Não são poucas as vezes em que me consideram um romântico, um nostálgico, como se eu só identificasse beleza ou prazer no que ficou lá no passado.

Isso não me parece justo nem verdadeiro.

Vivi minha juventude num tempo em que havia censura, repressão política, quase nenhuma liberdade sexual, pouco acesso às produções culturais e científicas, e mesmo a comunicação cotidiana, até com quem estava próximo, era dificultada pela inexistência dos instrumentos que nos são fartos, hoje. Não tenho qualquer saudade das coisas que me tolhiam e aos da minha geração.

Interessante é que a observação, por óbvio, em tom de crítica ou desdém, vem sempre quando abordo, com nítida paixão, dois temas que sempre fizeram parte indissociável do prazer em minha vida: música e futebol.

A lembrar: os dois seriam para o Brasil o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamou de capital simbólico: grosso modo, aquilo que o mundo via em nós como superlativo e que nos elevava a autoestima.

Está tudo dito no passado, acima, mas pergunto: seria verdadeiro, se eu colocasse a afirmação no presente?

Nossos ídolos ainda são os mesmos, já cantava na década de 1970, premonitoriamente, um cearense de voz rascante, que resolveu nos deixar – de novo – este ano. Ele já havia se recolhido em “um pacto honrado com a solidão”, na belíssima definição de Gabriel García Márquez para a velhice. Muita coisa mudou desde que Belchior veio ao mundo clarear as angústias e alegrias humanas, que tão bem sabia e cantava. E ele era de uma geração que está indo embora, cumprindo o seu ciclo vital, e não encontra substituta.

Será que surgiram nomes da mesma dimensão de Tom, Chico, Caetano, Gil, Djavan, Alceu, Renato Teixeira, Paulinho da Viola e tantos que tais que este texto ficaria longo demais se eu fosse relacioná-los, citando apenas os que me formaram como ouvinte apaixonado?

A MPB não acabou, mas ela virou outra coisa, mudou, talvez porque dê trabalho demais se debruçar sobre harmonias mais complexas e os ouvidos não estejam tão dispostos a ouvir, processar, se acostumar e depois gostar – ou não. (Fast food, fast music.)

Não é diferente com o futebol. Há cada vez menos estetas e mais atletas. No giro da bola, alguma coisa acontece, assim como se um tuíte assumisse o lugar que haveria de ser – eis a minha “visão romântica” – um verso a comover e, quem sabe?, nos levar ao território da paixão.

Quem viu Pelé, Rivelino, Zico, Sócrates, Falcão, Roberto Menezes, Reinaldo, Ademir da Guia, Gérson… ufa!, há de encontrar beleza na atividade física, intensa e “científica” em que se tornou, dominantemente, o esporte mais popular do mundo, por aqui?

É verdade que o “negócio futebol” cresceu tanto que passamos, quase sempre, a ser apenas um país formador de pé de obra para os que podem exercer a força da grana. Neymar está aí, para comprovar o escrito. Aliás, está em Paris, levado por um xeique que desconhece os limites para l’argent.

Se tenho de pedir desculpas, neste caso, é por ter me acostumado à divina criação humana e já não conseguir encontrá-la onde foi farta, mesmo em meio à mediocridade abundante. Que sempre existiu, mas era compensada pelo balé dos gramados precários.

Investimos nossas expectativas inventivas, por esses tempos, na tecnologia, principalmente.

Ah, ela democratizou a produção artística e cultural, dirão. E eu vos indagarei: será que todos são, de fato, criadores musicais, literatos, ou querem apenas, na maioria, romper a barreira da invisibilidade social, destino de quase todos nós, os demasiado humanos?

É uma regra básica e imutável: sempre haverá mais gente na plateia do que no palco; mais leitores do que escritores. A (sub)literatura da rede, predominantemente, tem repetido o enredo idealizado do “esta é a minha vida”, feito de memórias descartáveis e fugazes.

Em qualquer tempo ou lugar, a mediocridade é a regra; a excepcionalidade se autodefine.

