Confesso que foi com uma pontinha de orgulho que li a declaração do crítico de artes do New York Times: “Se Pixinguinha fosse americano, haveria uma estátua dele em cada cidade dos Estados Unidos.” Não que eu precisasse da aprovação primeiro-mundista para saber que ele falava de um gigante da Música Popular Brasileira. O ouvido para o Pinzindim – menino bom, em um dialeto africano (era assim que vovó Pixinguinha chamava) -, eu tinha desde garoto, graças ao bom gosto musical do seu Luiz Mota e de dona Lucinha.

Depois, porém, de ler a biografia escrita pelo excelente Sérgio Cabral – o pai -, dei maior importância aos elogios e reconhecimento manifestados pelo respeitado jornalista americano, cujo nome o tempo apagou da minha memória.

Preservada ficou a história do preconceito boçal de que foi vítima aquele que conquistou admiradores espalhados pelo mundo. Alfredo da Rocha Viana, o “Carne Assada” (nome de um dos seus choros), que integrava os Oito Batutas ao lado do inesquecível Donga, embarcou no dia 29 de janeiro de 1922 para uma temporada em Paris, sob o protesto de parte da imprensa brasileira e de insuspeitos intelectuais.

O escritor Gilberto Amado, por exemplo, num discurso na Câmara dos Deputados, sob o pretexto de repudiar a negação de um financiamento para uma viagem ao exterior do não menos talentoso Villa-Lobos, atacou:

– Negar a Villa-Lobos o direito de ir para a Europa, mostrar que não somos apenas os Oito Batutas que lá sambeiam, é negar que pensamos musicalmente.

O Diário de Pernambuco, de circulação nacional, foi mais explícito no seu achincalhe àqueles homens de origem pobre, ricos do que de melhor produzíamos como música genuinamente brasileira: “Não sei se é coisa para rir ou para chorar”, escreveu A. Fernandes:

– Seja como for, o boulevard vai se ocupar de nós. Não do Brasil de Artur Napoleão, de Osvaldo Cruz, de Rui Barbosa, de Oliveira Lima, não do Brasil expoente, do Brasil elite, mas do Brasil pernóstico, negroide e ridículo, e de que la chanson oportunamente tomará conta.

O talzinho só encontrou rival em estultice no Jornal do Comércio, para quem iam a Paris “oito pardavascos que tocam pandeiros e outros instrumentos rudimentares”, lamentando “não haver uma polícia (exatamente, polícia) inexorável que, legalmente, os figasse pelos cós e os retirasse de bordo com a manopla rija, impedindo-lhes a partida no liner da Mala Real.” Os Oito – na verdade, sete – atravessaram o oceano e só retornaram em 14 de agosto daquele mesmo ano, trazendo na bagagem os elogios escancarados dos que os viram e, mais do que isso, os ouviram na capital francesa.

Pena que o empolado escriba não tenha vivido tanto para saber da declaração de amor do homem do NY Times. Mesmo que aqui os bons do ramo já soubessem, então, que Pixinguinha era um gênio, exatamente como o tratara o professor Paulo Silva, outro nome internacional, autor de um método para flauta que a Europa musical vastamente consumia por reconhecido valor:

– Não sei até agora como Pixinguinha faz essas instrumentações, porque a regra proíbe tecnicamente certos recursos inadmissíveis nos compassos. Jamais consegui colocar essas formas dentro dos compassos como Pixinguinha. Devem ser transcendentes.

Com base nas afirmações do mestre, alguém há de justificar que foi por isso que Pixinguinha morreu à beira de um altar, em 17 de fevereiro de 1973 – um sábado de carnaval ( quando estava batizando mais um afilhado). Vinícius de Morais, que veio a ser parceiro do chorão na bela Lamento, dizia que “Pixinguinha é o melhor homem que Deus pôs no mundo.” E para quem ainda duvidasse da sua paixão pelo “negroide”, afirmava:

– Se eu não fosse Vinícius de Morais, gostaria de ser Pixinguinha.

Não era, e quem poderia sê-lo, se não o próprio?

Benedito Lacerda, fã e parceiro de Pixinguinha, chegou até a gravar alguns dos choros que só o autor conseguia tocar na flauta, ‘transcendentais’, e protagonizou com ele o que talvez seja uma das mais emocionantes páginas da história da Música Popular Brasileira. Foi numa tarde dos anos 60, do século passado, em um dos shows da “Velha Guarda”, em São Paulo, organizado por outro gigante: Almirante – ou Henrique Foréis Domingues, que amava Noel e Pixinguinha.

