“A morte é iminente ao primeiro segundo da vida”, nos alerta o agradável filósofo espanhol Fernando Savater, de quem eu lembrei bastante assistindo a Merlí – uma inspirada série catalã da Netflix -, recomendável para gente curiosa de qualquer idade.

Eis uma definição, quase premonição, perfeita sobre o acaso. Afinal, todo e qualquer sujeito – e sujeita (?) – há de saber que a morte existe e é inevitável, o tal do quando é que vem a ser obra do acaso.

Mas foi muito menos o que me aconteceu no começo de tarde da última sexta-feira. Ouvindo Elis Regina, em Transversal do Tempo, este velho jornalista seguia em seu possante 1.0, pelo inferno, em tempo de purgatório, da Fernandes Lima. De repente, ouço o barulho e sinto que meu carro havia sido abalroado lateralmente. Ato contínuo, eu vejo, num relance, não um, mas dois motoqueiros desabando logo à frente.

Foi tudo rápido demais para entender o que se passou. Desci do carro, tão logo os dois homens, um bem jovem, o outro nem tanto, se puseram de pé – e sem ferimentos visíveis, pelo menos. Ambos me pediram desculpas, o que foi suficiente para que eu soubesse que a “vítima” era eu – e estava ileso.

Claro que eu me irritei e tive de conter um tanto da minha raiva, que eu expresso com palavras ditas em tom brando, mas que podem perfurar como um punhal fino e frio, mesmo as almas mais inexpugnáveis.

Eram pessoas bem humildes, pude constatar, o que me provocou a velha e inseparável empatia, ainda que a minha racionalidade tivesse sido sequestrada por uns minutos.

O acidente foi quase surreal: um motoqueiro, mais apressado – e mais velho, na faixa dos 40 anos –, bateu na traseira do outro, que foi arremessado de encontro ao meu possante.

Ainda não sei o tamanho do prejuízo, mas deduzi rapidamente que eles não poderiam bancá-lo. Dispensei-os e tentei retomar a mesma calma que me conduzia para um pirão de cozido de chambaril dos deuses.

Segui remoendo por alguns metros, mas logo entrei em um exercício que eu gosto muito de fazer, sempre que me deparo com situações adversas e desagradáveis. Diz respeito à ação do acaso, que reúne uma quantidade incalculável de variáveis, entre elas o espaço e o tempo (o João da Troça, pós-doutor em Física, gozador em tempo integral e comentarista santanense deste blog, bem que poderia me socorrer nessa).

Fui recalculando, ao modo Benjamin Button: e se eu não tivesse parado naquele supermercado, que eu quase nunca frequento? E se eu, que estava na faixa do meio e passei para a esquerda, exatamente para evitar os motoqueiros, houvesse me esquecido que eles existem e insistem em fazer sempre mais do mesmo?

É impossível mudar o que passou, mas pelo menos aquele colóquio entre dois personagens imaginários, eu sendo um deles, me deu a possibilidade de acreditar – tolamente, tudo bem – que tudo poderia ter sido diferente.

“O acaso e o capricho governam o mundo”, debochou La Rochefoucauld. Mas, onde o acaso? O capricho estava ali, na ferida aberta na lateral do carro – e bote capricho nisso -, que o lanterneiro há de remendar a um preço justo (tomara!) e num tempo curto. Afinal, o acaso não é contra ninguém (e nem a favor, eu sei).

Cheguei à última parada antes do cozido, que já perdera um tanto do seu oloroso tempero. Era, de novo, um supermercado, caminho natural nas minhas sextas-feiras. Fiz algumas compras, rapidamente, e voltei ao estacionamento, onde o combatente de guerra ainda sangrava a olhos vistos. Evitei fitá-lo, embora percebesse que, enfim, ele atraía a atenção do público e da crítica.

– Ricardo!

Olhei e acenei com displicência e irritação.

 – Ricardo!

A voz masculina insistiu. A mão estirada pela janela do carro, um táxi, era um convite a um cumprimento. Contrariado, me aproximei e notei que ele guardava um brilho nos olhos, que eu não sabia a que atribuir.

– Eu vi o que aconteceu. Continue sendo esse homem que você é.

Não sei o que respondi, mas acho que agradeci, entre comovido e encabulado. E se os leitores e leitoras deste espaço domingueiro me permitirem um instante de cabotinismo, eu lhes digo: aquilo não há de ter sido obra do acaso.

Quanto ao cozido, estava ótimo. Do pirão, eu nem conto.

(Pelo menos esta conta já está paga.)

