As ruas largas de asfalto das cidades trazem um vulto estranho aos nossos acostumados olhos de indiferença. Trata-se de um fantasma de tonalidade fosca, seca, sem atração nenhuma. Um espectro torto pelo peso da ruína imposta diariamente. Empurrados pelos regatos fétidos dos meios-fios estreitos, põem os olhos ao nível dos pés, como se não tivessem coragem de levantá-los para ver outros olhos inclinados em direção oposta. Sentem vergonha do malogro. Por vezes agridem os transeuntes sem fitá-los. Roubam-nos suas paciências bem remuneradas e tiram o sono justo dos homens e mulheres vestidos com tecidos macios, quentes e elegantes nas noites frias.

De fato, uma visão assustadora. Em meio ao imundo toque de recolher da fome, estendem as mãos não aos passantes, mas ao alheio sentimento de desprezo de uma multidão frenética e às gargalhadas. Veem-se como párias que já tatuam a cidade. Fazem parte de sua paisagem de cimento.

Não há espaços em que não estejam. Estações, praças, calçadas, hospitais, delegacias, encostas, trilhos, lixões, viadutos, acostamentos. Vagueiam como bichos em carne viva. Brigam pelos restos de comida podre, cuspida, úmida e infectada nos latões de alumínio bem arrumados nas portarias dos condomínios.

Não têm paladar pela vida. Tiraram-lhe o lazer e os sonhos. Arrancaram seus braços e pernas para nunca mais se equilibrarem. Furaram seus olhos miúdos, bateram em sua face imberbe, arrebentaram seu estômago, rasgaram suas roupas. Ficaram sem água fresca do banho, sem o pão quentinho com café de cheiro matinal, não foram aceitos nos salões de festa, deram um nó apertado em suas vozes, fizeram-no maltrapilhos. Não têm pais, vivem feito guerreiros remelentos, catam uns centavos ali, vivem a correr dos berros acolá, têm medo da vida. Não sabem ler, nunca entraram num teatro, não viram Titanic no cinema. Dormem sobre os bancos. Veem os aviões e sonham em ter asas. Não escovam os dentes, não rezam, jogam com bola de meia, não sabem o que é bossa nova. Cheiram cola, amam-se como adulterinos, coçam as costas em muros obscenos, ficam bêbados, são migalhas ao vento. Não têm pátria, nunca disseram “presente, professor”, têm dentes escuros, sentem frio, não têm cadastro no posto de saúde, não sabem quem inventou o telefone, nunca viram de perto um avião, seus chinelos são os calcanhares, cospem a saliva de ontem, deitam felizes com suas magrelas, nunca fizeram um curativo, assoam as ventas com o papelão usado, não conhecem Júpiter, têm apelidos do sofrimento, abanam-se com as m%C

Com o bom humor de volta, Renan brinca até com coisa séria
"A depressão é o grande mal desse século", garante especialista