tem perfil mutante na geopolítica.
    – Graciliano Ramos (1892-1953) dizia-LHA: Terra espinhosa dominada por mandacarus.
    > Com remanescentes condenados à barbárie em isolamento n’estiagens fora da LEI.
    – Joel Marques (casado com Maria Nepomuceno), prefeito Q’introduziu coleta de lixo em St’ANA.
    [16set10], http://www.maltanet.com.br/noticias/noticia.php?id=4503
    Aí viemos de Pernambuco à Rua NOVA, de Caruaru Lobão, depois os irmãos Aleixo de Brejão.
    http://www.maltanet.com.br/v2/colunas/josedemelocarvalho/bacurau-e-o-domingo-de-carnaval [outubro 2014]
    http://www.maltanet.com.br/v2/colunas/josedemelocarvalho/bacurau-continuando-no-carnaval [outubro 2014]
    http://www.maltanet.com.br/v2/colunas/josedemelocarvalho/bacurau-na-segunda-feira [novembro 2014]
    http://www.maltanet.com.br/v2/colunas/josedemelocarvalho/o-bacurau-em-ronda-pelas-ruas-de-santana [novembro 2014]
    http://www.maltanet.com.br/literatura/exibe.php?id=1352 [maio 2013]
    http://www.maltanet.com.br/v2/colunas/clerisvaldobchagas/bar-do-bacurau [janeiro 2011]

  • Antonio Carlos Barbosa

    Como disse Leci Brandão, na poesia musicada Zé do Caroço:
    “….que existisse outro Zé do Caroço (Caroço, Caroço)
    Pra dizer de uma vez pra esse moço
    Carnaval não é esse colosso…..
    E na hora que a televisão brasileira
    Distrai toda gente com a sua novela
    É que o Zé põe a boca no mundo
    É que faz um discurso profundo
    Ele que ver o bem da favela…….

    Boa semana.