Técnicos das associações militares estudam como parcelar reajuste de 12%
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  • Zé mcz

    Quem sabe apareça um comentador honestamente rico e(se não der) financie um possante zero K pra você. Fico na torcida. Talvez o Jão que sempre faz troça!
    Mas troça a parte, não conheço você pessoalmente mas tenho uma empatia enorme a ti. Imagino que a enorme maioria que expõe comentários aqui.
    Eu compreendo plenamente que alguns comentários meus recebem a tecla DEL, mas não possuo a sutileza para escrever enviesado…
    Ah! Torço bastante para que o lanterneiro tenha feito um preço bem amigável!
    E que você brinde com outro cozido. Dessa vez sem o stress, mas que a fome era tanta àquela hora (apenas suponho…) que nem levou em conta!

    • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

      Caríssimos Zé mcz e Ricardo, … afinada DUPLA sabor Sertão!
      alimentando empatia e CURIOSIDADE em dose dobrada:
      – Eu vi o q’aconteceu. Continue sendo esse homem que Vc É!
      # NUM há de ter sido obra do acaso: cozido ótimo, pirão NEM conto.
      [R Mota acima], lateral no ESPAÇO a avaria TEMPORÃ.
      Pouco importa o PONTO de vista:
      – interiorano AMPLO em Santana RURAL;
      – ou na JANELA olha-grota na CAPITAL;
      da Pça Centenário ao Sertão unidos por BR 316: a rodagem (km 83) zerada antes de CANAPI, em Pernambuco vindo de Itaíba e Belém do PARÁ.
      É véspera de 1º d’MAIO, tranporte e TRABALHO 2018 precarizados:
      – MOTOTÁXI inspirando domingo LITERÁRIO sem bandas com bundas:
      – LIDA enforcada 30abr18 p’autoridades e subalternos PÚBLICOS;
      e haja RISCO de 2ª em VAN rodando com licença do erário, ou $eM.
      Por transportes COLETIVOS ajudam: bate LATA/ fura PNEU – próxima!
      JÁ posse PARTICULAR de carro usado faz ÓLEO em poças: poÇante$!
      > 1.0, pelo inferno, em tempo de PURGATÓRIO, da F Lima.
      – BRILHO: Eu vi o q’aconteceu. Continue send’esse H q vc É!
      [R Mota & Zé mcz], afinada DUPLA em inspirados TEXTOS a musicar.

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Rsrsrs… desculpe começar com risos… é que apreciei muito além da conta sua última frase (pelo menos esta conta já está paga)… afinal, ser hilário de modo fino e discreto não é para todo mundo…!!! Quanto aos tais “acasos” da vida, estou mais disposto a acreditar que, como vc mesmo o disse, após o aceno e o cumprimento do amigo do taxi: “aquilo não há de ter sido obra do acaso”… lógico que vou me esforçar para não cair nas garras nada racionais do tal “fatalismo”, para mim também inexistente até certo ponto… mas que muita coisa “estranha” acontece, diuturnamente, inesperadamente, como se fosse obra do “acaso”… e para mim, nada mas não são do que algo que, de alguma maneira, “atraímos” seja consciente, seja inconscientemente… mesmo que “outras mentes” entrem no “circuito” e dê uma “ajudazinha” inesperada… aceitemos, ou não, creio, tem muitos fatores “paralelos” que, de alguma maneira, “convergem” para nossa vida e nossas experiências… mas, seja lá o que tenha ou venha a ser, de uma coisa posso dizer, da mesma maneira como aquele seu amigo do taxi: a reação aos fatos e acontecimentos é o que dão a verdadeira medida do que realmente somos… ou seja, do que carregamos em nossa personalidade… e ser capaz de ter “empatia” pelas pessoas nas mesmas circunstâncias que envolveram o tal “acaso” é algo que, creio, na média, reagimos de maneira diversa… seja para “agredir” física ou moralmente o “causador” do “acaso”, seja para simplesmente “humilhar” aqueles não estarão na condição de sanar o prejuízo material… Quanto aos tais condutores de motocicletas, de maneira geral, creio que estão mais suscetíveis às tais “mentes paralelas” que lhes incitam toda espécie de “insanidade” no trânsito… até porque são os que mais sofrem as consequências, sejam financeiras, sejam biológicas… de tudo, creio, que nos resta, diante do “acaso” acontecido, fica nossa necessidade de aprender a ter bom controle emocional e racional, pois, o que demonstrou ser algo “suportável” em todos os aspectos (inclusive financeiro), poderia se ampliar para algo mais desastroso, como vemos muitas vezes no noticiário policial… obrigado, pois, por seu exemplo… Bom domingo.