Os grandes artistas são grandes porque são artistas, antes de qualquer coisa. E deixarão suas obras para a posteridade, o definitivo julgador daquilo que, de fato, importa, quando a porta do passado só deixar passar o que vai virar eterno, aquilo que tem vocação para o clássico.

Daí, a minha convicção de que, lá mais adiante, em dias inalcançáveis para mim, uma voz, cortando a madrugada, meio tonta de saudade, meio encharcada de esperançosa dor, há de jogar uma praga, adorável, aos que virão, jurando que “futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber, com o amor que um dia eu deixei pra você”.

 

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  • JEu

    Bom dia, Ricardo… parece que o dia amanheceu nostálgico hj… mais uma vez… muito embora o de hj parece-me um pouco mais “descrente” do futuro… um pouco mais triste, talvez… no entanto um fato chama-me a atenção: a grande maioria dos grandes pintores normalmente não foram reconhecidos pelos seus contemporâneos… seus trabalhos só se tornaram pelas excepcionais nas gerações futuras… normalmente viveram e morreram pobres e explorados por seus contemporâneos… triste realidade de nossa “humanidade”… mais uma coisa concordo com vc: nenhuma outra seleção brasileira jamais se igualou (e duvido das que virão no futuro próximo) à de 1970… assim como ninguém haverá de tirar o título de atleta do século de Pelé… mais isso foi no século XX e já estamos no XXI, não é mesmo?… Bom domingo.

  • Antonio Carlos Barbosa

    Grande Mota, outra pérola de texto acima, nos brindando neste domingo.
    vale ressaltar, mais uma pérola do cinema Argentino, o belíssimo filme “O Cidadão Ilustre” que conta a história de Daniel Montavani (Oscar Martinez em excelente atuação) um escritor argentino e vencedor do premio Nobel, recebendo o prêmio e com uma câmara documenta o momento, subindo ao palco e em seu discurso, agradece dizendo que também lamenta o recebimento do prêmio. Radicado há 40 anos na Europa, volta à terra natal, Salas, e que inspirou a maioria dos seus livros para receber o título de Cidadão Ilustre da cidade – um dos únicos prêmios que aceitou receber – no entanto sua ilustre visita desencadeará uma série de situações entre ele, seu passado e o povo local.
    Apesar de mais de 40 anos sem retornar a Salas, na verdade nunca saiu de Salas, pois sua literatura alimenta-se de suas experiências da infância, adolescência e criação em Salas, e nos seus livros relata uma caricatura da humanidade concentrada ou expressa na população de Salas, o que produz ressentimentos de toda ordem.
    Dirigido pela dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat ( O homem ao Lado – outra pérola do cinema argentino).
    Vamos ao cinema.
    Bom domingo.

  • Antonio Moreira

    Boas lembranças do amigo João das Alagoas(é só olhar no google).
    Lembro-me que éramos amigos de sala de aula – Nas séries iniciais e no ginásio. Eu ficava encantando com os desenhos que ele fazia no caderno.
    Pedi para os donos do meu primeiro emprego para contratá-lo. Trabalhamos juntos.
    As mocinhas que me interessava pertencia a outro quadrado da cidade, portanto, chance quase zero …
    Fui estudar o 1º ano do ensino médio na cidade vizinha. Lá, as moças não sabiam em que quadrado da minha cidade eu pertencia, embora, jamais iria esconder/mentir. Fui bem aceito…
    Fui embora para São Paulo e depois voltei para Alagoas/Maceió. Em 2006, Concursado/Estado-AL, fui trabalhar na minha cidade de origem, onde fui bem recebido.
    Hoje, posso me hospedar/morar/vender em várias moradas no quadrado das mocinhas que me interessava no passado.

