Um texto provocativo e debochado de um amigo querido me fez lembrar de uma das tantas passagens que guardo do meu pai – que se foi num dezembro -, ainda que, no caso, bastante curioso.

Seu Luiz Mota gostava muito de ficar deitado na rede, em um primeiro andar lá da velha casa da Buarque de Macedo, ouvindo o seu Transglobe, um rádio potente que captava a transmissão de emissoras do mundo inteiro.

Aí é que estava a graça da história: meu pai ficava horas escutando rádios japonesas – no idioma pátrio – alemãs, russas, e tudo mais que o horário (e isso era fundamental para a qualidade da recepção do áudio) permitisse.

Recordo que na primeira vez em que eu presenciei a cena, fiquei um tanto intrigado, bobamente, como estou convencido agora. Perguntei ao meu pai o que ele estava ouvindo. Ele:

– Uma rádio do Japão. Espetacular!

O adjetivo explicava mais do que podia, naquele momento, entender a minha vã filosofia. Até porque o que chamava a atenção era o fato de que seu Luiz Mota não sabia uma só palavra do idioma nipônico.

Depois, com o passar dos anos, fui me acostumando a encontrá-lo em silêncio, na sua rede, abraçado ao rádio ligado em alguma emissora que transmitisse fosse lá de onde fosse. Quanto mais estranho o idioma, me parece, maior era o seu interesse.

Talvez até, assim como Tesla, ele pudesse imaginar, ali no seu cantinho, balançando de um lado para o outro o corpo já alquebrado, que haveria alguma transmissão de planetas distantes, no infinito, tentando contato com uma espécie que eles deveriam observar com a cautela que ela merece – bem o sabemos.

Sim, porque estamos falando de imaginação, de viagens ao desconhecido, ao futuro, ao passado, ao que nunca existiu e ao que talvez nunca existirá (tenho cá as minhas dúvidas). Estou certo de que cada leitor ou leitora domingueira há de admitir que nunca lhe passou pela cabeça que os pais também têm fantasias “absurdas”, sonhos que sempre só serão sonhos. Isso é coisa de filhos, pois não?

Não, não era o caso do seu Luiz Mota; não é o caso do filho dele, o mais moço – embora envelhecido – entre os sobreviventes.

Ainda hoje, quando estou num espaço aberto em que o céu deixa exposta a sua incomensurável e permanente árvore de Natal, fico a mirar e imaginar, num pontinho claro da escuridão humilhada por tanta luz, o que haveria de interessante por lá: fauna, flora, arte, desastres, sentires, sofreres e, creiam, sonhos.

No outro extremo, também sou capaz de fuçar seres minúsculos e seus caminhos: insetos que andam em bandos ou administram sozinhos a sua existência, e me indago o que os empurra na árdua jornada, a não ser a necessidade de existir, realizando num só dia os dez trabalhos de Hércules, e repetindo, como Sísifo, tudo de novo ao amanhecer.

É verdade que eu nunca perguntei ao meu pai o porquê de ele gastar um tanto do seu dia/noite naquelas insólitas  audições. E me dou conta que não deveria mesmo tê-lo feito, simplesmente porque cada um de nós tem todo o direito de ser tolo – se assim lhes parecer – e/ou guardar consigo os sonhos que nunca envelhecem, contrariando o nosso ciclo vital.

Se seu Luiz Mota viajou, então, pelo Japão, viu as ruas do pós-guerra, com suas casas que viraram cinzas pelas bombas incendiárias dos aliados, ou se encantou com as flores das cerejeiras que proliferam na primavera das ilhas do Pacífico; se viu as ruínas de Berlim, a cidade sendo reconstruída por mulheres e crianças, ou se passeou pela Floresta Negra, extasiado pelos acordes de Cavalgada das Valquírias, isso não mais desperta a minha curiosidade.

O que eu sei já me basta e satisfaz.

Mesmo que por caminhos diversos, os sons do meu imaginário Transglobe também ecoam na alma, e, creiam, possuem vida própria e me levam para lugares e existências tão estranhas a mim quanto minhas.