Convidado ao palco, o maestro Benedito Lacerda fez um duo na flauta com o saxofone do “menino bom”, num dos seus maiores clássicos. Durante meia hora de tantos e geniais improvisos foram às lágrimas, só passeando pelos acordes de Carinhoso.

Apenas quem já “aplicou música na veia” há de saber como foi bom aquele choro, chorado como o melhor de todos há de ser: a dois, de puro prazer.

 

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  • Ronaldo

    Mesmo quem não é afeito à musicalidade, não tem como deixar de reverenciar Pixinguinha. Ótimo artigo amigo Ricardo Mota.

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Excelente texto… uma verdadeira ode à genialidade de Pixinguinha… mas também um verdadeiro certificado de que, para Deus, não importam raça, cor da pele, religião, condição sexual ou ideologias pessoais… o importante é que, para Ele, todos somos iguais… nascemos de forma biologicamente igual, e morremos biologicamente igual… (não importa o tipo de morte… o que importa é que a matéria biológica sofre igual desagregação)… então, a pergunta que não quer calar é: por que ainda insistimos em cultivar tantos preconceitos?!!! se acumulamos bens materiais em maior ou menor quantidade, nada disso realmente influencia nos bens intelectuais, éticos, morais e espirituais que todos podemos, gratuitamente, amealhar… e se os bens materiais ficam neste mundo material, os bens intelectuais, éticos, morais e espirituais, além de serem reconhecidos indefinidamente pela humanidade, ainda, dizem as religiões e, até, muitos filósofos, serão reconhecidos para sempre em “outro mundo”… Salve Pixinguinha… Bom domingo, Ricardo.

  • Robson Costa

    Ricardo, gigante, mais uma bela Crônica, cada vez mais me descubro seu fã, quantas memórias maravilhosas e poucas linhas.
    Parabéns.
    PS: Del Popollo, a melhor pizza de Maceió…

  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    Ricardo, … um BOM domingo ádentrando DEZEMBRO fim d’ano: chegaÑu$!
    em St’Ana salta aos olhos a negritude em Salvador BahÊa e a amarelitude na Liberdade SãFALHA da maior cidade NORDESTINA do Brasil.
    Avêssas às mediocridades de DITADURAS pU tempo (in-)DETERMINADO, pessoas CULTAS reconhecem a importância da DIVERSIDADE:
    – em SãFÁio asiáticos estudam e ensinam na USP com africanos na CAPITAL;
    – na Maçaýó CAETÉS e quilombolas inovam nos campi d’UFAL tri-eletrizando INTERIORES;
    enquanto POBRES de espírito vão a Miami atrás das BLACK fridays, pois … “As FAMÍLIAS tradicionais brasileiras q’os portugueses encontraram ao desembarcara NUM eram homofóbicas”.
    [26jun17], https://revistacult.uol.com.br/home/estudo-mostra-diversidade-de-praticas-sexuais-entre-indigenas-no-brasil-pre-colonial
    Em ALAGOAS a diversidade começa c’ORGULHO Sertanejo d’estudante POBRE em Recife sem dar AZO à visão curta da VÓ de Dr ARIANO com nariz arrebitado arredia ao PêId’Álvares. Virou chacota de NETO culto.
    [25ago17], http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/08/1912621-nos-90-anos-de-ariano-suassuna-musical-resgata-universo-do-escritor.shtml
    Ignorando interesses LOCAIS, perdemos as riquezas da bodega do ÍNDIO 6ª feira autobiográfico [R CRUSOÉ, D Defoe 1719], naufragamos entre canibais e cativos revoltosos no afrancesamento de LIKES as “Vendredi ou la Vie sauvage” (2005).
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Robinson_Crusoe

  • Há Lagoas

    Mais um excelente texto.
    Em tempos do “politicamente correto”, é perceptível quando a defesa não é feita com o âmago da alma. É preciso viver pra ser, e ao mestre a sua merecida reverência e nela esta incluída a sua cor sim.
    Parabéns ao cronista, parabéns a nossa cultura que deve muito ao imortal Pixinguinha.

  • Wilson Santos

    Texto maravilhoso, a altura de Pixinguinha !