    • Democracia ao PONTO: garçon + 1 cana, tira gosto SARDINHA péÓóRrrrr sem ELA!

      Caro JEu, … R Mota indo além-CABANA de Young no CANADÁ
      reza a LENDA que Young imprimiu 15 CÓPIAS p’amigos no NATAL (2005).
      https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Cabana
      Na CHOUPANA, a velha cozinheira AFRO:
      – com rugas NATURAIS em curvas étnicas peitando a REALIDADE;
      – abundando por todos os LADOS da língua paladares SERVIS.
      Um encontro inusitado com Deus e JESUS, Sarayu (E Santo):
      – COM Sophia (Sabedoria) pela RESPOSTA ao inexorável;
      – ELE tão poderoso NADA faz pra amenizar mô SOFRIMENTO?
      Mais de 20 milhões de EXEMPLARES vendidos na onda ESPÍRITA:
      – aqui na SEFAZ (Sec Fazenda) tudo com imposto de RENDA;
      – melhor declarar SEM multa até amanhã TERÇA 30abr18.
      Valhei-me N Sra do PERPÉTUO jeitinho brasileiro, urra o LEÃO!
      Uma religião completa e autônoma SINCRÉTICA à moda BraZZêLL.
      Além FRONTEIRAS em 2005: uns 15 milhões entre Portugal e Espanha, França e R Unido do BREXIT, Bélgica e EEUU, Japão e Alemanha, Argentina e Canadá.
      MAIS Cuba, Jamaica e Brasil baseado em censos demográficos onde nem todos interpretam ESPIRITISMO como religião.
      https://pt.wikipedia.org/wiki/Espiritismo

  • Há Lagoas

    Não é possível passar o domingo sem seus textos.
    E a proposito, alguém já disse: “Coincidência não passa de um pequeno milagre no qual Deus decide permanecer no anonimato”.
    Uma boa semana a todos.

    • Sertanejo ENLUTADO esperando Justiça e PAZ com FÉ

      Carísismo Há Lagoas! … Deus é OMNI-presente!
      > CONTRARIADO […] brilho nos olhos: [R Mota, acima]
      – Continue sendo esse homem que você É. [Contrariedade ZERO]
      Sem ele, a BATALHA aqui no Sertão estaria perdida:
      – aqui abundam CONTRARIEDADES no tempo quase sempre SECO;
      – a sorte é ter ESPÍRITOS desarmados em espaços POUCOS.
      > CERVEJAS e caipi­rinhas COM tira-gostos:
      – CENÁRIO de boteco, garçons cúmplices de desconhecidos ao REDOR;
      – NUNCA consegui­mos decifrar SEGREDOS. [BUTECOTERAPIA], R Darte
      [24mai2008], https://www.recantodasletras.com.br/artigos/1003719

  • Antonio Moreira

    Ontem,às 7:30H, Na Av Fernandes Lima – sentido Centro de Maceió, um ciclista(todo equipado), pedalava pelo lado esquerdo da via. Quem dirigia(carro), tinha que deixar um espaço para ele(lado esquerdo) e outro espaço para os motoqueiros(lado direito). Enfim, o trânsito não fluía naturalmente.

    Interior->Maceió. Passava pelo posto policial, ali em Satuba, mesmo com um guarda no meio da pista, um motoqueiro veio apressado pelo encostamento e o baú da moto bateu no meu carro.
    Ainda assim, lá na frente, consegui alcançá-lo… Mesmo com raiva, entre o bem e o mal, escolhi ficar com o prejuízo.

    1º ao 5º ano do ensino fundamental, tem escola que ensina uma das disciplinas: Meio ambiente e Trânsito.
    Mas o povo se prepara para TER, e não para SER.

    Dizem, manter em dia um 1/10 do salário para o “senhor”, está livre dessas coisas.
    Não deixe para amanhã, o inimigo anda solto em todo canto!

    • CAETéLâNDIA 1817>Miami 2018 na Florida REINVENTANDO Brasil 2019-2022

      ÊITA, Antonio! … Ricardo viu o PAI do Filho do Homem:
      > 1.0, p’inferno em tempo de PURGATÓRIO, da F Lima. [imune]
      – BRILHO n’olhos VIVOS: continue send’esse HOMEM q vc É! [bênção]
      Parece até que QUEM procura acha COLETIVO:
      – Bateu LATA ou furou PNEU, apagou a IGINIÇÃO: salta ao próximo!
      Pois é da vida PARTICULAR a posse de carro SEM manutenção:
      – fazendo ÓLEO pelas entranhas em poças na GARAGE: poÇante$!
      Haja TENTAÇÃO e perdição … ‘inimigo anda solto em todo canto!’