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  • Zé MCZ

    Semelhante ao seu Luiz, eu também já viajei nessas ondas do rádio rumo à Europa(não recordo se fui ao Japão), a ouvir narrativas no idioma alienígena de lá. Não era um Transglobe mas dava pro gasto. Sempre pela noite tarde captava algumas vezes as valkirianas(do Wagner, dizem o precursor do apocalipse nazi) que fugia mas que retornava com toda potência, igual a esquadrilha vindo ao longe e chegava para despejar tudo de sórdido que nós, seres (chamados) humanos temos…
    Se você teve a petulância de querer saber o porquê seu pai viajava, ele pode até ter dado uma explicação conveniente, mas há um cantinho tão nosso que tudo o que queremos é que ninguém se atreva bater a porta. Só o filho tem essa ousadia mas não arranca a verdade!
    Você tem o seu!
    Ou não!?

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Bela e enigmática crônica essa de hoje. Gostei muito mesmo. Afinal, a “vida” ainda é um dos “mistérios” do universo… ao que parece… e mesmo entre “sonhos” e “devaneios”, ainda não conseguimos entender a extensão e a profundidade desse simples, e tão complexo, dilema: a vida…!!! e por “estarmos” nela e “sentindo” através dela, é que tanto nos abismamos com suas “entrelinhas, pontos e contrapontos”… e, creio, por isso foi que, um dia, um jovem muito rico procurou Jesus e lhe propôs a seguinte questão: Senhor, o que é preciso para alcançar a “vida”? e Jesus lhe respondeu: o que lês nas escrituras… ao que disse o moço: amarás ao Senhor, teu Deus e ao próximo como a ti mesmo; não roubarás, não matarás e não desejarás o que pertence ao teu irmão e honrarás teu pai e tua mãe… e Jesus então lhe disse: Faze isso e “viverás”… mas, então, o jovem, querendo mostrar que era correto em suas atitudes disse: já faço isso desde os meus primeiros anos, então, o que me falta… então Jesus lhe disse: se queres ser “perfeito”, vai, vende tudo o que tens e distribua-os aos pobres e depois vem e me segue… e o jovem foi embora pois não era (ao meu ver, ainda…) capaz de tal desprendimento das coisas terrenas… moral da estória, sob minha ótica, a verdadeira vida não se encontra sobre a crosta terrestre… e muito embora tudo faça parte da “Vida”, ele é e será sempre muito mais do que imaginamos ou achamos que possa ser… Bom domingo.

  • Antonio Moreira

    Quando comprei meu celular, a primeira coisa, fui procurar aplicativos de Rádios.
    Gosto do quintal da minha casa, seja na sombra ou na luz da lua.
    Ali, fico ouvido e lendo coisas variadas no meu pequeno companheiro eletrônico.
    Paro de ler para ficar clicando de rádio a rádio para ouvir algo diferente.
    Local onde jogavam meus meninos com os outros coleguinhas. Alguns já são pais e
    às vezes ainda inventam de jogar à noite, nos dias de hoje.
    Quando deito na rede, o danado do gatinho não me deixa em paz.
    Ele é como uma criança, quer atenção e brincar!

  • Antonio Carlos Barbosa

    Cresci ouvindo rádio, desde meus seis anos de idade, ouvia rádio diariamente e assim, fiquei viciado em ouvir músicas e notícias através de um rádio marca SEMP. Ouvia com meu pai os jogos do Vasco e do Botafogo, e tome briga quando um dos dois perdia, pois eu deixava meu pai com muita raiva quando o time da cruz de malta era derrotado para qualquer clube e não somente o Botafogo. A televisão chegou na nossa casa eu já tinha doze anos, mais mesmo assim, continuamos ouvindo rádio. De Arapiraca conheci o Brasil através dos programas de rádios, ouvia a noite, devido a melhor captação das ondas, as rádios Globo RJ, Nacional de Brasília, Clube do Recife, Cultura SE, e outras de Salvador, ouvia falar do cotidiano da cidade, nomes de bairros, notícias das cidades e assim, despertava e viajava imaginando como eram essas cidades, seu povo, sua cultura e suas vidas.
    Passado tantos anos, hoje conto com 56 de vida, volta ao mesmo ponto do passado, ouvindo através da internet, rádios de Buenos Aires, Santiago do Chile e de Montevideo, como também das grande cidades desses países, voltando e viajando junto com as locuções, as cidades que já visitamos e sinto saudades.

    Através da internet, no aparelho celular, temos acesso imediato, instantâneo, estava eu no dia 21 (sexta-feira) desse mês as 12:20 horas, em Recife, no Shopping, com o rádio ligado no celular, e encontro um amigo alagoano, que me esbarra e quer conversar, mostro que ouvindo o rádio, e juntos passamos a escutar o doze e dez notícias, sentados num banco e fomos conversar ao final do programa.