    Hoje
    Taiguara

    Hoje
    Trago em meu corpo as marcas do meu tempo
    Meu desespero, a vida num momento
    A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo

    Hoje
    Trago no olhar imagens distorcidas
    Cores, viagens, mãos desconhecidas
    Trazem a lua, a rua às minhas mãos

    Mas hoje,
    As minhas mãos enfraquecidas e vazias
    Procuram nuas pelas luas, pelas ruas
    Na solidão das noites frias por você

    Hoje
    Homens sem medo aportam no futuro
    Eu tenho medo acordo e te procuro
    Meu quarto escuro é inerte como a morte

    Hoje
    Homens de aço esperam da ciência
    Eu desespero e abraço a tua ausência
    Que é o que me resta, vivo em minha sorte

    Sorte
    Eu não queria a juventude assim perdida
    Eu não queria andar morrendo pela vida
    Eu não queria amar assim como eu te amei

  • Zita

    Eis uma verdade bem própria dos tempos em que vivemos: a pressa não dá espaço para que a beleza se imponha. Tudo deve ter consumo rápido e massivo.
    Mais uma ótima crônica.

  • Robson Costa

    Supimpa, esplêndido, diria até “arretado”, apesar de tudo é de todos, dos modismos passageiros, a boa música sempre vai existir, simomes, atemporal…
    E mesmo quando o improvável vier a acontecer, mesmo quando os ciclos termimarem, sempre haverá de existir um Grande Ricardo Mota, aqui e acolá…

  • Joao TT

    ôI, Zita e Ricardo MOTA, … nosso CARINHO às campeãs:
    – 1958 (Suécia) e 1962 (Chile BI) c Pelé e GARRINHA – fomos [email protected] REIs;
    – 1970 (TRI) c PELÉ e Tostão + JãSALDANHA 9’s Médici – vade RETRO;
    – 1994 (TETRA 0x0) n’empate c prorrogação made in USA;
    * Na VERDADE, o Brasil o Q será: vai vem na contra mão?
    – Homem Q tem sede na seca do SERTÃO: o Brasil dos 2 é o meRmo?
    [Ney 1999], https://www.vagalume.com.br/ney-matogrosso/a-cara-do-brasil.html

  • Thiago

    Parabéns pela lucidez e escrita. Devia nos brindar com um livro de contos.

    • FELIZES desde 1.500 na colonia SERVIL de 1817 pós Portugais& e RAMALHo$

      De FATO, Thiago … “Tom, Chico, Caetano, Gil, Djavan, Alceu, Renato Teixeira, Paulinho da Viola [..] este texto ficaria longo demais […] citando apenas os que me formaram como ouvinte apaixonado? [R Mota ACIMA]
      POIS, Ricardo … em alguma medida BIBLADO em papéis de SEDA, brindar-nos-ia com LIVROS em prosa e verso, capítulos e versículos ÉPICOS – quase bíblicos!
      Dois ABRAÇOS!

  • Há Lagoas

    O saudosismo é parte inerente da alma humana, e por não sermos eternos, nossa efemeridade nos trará sempre a memória o que marcou nossa peregrinação neste mundo. E cá pra nós, a “evolução” do homem tem propiciado muitas saudades de outrora.
    Uma boa semana a todos.

  • Joilson Gouveia Bel&Cel RR

    Malgrado as saudosistas auxeses metafóricas contidas nessa parte e nesse sentido, a saber: “Vivi minha juventude num tempo em que havia censura, repressão política, quase nenhuma liberdade sexual, pouco acesso às produções culturais e científicas, e mesmo a comunicação cotidiana, até com quem estava próximo, era dificultada pela inexistência dos instrumentos que nos são fartos, hoje. Não tenho qualquer saudade das coisas que me tolhiam e aos da minha geração”. Menos, menos… nós todos dessa época sabemos que não fora tanto assim.
    Ao ensejo, urge transcrever parte de um texto de Mário Ferreira dos Santos, in “A Invasão Vertical dos Bárbaros – “Diálogo dos surdos”; a saber:
    “Muitos observam que estamos numa época de incompreensão, pois pessoas que aceitam posições distintas não conseguem mais compreender-se mutuamente. E por que? – perguntam. Às vezes as ideias são as mesmas, se bem examinadas. Por que razão não se entendem? Por que se dá tanta incompreensão no mundo? Será tão difícil observar e entender um tema, de modo que não há mais ninguém que possa manter relações intelectuais com os que defendem ideias diferentes? Ora, realmente tais fatos se dão. E dão-se porque as ideias não estão clareadas. Os termos referem-se a conteúdos noemáticos (semânticos) distintos. O que um quer dizer com o termo a não é o mesmo que o outro quer dizer. As intencionalidades são diversas, os conteúdos são vários. E quando tal se dá (e já Lao Tsé anotava essa calamidade) ninguém mais se entende, porque não há mais firmeza nos conteúdos noemáticos dos termos. O que foi um ideal (e ideal justo e bem fundado) dos antigos passou a ser desprezado pelos modernos, amantes das novidades inconsequentes e dos conteúdos vários, do tipo dos hipoliteratos (que abundam hoje mais do que nunca), que se julgam no direito de dar aos termos verbais os conteúdos que bem entendem. Então o diálogo entre pessoas de posições distintas é um verdadeiro diálogo de surdos. São na verdade cegos que buscam entender as cores, para as quais não possuem imagens com as quais possam representa-las”.
    In http://gouveiacel.blogspot.com.br/2017/02/dialogo-de-surdos.html, na íntegra.
    Abr
    *JG

