Os alemães têm uma expressão idiomática para definir o tipo: “ciclista”. É aquele – ou aquela – que se curva aos poderosos e pisa nos que estão abaixo.

Se for movido a sofreguidão, o leitor domingueiro poderá apontar vários exemplos no mundo corporativo ou no território acadêmico, onde as ciclovias e até os velódromos parecem mais fartos e seguros do que no Rio de Janeiro.

Sinto dizer, mas acredito que o personagem é comum demais em qualquer tempo e lugar. Afinal, é muito mais fácil tratar asperamente, em dias mal vividos, os que não têm poder de replicar à altura. Aliás, é de altura que falamos, pois não?

Por outro lado, é sempre muito mais difícil descartar a gentileza e o respeito para com os providos de grana e poder. Aí entra em jogo o superego a dizer: “Calma lá, que o leão não é manso”.

É assim, gente, que a cada jornada desdenhamos do fato de que um “bom-dia” ou um “como vai?”, destinado à gente mais simples, humilde, pode escancarar a porta para um sorriso de gratidão e sem custos adicionais.

De há muito, eu passei a observar as pessoas – não é julgamento, certo? – também pelo tratamento que elas dispensam a quem pouco ou nada tem a oferecer, a não ser essas pequenas coisas que podem, insuspeitadamente, mudar o humor e o rumo de uma manhã sombria.

Confesso a vocês que foram muitas as vezes em que eu errei na dose da desatenção ou da descortesia, e sei que isto ainda irá acontecer em outras oportunidades, porque eu não consigo superar a precariedade humana que carrego desde os cueiros. E haja esforço!

Como consolo, nas minhas contas possíveis, os excessos me parecem ter ocorrido em maior número com os iguais ou com os “superiores”. Nem tanto com os demais. Tudo bem, não resolve – mas ajuda a viver.

Agora, cá para nós: já presenciei, mais do que gostaria, uns tantos “igualitaristas” ignorarem ou tratarem com desprezo aqueles a quem dizem defender com todas as forças e convicções. E estes eram os próximos mais próximos dos altruístas militantes. Se não me engano, a isso batizamos de hipocrisia (que os franceses definem como uma homenagem do vício à virtude).

De nada vale o discurso da igualdade e da fraternidade – a liberdade aqui, por ora, é só do escrevinhador – se não cuidamos de dedicar o mesmo respeito aos desiguais em posse e em pose. Para começar, falo apenas daqueles que fazem parte do nosso cotidiano: a empregada doméstica, o funcionário da limpeza da empresa, o porteiro do condomínio, enfim, estes personagens invisíveis, que ficam muito gratos se os enxergamos. Simples assim.

Um cuidado que há de ser permanente e que a nossa consciência tem de nos cobrar sem tréguas, para que não percamos o prumo. Sim, porque cada um de nós tem momentos de exercício do poder a cada dia: em casa, no ambiente de trabalho, no trânsito, enfim, onde menos imaginamos que ele esteja a nos empurrar montanha acima, com um punhado de pedras na mão.

É como disse Frei Betto, num momento de rara felicidade: “As pessoas não mudam quando chegam ao poder, elas se revelam”.

O que vale para qualquer indivíduo, de qualquer nacionalidade. Afinal, os “ciclistas” pedalam em todos os idiomas humanos, mas não falam a língua dos anjos.

 

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  • JEu

    Bom dia Ricardo. Nada tenho a acrescentar ao seu comentário de hoje… aliás, tenho muito a meditar em meu próprio comportamento… por isso agradeço os comentários sobre a vida e a nossa conduta perante ela que vc nos ofertou hoje. Isso tudo o que vc disse está contido no código de conduta de todo cristão, ou seja, o evangelho, que tantas e tantas vezes pisoteamos por nosso comportamento controverso e contrário ao que lá está escrito. Portanto, mais uma vez obrigado e tenha um ótimo domingo.

  • Há Lagoas

    Olá Ricardo,
    Que bom que em sua excelente crônica você citou a Revolução Francesa, o maior engodo já propalado pelos humanista de plantão desde seu fatídico início em 1789.
    Acreditar em igualdade e presumir que a mesma pode ser compartilhada por todos é acreditar no pensamento rousseauniano de que “o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”.
    A sociedade cristã ocidental já esqueceu aquilo pelo qual o seu Mestre sempre procurou ensinar:”Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve”. Lucas 22:26
    Tenho lutado arduamente para cumprir este proposito e tenho falhado miseravelmente…
    Mas, não desistamos, é possível aprender.
    Um bom domingo a todos.

  • Januário Aleluia Filho

    Hoje o que está havendo é a falta de comunicação como já dizia o nosso saudoso CHACRNHA, quem não se comunica se trubiqua. A educação domestica já deixou de existir há muito tempo, as pessoas tiraram do dicionário as palavra (desculpe, obrigado, licença, boa noite, bom dia e boa tarde. Onde isso não aprende na escola e sim no convívio doméstico. Espero que você volte mais vezes a esses assuntos, que nossa mocidade está muito carente de comunicação. Abraços

  • Zé MCZ

    A propósito!

    https://youtu.be/vxbp5JyilLE

    Benvindo!

  • Eduardo Lopes

    Ninguém é mais fátuo que aquele que propaga o bem da humanidade e desconhece seus vizinhos.

  • Antonio Moreira

    ônibus coletivo – Por que a palavra “LICENÇA” não existe?
    Gentileza no transito – custa nada acenar com as mãos?
    Calçadas – Por que o pedestre não pensa no pedestre que vem no sentido contrário?
    Por que o sinal estava vermelho e a mulher buzinou e passou com seu carro?
    Pois é, eu era pedestre! Não confio … , por isso estou aqui escrevendo.

    Será que no primeiro mundo existe gente limpando para-brisa de carro nas ruas?
    Por que muita gente não vai estudar?
    Por que as drogas lícitas e ilícitas são atraentes?

    No meu trabalho:
    Quantas vezes não recebi um “obrigado” ao assinar e entregar determinado documento ao interessado!
    Na ausência do vigilante – o tratamento que recebo ao abrir o portão de acesso não é o mesmo quando já estou na minha sala.

    Se eu encontrar o Papa Francisco tomando um caldo de cana com pastel, vejo com naturalidade, pois ele é um humano como eu.

  • RENATO FERREIRA DE OLIVEIRA

    RICARDO, BOM DIA, QUERO AQUI TAMBÉM DEIXAR AQUI O MEU PENSAMENTO; ESTAMOS E SEMPRE ESTIVEMOS SENDO VÍTIMAS DE PESSOAS TRAVESTIDAS DE CORDEIRO, QUANDO NA VERDADE SÃO LOBOS OU ATÉ MESMO POSEM SER LARGATA TATURANA OU ATÉ MESMO AVES DE RAPINA, O NOSSO PAÍS ESTÁ PRECISANDO DE UM CHOQUE DE MORALIDADE.