    Considero o Rádio o meio de comunicação mais acessível e a notícia em cima da hora, bem como como uma excelente companhia.
    Bom domingo e muito programas bons de rádios para todos.

  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    Ricardo … um BOM domingo neste pré-Natal, pQp!
    do PAJUBÁ do Pasquim ao Enem 2015: valeria 1,99 minha REDAÇÃO?
    Acertando 20% (leitura) INGLÊS e 70% (fala) Língua MÁTRIA. [26out15]
    http://www.ufcg.edu.br/prt_ufcg/assessoria_imprensa/mostra_noticia.php?codigo=17968
    Nos NATAIS deste BLOG, a aluna 2015 e o anarquista 2017, mais o menino 2016.
    1) Mesmo q p’CAMINHOS diversos [R Mota ACIMA de comentários]
    > Mas eles estavam c’1 faixa dizendo q são ANARQUISTAS!
    – Quem faz anarquia é MALOQUEIRO, então nós PRENDEMOS.
    # Do DELEGADO Barbosa a Nhô PEDROSA [R Mota, 25dez17]
    http://blog.tnh1.com.br/ricardomota/2017/12/25/o-guerrilheiro-do-ocio-e-do-oficio-uma-pequena-homenagem-a-no-pedrosa
    2) SONS do meu imaginário Transglobe (12 faixas) tbém ecoam n’ALMA [acima de TUDO]
    > O SAPATO do menino num tinha COR. Vivia ali, vestido de 1 noite …
    – […] o MENINO se lançou p dentro do sapato e começou a VAGAR.
    # […] início à JORNADA de deixar de ser menino. [25dez16]
    http://blog.tnh1.com.br/ricardomota/2016/12/25/o-sapato-do-menino
    3) […] LUGARES e existências tão estranhas a mim … [Atordoando ToDx$]
    > QUERO me tornar leitora de TUDO. […] Aprendi a gostar do SILÊNCIO.
    – PODE? Logo eu que adoro uma zuada. […] ROCK Pearl Jam e Imagine Dragons …
    # De O Epifânio em SALA de aulas: ‘pego ½ SEM jeito na fala de 1 ALUNA’ [25dez15]
    http://blog.tnh1.com.br/ricardomota/2015/12/25/o-silencio-dos-olhos-osvaldo-epifanio-pife

  • Juvenal Gonçalves

    Ricardo, sua narrativa me fez dar uma boa volta ao passado!
    Seu Antônio Gonçalves, tinha também sua paixão pelo bom ótimo companheiro o radinho de pilha, que ele chamava elemento.
    Também, várias vezes me peguei ouvido uma rádio estrangeira!
    Fazenda Guardiana, município de Cajueiro: rádios estrangeiras eram as que melhor se podiam ouvir, isso no período da noite!
    Bom domingo, de boas recordações!!!

  • Há Lagoas

    Lembro-me, que meu avô materno – sr. Domingos, morador da “rua do Meio” no Vergel do Lago, possuía um velho e pesado rádio de caixa de madeira que só sintonizava rádio AM. Infelizmente, não me despertava interesse ver aquele velho “trambolho” em cima de um móvel qualquer, lá pelos anos de 1984. Era uma criança, e pensava como criança.
    Hoje, o velho rádio – apesar de avariado – sobreviveu esquecido em um “quartinho da bagunça”.
    Já meu saudoso avô, partiu dois anos depois, sem que eu soubesse quais rádios, ou programas ele sintonizava na cabeceira da cama.
    Restou a saudade e um pedaço palpável de uma recordação que essa bela cronica me despertou.
    Tenho o rádio, sinto saudades de meu avô.
    Uma boa semana a todos.

  • Antonio Moreira

    Trabalhava no interior alagoano e eu era ouvinte assíduo da Rádio Comunitária da Cidade.
    Um Evangélico chegou com um monte de livros e me perguntou o meu grau de instrução
    e lhe respondi – o suficiente para estar trabalhando aqui.
    Ele, já li mais de dois mil livros e irei lhe provar as evidências da existência de Deus.
    Um certo dia, em seu Programa Evangélico, ele disse: Meu abraço para o meu amigo Antonio, ateu, lá da …
    Depois o encontrei na rua e disse-lhe: Você quer que eu seja queimado aqui na praça pública!!!

  • santos

    Saudade do meu querido pai, o rádio dele era um SEMP, ele gostava muito de ouvir os noticiários, mas sem dúvida, o seu programa favorito era o do coronel Ludrugero.