    • Luiz Antonio

      Concordo Coronel prefiro a relativização de hoje do que as verdades pétreas de ontem, a lei Rouanet tirou as máscaras de meus heróis de outrora, vide o oportunismo do nosso compositor de ” A banda” e “Carolina” e que conveniente também a liberdade sexual que vivemos sem o manto da hipocrisia, sem falar nos heróis desmascarados como Fidel Castro e Che Guevara, tiranos sanguinários que o tempo desnudou, Oh Glória!!

      • Joilson Gouveia Bel&Cel RR

        Caro Luiz Antonio, em verdade e a bem da verdade real, veraz, prática e histórica, “os dias NÃO eram assim”; nem foram assim, mormente para todos os ilustres artistas, atores, atrizes e celebridades, especialmente aos citados no rol do “Peninha”, que se locupletaram nas chamadas “bolsas-Rouanet”; o que é lastimável, oprobrioso e deplorável!
        Abr
        *JG

    • Contra CINISMO grosso, FÉ na IRONIA fina: 2018 vem aí!

      Pois! … tem desgosto pra TUDO como NUNCA antes neste país, AMIGOS!
      * Coroné INDIGESTO quali torresmo,
      servem-no de vinho GOSTOSO cuma beijo de prima.
      * Arrodeado de gente GROSSA tipo parafuso de patrola,
      pessoal tão bem INFORMADO cuma gerente de funerária.
      Vcs me PERDOEM, mas parcem + perdidos q CEBOLA em salada de FRUTAS, gente mais chata que CHINELO de gordo.
      FONTE: http://pedrosmr.blogspot.com.br/2009/12/39-ditados-polurares.html

  • Joilson Gouveia Bel&Cel RR

    ERRATA AO ANTERIOR
    Agradabilíssimo, digesto, digerível e saboroso ou chique, cult, finesse e veraz é defender, soerguer, empunhar e desfraldar as bandeiras do politicamente correto loquaz, mendaz e mordaz do desgraçado, miserável, assassino, ladrão, revolucionário e terrorista socialismo esfarrapado, surrado de superados dogmas doutrinários de um socialismo/comunismo que nunca deram certo e nenhum lugar do planeta. Ou não?
    Ademais, por mais fina, sútil, delicada e urbana que seja a IRONIA, esta jamais derrogará a verdade, veracidade e verdadeira realidade histórica, que tentam reescrever, destruir, desconstituir, desvirtuar, dissimular, escamotear e ludibriar com a arcaica estratégia de Paul Joseph Goebbels e escólio gramscistas/leninista/marxista, que o “Livro Negro do Comunismo” deitou por terra, desmontou e desnudou: o “comunismo é tão bom que negam sê-lo”: Cuba e Venezuela são apenas dois exemplos práticos, reais, verdadeiros e concretos disso tudo, só para citar esses dois exemplos!
    Perdidos estão os mais de 14, 3 milhões de desempregados, que perderam seus empregos/trabalhos e rendas, nesse último triênio, meu cínico mordaz, satírico, sarcástico oponente irônico em nada fino, cortês e urbano haja vista ser “mais grosso que papel de embrulhar prego” ou que as antigas “paredes de igreja”! Ou não?
    Abr
    *JG