Na década de 1970, o israelense Uri Geller fez fama com seus poderes “paranormais”, que exibia pelo mundo em grandes espetáculos televisivos, principalmente.

O homem era um Garrincha dos talheres. Entortava garfos e colheres, enlouquecia os ponteiros de qualquer relógio e, principalmente, deixava o público crédulo extasiado, embasbacado.

Sua força vinha exclusivamente da mente, com seus dons sobrenaturais, que ele havia herdado de seres extraterrestres, dizia o personagem. Como sempre acontece, foi outro ilusionista que desmoralizou o prestidigitador, propondo-lhe um desafio recusado por ele. Geller havia encontrado o pior dos inimigos possíveis: um profissional da enganação igual a ele (morto de inveja, imagino, com o seu sucesso).

Mas quando o israelense – o que já era uma novidade – passou pelo Brasil, ainda era a celebridade que espantava os tolos pelo planeta. E eu estava entre estes na noite em que resolvi consertar meu relógio de corda, quebrado há um bom tempo, com os olhos e os ouvidos colados no televisor da sala lá de casa.

Segui as orientações do sujeito: força na mente, pensamento positivo. “Funciona!”, “funciona!”, disse alto, atendendo às ordens do meu senhor na telinha.

O diabo do relógio se mostrou renitente, desobediente, e mereceu a pancada que eu lhe dei, ante o olhar de perplexidade do meu pai, que a tudo assistia com ar de deboche.

“O relógio está funcionando!”, gritei e saí em desabalada carreira na direção da igrejinha de Nossa Senhora do Carmo, às margens do Salgadinho, para apresentar o meu feito.

Eu era, então, uma extensão da fraude de Uri Geller. Contei que o meu relógio voltara a funcionar graças ao comando do meu pensamento. Exibia o meu troféu a todos, e acho até que houve quem acreditasse.

Mas o canalha – do relógio – me deu pouco tempo de glória: parou logo em seguida, e ainda que eu tentasse o mesmo truque (fortes batidas no chão e na perna), ele se rebelou contra a violência e nunca mais moveu seus ponteiros. Teve a morte que merecia, eis o meu consolo.

O que mais me impressiona, hoje, é que Uri Geller nunca morre. Ele some e volta com outro nome, truques renovados, escreve livros, faz palestras, dá entrevistas olhando para a câmera, sempre investindo na fragilidade humana, ávida por acreditar que a fé – ou o pensamento positivo – move montanhas (gente, isto é só uma metáfora).

Infelizmente, ainda não nos é possível mudar a realidade material ou as Leis da Natureza. Estas existem independentemente de nós, pobres mortais, ainda que todos tivéssemos o mesmo nome (de fantasia): Uri Geller.

O caso é tão grave, de credulidade, que achamos que tal ou qual fato aconteceu porque o presumimos, fomos tocados por um augúrio que se confirmou: somos os verdadeiros e incontestáveis adivinhos do nosso próprio futuro.

Ora, pois!

Há sempre uma probabilidade matemática de que as coisas aconteçam como pretendemos ou pressentimos. Mas se fôssemos levar a sério esta contabilidade, chegaríamos inevitavelmente à desmoralização dos nossos presságios, ou, se quiserem o leitor e a leitora, a força do nosso pensamento jazeria sem glória em nocaute irreversível.

Cá para nós: só os escritores, compositores, pintores e toda essa gente que faz da ousadia criativa a sua razão de existir é que conseguem tornar real aquilo que o pensamento lhes dita. Ainda que eles não tenham consciência exata do que o futuro imediato – falo da obra – lhes reserva quando “ouvem” aquela voz a lhes sussurrar: “Pra direita, muda o verso, troca a nota, deixa de fazer bobagem, p…!”

Esperemos o porvir sem tentar imaginá-lo ao gosto ou ao desgosto do freguês – a depender do seu ânimo.

Cícero, o pensador romano, nos alertou que “não há a menor utilidade em conhecer o futuro. Na verdade, é uma miséria atormentar-se sem proveito”. Sabia ele que intuímos mais para o mal do que o contrário.

Eu?

Quando o relógio para, hoje, troco a pilha e não passo mais vexame.

 

Hugo Wanderley - filho do cardiologista - será candidato único em Cacimbinhas
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  • JEu

    Bom dia, caro Ricardo… sua crônica de hoje fala, ao que percebi, de ceticismo… Claro que não podemos (ainda) superar as forças naturais conhecidas, simplesmente com o pensamento… muito embora o pensamento possa produzir os meios para se alcançar os fins de outras maneiras… por exemplo: mover montanhas… pois é isso mesmo, podemos mover montanhas com a força do pensamento… no caso de montanhas materiais, nós, os homens, inventamos, pela forçado pensamento, as grandes máquinas e os explosivos capazes de fazer “mover” montanhas inteiras… no entanto, concordo que, na essência, a citação mencionada quer dizer que podemos “mover” as montanhas de dificuldades e obstáculos da vida, para continuarmos “vivendo e aprendendo” sempre… nos fortalecendo para o “futuro”, que nada mais é do que o resultado do que fazemos (ou deixamos de fazer) hoje… nada no futuro está definitivamente prescrito, pois depende sempre do que fazemos hoje… assim, se seguimos um certo caminho e, de repente, mudarmos o caminho em outra direção, mudamos o futuro… se fazemos hoje algo que nos encaminha para um certo futuro, e se deixamos de fazer aquele algo ou mudamos completamente o que fazíamos, então também mudamos o futuro… então, por que nos atormentar acerca do futuro, se o podemos modificar hoje?!!!! Bom domingo.

  • Zé MCZ

    Eu me lembro!..
    Do espetáculo televisivo pela Rede Bôbo de Televisão. Quando ele fez o truque(na época achava se sobrenatural) de entortar talheres, eu peguei um garfo e tentei também! Mas como nao houve o sincronismo telepático, eu o entortei a força! E quebrei, assim mesmo! Como o ditado:
    Não importa que a tábua laxe, eu quero que o prego entre!

  • Valber

    Pior do que um pessimista chato só mesmo um otimista tolo.