Era, de fato, bastante engraçada a fantasia com que o folião foi para as ruas no tórrido pré-carnaval carioca. Vejo-o ali, na TV, e demoro alguns instantes para entender o que se passa: ele estava “montado” nos ombros de um anão (!), que o carregava pelo asfalto, sem demonstrar qualquer esforço na cena carnavalesca exibida.

Claro, é uma ficção criativa e divertida, bem própria do carnaval. Mas a fantasia inverte a lógica da frase clássica de Isaac Newton, um dos mais reverenciados cientistas da história da humanidade – e ainda tão atual.

Num momento de rara humildade – esta não era uma das suas qualidades – o autor de Principia, seu maior clássico, saiu-se muito bem:

– Se cheguei até aqui foi porque me apoiei no ombro dos gigantes.

E o tempo comprovaria o quanto estava certo aquele gênio tão cheio de imodéstia. Outros vieram a se apoiar em seus ombros para desdizer boa parte das suas magníficas descobertas – o que em nada o diminui em ordem de grandeza.

Os cientistas de hoje, é o que demonstra a história do conhecimento humano, também saberão o peso do inexorável avanço do homem (até que ele próprio ponha fim ao caminho sem volta).

Leio no noticiário especializado, cada vez mais ralo, que Machado de Assis, considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos, pelo conjunto da obra, amava Shakespeare e, sempre que podia, subia em seus ombros para que pudesse enxergar mais longe. Segundo a doutora em Teoria da Literatura Adriana da Costa Teles (Machado & Shakespeare: Intertextualidades), o Bruxo do Cosme Velho não economizou nas citações à obra do bardo inglês:  foram nada menos do que 273 referências ao dramaturgo na obra machadiana. Com inegável predileção por Otelo, Hamlet e Romeu e Julieta.

E é possível indagar: quem foram os Shakespeares de Shakespeare, aqueles que lhe cederam os ombros, às vezes até anônimos, para que ele pudesse se apoiar e ser depois, ainda que sem sabê-lo, os ombros de tantos que lhe sucederam?

Ninguém haverá, enfim, de ser a semente criativa de si próprio, em qualquer área de atuação dos homens.

Replicando o modelo da Natureza (olha Darwin aí de novo, geeeente!), o acúmulo de transformações no avanço da imaginação e do conhecimento é que será, ao fim e ao cabo, o grande responsável pelo surgimento – desproporcional, é verdade – de gênios e medíocres.

Eu, por meu lado, haveria de me sentir até bem confortável, em outros tempos, naquela fantasia do folião carioca. Ainda que para mim os personagens estivessem em posição invertida àquela (mais risível): o anão viria montado nos ombros generosos dos meus gigantes, os que me trouxeram até aqui.

Mesmo que ao mundo eles não impressionem pelo tamanho e que tenham despendido inutilmente força e energia.

Mas como lhes sou grato por tantos carnavais!

 

 

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  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    GIGANTE pela própria natureza, como os BONECOS de Olinda
    http://www.bonecosgigantesdeolinda.com.br/historia.php
    São contribuições PERNAMBUCANAS que enriquecem o carnaval SANTANENSES com marcas indeléveis, entre elas:
    – de Caruaru, LOBÃO com fubicas no CORSO, [01mai13], http://www.maltanet.com.br/noticias/noticia.php?id=9699
    – de Brejão, AGEU e Dr H VADINHO na SAÚDE [30set14], http://www.maltanet.com.br/literatura/exibe.php?id=1534
    como víamos em MESAS fartas cheias de copos em RECIFE nos 1970´s, tentando recosturar no SERTÃO a perda o FILÉ descarnado do litoral em 1817.
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolução_Pernambucana

  • JEu

    No entanto, quer aceitemos ou não, a humanidade caminha sobre os ombros “gigantescos” da Divina Criação… Ontem, alguém, com visão muitíssimo limitada, disse que: atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu… e, parece-me, que com a evolução da física quântica, logo,logo, vamos ver compreender que: atrás do trio elétrico vão muito mais “mortos” do que “vivos”… é das próprias leis da natureza… pois alguém também já disse que: na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma… Bom domingo e bom carnaval, Ricardo.

  • Romao

    Ah, Ricardo Mota, amei estes seus escritos! A citação de Isaac Newton é uma das minhas prediletas, inclusive, a citei em meu TCC, nos agradecimentos, linda! Tenho aprendido a refletir assim também: sempre teremos alguém que nos servirá de referência para nossas proposições e, quiçá, também o seremos um dia para alguém!
    Amei suas colocações nesta frase: “Ninguém haverá, enfim, de ser a semente criativa de si próprio, em qualquer área de atuação dos homens.” (MOTA, 2017)!