Apenas mais um dia da semana, os fatos e os atos se repetindo tediosamente. Só que nem sempre estamos dispostos a olhar o que nos parece ser a paisagem imutável e aceitá-la de bom grado.

Vou trabalhar no meu pequenino 1.0, ouvindo boa música e seguindo na velocidade que parece irritar sempre e tanto os nossos velocistas de todo dia.

A sirene da viatura policial chama a minha atenção, e faço o que todos devemos fazer nessa circunstância, até porque se não, se não, sei não (isto é apenas uma crônica, gente). Estava na altura da Praça do Centenário e puxei o meu bólido para junto da calçada, no que fui seguido pelo motorista que me seguia.

Passa o carro da polícia, acelerando, e vem a inusitada caravana de rodas de borracha aproveitando a pista aberta: à frente, uma moto; na sequência, uma caminhonete enorme; e, fechando a fila, um carro pequeno, popular. O oportunismo democrático estava ali representado: um microcosmo da nossa insuperável falta de educação no trânsito (também).

Disse para mim mesmo: “A farinha, hoje, vai azedar”.

Por esses tempos, podemos constatar, a mandioca-brava tem tomado conta da plantação com muita frequência – o que não é pouco. O seu veneno, bem lembremos, pode ser letal para os bípedes sem penas (que pouca pena têm merecido).

Manihot esculenta, a dita cuja, faz parte do nosso cardápio brasileiríssimo e há de ser requisitada até em alguma cantina sofisticada de São Paulo – como fez o viçosense (com testemunhas) Aldo Rebelo. Fato é que a mandioca é uma das principais fontes de carboidratos do planeta, alimentado cerca de 800 milhões de bocas – famintas, imagino.

O problema passou a ser a solução: a mandioca-brava, selvagem, a que libera o cianeto letal se não for bem tratada, foi a escolhida pelo homem por merecimento evolutivo – pela capacidade de autodefesa em relação ao ambiente – para que fosse domesticada, perdesse o veneno e se transformasse nessa criatura tão querida pelos humanos.

Só que o tal veneno, em tempos de clima ruim e humor ácido – nas cidades, principalmente –, retoma sua capacidade de detonar os nossos irmãos e irmãs, voltando às origens, como lá na Costa do Peru, onde foi localizada e batizada M. esculenta flabellifolia, até se espalhar pela Amazônia brasileira. Foi sendo amansada, é verdade, mas mandioca que se preza há de guardar um tanto do mal que traz escondido na alma.

Agora, eu estava ali, às margens da praça que tanto orgulho provocava em Sandoval Cajú, diante de alguns espécimes da amarga – prontos para azedar a farinha do meu dia.

Chego à TV Pajuçara, e alguns colegas, moleques em fase de maturidade recusada, se empenham em suavizar as horas. Uma brincadeira aqui, outra ali, nos intervalos de textos chatos sobre os novos e velhos bárbaros da política local – e nacional -, e logo a farinha ganha um sabor mais suave, fica quebradinha, daquele jeito que nos remete a atos mais primitivos ou menos urbanos: boca aberta, grãos atirados ao alto e aparados na saliva pidona.

Volto para casa. Em frente à Rádio Educativa, uma pedestre, jovem ainda, resolve desdenhar da largura da Fernandes Lima, o inferno que Dante não teve coragem de descrever. Freio bruscamente, mas sem representar risco para ela: o problema poderia vir atrás de mim, avexado, a buscar um espaço que a física newtoniana haveria de lhe negar.

Ufa! Deu tempo para a dupla parada – não sem xingamento, é claro.

Finalmente, lar, doce lar – azeda estava (de novo) a farinha. Como algo leve, ainda que sem os subprodutos da mandioca, saudada em palácio pelos seus méritos históricos. (Em tempo de discussão áspera de gênero – o que inclui a Mulher sapiens -, fico a imaginar a cobrança pela falta de saudação aos mandiocos e aos transdiocos. Mas é melhor não procurar mais confusão).

Deito, leio um pouco, literatura nada amena, mas agradável, e passo a recolher os flaps do renitente 14-Bis. Ligo a TV, e lá está Paulinho da Viola, farinha fina, pronta para virar pirão da Marlene, lá em Penedo, que eu saboreio ajoelhado e me entregando ao último adeus. Alegre e satisfeito.

O que será do mandiocal amanhã?

 

TJ deve decidir hoje o futuro dos pardais eletrônicos
"O eleitor médio não vota em candidatos extremos"
  • Juvenal Gonçalves

    Pois bem, amigo. Esse mandiocal está cada vez mais enraizado ao longo de largas fileiras, além da irritante. Na via estressa encontramos de montão. Agora, imagina quão forte é a intensidade do seu “amargor”, quando você está voltando da sua praia no litoral norte e vê à sua direita, o “mandiocalzinho” do acostamento… Ao passar por você, contudo no seu espaço do “quem vai chegando vai ficando atrás…”, aquele olha um tanto atravessado como que dizendo: fica aí otário, eu sou o esperto!

    • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

      ôI, Juvenal! … a praia dos [email protected] seria no litoral SUL!
      > Se eu soubesse Q chorando/ empato a tua viagem/ meus olhos eram 2 rios
      – que não te davam passagem. [L Gonzaga 1912-1989]
      Apois mas é do litoral NORTE onde panelas velhas fazem comida boa, como as TAPIOCAS da tia Maria BONITA.
      Assim cantávamos no carnaval 1956 das LANÇA PERFUME Rodoro americana, e às cocaína (a preço de CERVEJA, dizia Nelson Gonçalves) do pó vendido em farmácias, distribuição MSD, Merck Sharp & Dohme.
      Hoje, Ricardo … um BOM DOMINGO antes do cafezinho vespertino!
      AGORA, Juvenal e Ricardo, da mandioca AZEDA fazemos sensuais TAPIOCAS com 2 bandas à moda grandes LÁBIOS, excelentes também no café da MANHÃ.
      Teria sido MARIA BONITA (1911-1938) uma HH em armas se virando nos 1930’s?
      https://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Bonita

      • Juvenal Gonçalves

        Aí, João, como já disse o Nobre Lavoisier, você arruma um jeito para aproveitar o azedo dessa velha mandioca, transformando-a nessa deliciosa tapioca de grandes lábios dobrados..

  • JEu

    Bom dia, Ricardo… concordo que, nesta vida, o que temos de sobre é “mandiocal” para todos os lados… como disse, é fruto de nossa lenta (mas inexorável) “evolução”… aprendemos tanto, desde os sábios da Grécia antiga, que parece, nos dia atuais, que estamos “cansados” de tanta “sapiência” e, por isso, estamos com “saudades” dos tempos mais primitivos (que o dia a tal da educação para o trânsito…)… há quem diga perto está o retorno de Jesus… e creio, que, se isso acontecer, vamos colocá-lo em uma cruz bem mais cruel do que a narrada nos aclamados textos sagrados… pois em vez de assimilar o “fazei aos outros o que desejas para vós mesmos”, preferimos “lavar as mãos” e mandar o outro para o “suplício”… é triste mas é a pura verdade… e assim, e apesar de todas as “câmeras”, celulares e outros tipos de equipamentos para registrar nossa ignorância do dia a dia, vamos perpetuando a violência e a rebeldia que nos é própria e reafirmando que o mundo “é dos mais espertos” (ou dos mais violentos… não enxergo bem a diferença)… então, finalizo concordando com vc que, ao final de cada dia, devemos “aproveitar e saborear” a farinha nossa de cada dia, da melhor maneira possível… Bom domingo.

  • SEBASTIÃOIGUATEMYRCADENACORDEIRO

    E LA NAVE VA . . . EM MEIO AO MAR CADA VEZ MAIS PROCELOSO…AGUENTAR FIRME NO TIMÃO É MISTER…GASTAR OS ULTIMOS TRAÇOS ENERGÉTICOS DA RESERVA FARINÁCEA ADQUIRIDA , NESTA IRRESISTÍVEL E IRASCÍVEL TAREFA,É O NOSSO FANAL … BOM DOMINGO , NOBRE ARGONAUTA .

  • Antonio Moreira

    Abri o portão da garagem onde trabalho, o meu o carro estava impedido de sair porque tinha uma moto estacionada.
    Sem precisar pedir, uma mulher chamava o seu marido para tirar o empecilho da passagem. Ele não veio.
    Ela, com muito esforço, mudou a máquina de posição e consegui sair.
    Desci do meu carro para fechar o portão. Quando voltei, fiquei impedido de entrar no carro porque ele veio e colou a moto na porta do meu carro.
    Ele falava o tempo todo pelo celular. A mulher pedi para ele tirar a máquina e eu ouvi o humano dizer: O local aqui é público e a garagem não é dele.
    Respondi: Tudo bem, não vamos brigar por causa disso. Entrei no carro pela porta do passageiro e fui embora com as carnes do meu corpo tremendo… O difícil é simplificar as coisas, foi o que fiz.

    Conheço uma “criatura” e sei o que ela é capaz numa hora dessas!
    Graças a Deus “ela” não apareceu lá, nesse dia.

  • Robson Costa

    Melhor ficar com a Farinha de Djavan…

  • Nelson

    Não foi a tôa que a sabia Governanta que o Brasil teve por cinco infelizes anos, tanto exaltou a mandioca, nesse quesito ela acertou. Realmente é incrível a falta de educação das pessoas no trânsito do nosso País, abrir passagem para uma ambulância, vc não volta mais pra o seu lugar, principalmente esses motociclistas raciados com Hienas selvagens destilam toda sua ignorância e falta de respeito aos direitos dos outros, por isso morrem aos montes, é quase um suicídio coletivo. Outra classe insuportável no trânsito são esses motoristas de transporte com Vans, criaram suas próprias leis e a SMTT se mostra incompetente e medrosa diantes desses abutres. Ontem mesmo eu estava descendo a ladeira no sentido Jacintinho rodoviária, na minha frente um motociclista com um carona resolve frear bruscamente para retornar em cima das duas faixas amarelas e com aquelas plaquinhas dividindo a pista. Só não os atropelei porque os freios ABS funcionaram, mas o carro que vinha atrás de mim ainda deu um totó na traseira do meu, é desencadeou um série de freadas bruscas dos demais carros que vinham, tudo por conta de dois jumentos dirigindo uma máquina de duas rodas.

  • Há Lagoas

    Exercer misericórdia não é uma tarefa fácil, optar por ela cotidianamente é um sacrifício que eleva a alma e mata o eu. Boa semana a todos.

  • Vera

    Que delícia de texto, Ricardo.

  • Fátima Medeiros

    Texto brilhante! Fina farinha!!!