Na semana que passou, no dia dedicado especialmente ao público LGBT, vi uma entrevista na televisão com um personagem que me pareceu uma novidade absoluta, impactante – e não só para mim, constatei em seguida.

Lembrei-me da frase clássica de Públio Terêncio Afro, dramaturgo romano (século II a.C.): “Sou um homem: nada do que é humano me é estranho”. Lamento dizer, mas como estranhei ver aquela criatura narrando sua história, insólita, que ia além da originalidade!

João Nery havia nascido Joana, mas nada do que estava ali à minha frente me remetia à figura feminina que ele fora um dia. Parei por vários minutos, olhos de investigador forense, tentando detectar num gesto, num traço físico, numa falha na voz, um sinal que fosse da mulher que ele havia sido um dia.

A estranheza, que fique claro, não me provocou qualquer repulsa: curiosidade, sim; empatia, certamente – assim que passei a prestar atenção na sua narrativa. Até então era só o meu olhar atônito que acompanhava aquele “trans-homem”- definição dele – a anunciar o lançamento do seu livro de dolorosas memórias (assim imaginei): Viagem solitária.

Liguei para dois amigos, na mesma hora, para que me dissessem a sua impressão, tão logo descobrissem a identidade do entrevistado: a perplexidade deles confirmou e amplificou a minha.

De fato, sabemos muito pouco sobre este mundo “trans”, de denominações variáveis, crescentes e mutantes ao passar dos anos. Não importa: essa gente, solitária como a Joana da viagem de Nery, me pareceu enorme, gigante, na coragem e determinação de vencer obstáculos que se nos apresentariam, a todos os “normais”, insuperáveis.

Eles criam um dialeto próprio, vão se agregando, se exibindo, se mostrando ao mundo como a mais absoluta minoria, que não quer mais calar nem ser invisível, mesmo que sob o risco da permanente violência e até da morte estúpida. Vão além – ou aquém, sei lá – de gays e lésbicas, tão espezinhados e humilhados, historicamente, pelas sociedades que rejeitam e até odeiam as diferenças. E precisavam apenas respeitá-las.

O tal do João, que já foi Joana, só reforçou o meu respeito pela turma “trans”. Não exatamente pelo que eram ou que passaram a ser, mas pela valentia de não serem o que suas almas não sentiam e o que deles (as) se esperava ou seria tolerável.

A minha repulsa continua destinada àqueles que permanecem fazendo as “tenebrosas transações”.

 

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  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Nada mais atual do que a realidade LGBT, que nós (a sociedade, em grande parte) insistimos em negar… creio que suas palavras quando diz: “não serem o que suas “almas” não sentiam e o que deles(as) se esperava”, para deixar bem claro uma outra realidade que, também, costumamos negligenciar, para não dizer rejeitar e, até, combater, seja por qual motivo for (religioso, ceticismo, indiferença, etc), a de que não somos este corpo, porém algo além dele e, com certeza, anterior a ele e sobrevivente a ele… só assim se pode começar a entender não apenas o drama desses nossos irmãos e irmãs em humanidade e, até, os porquês do nascimento em situação de inversão de gênero ou de outras dificuldades de conformidade com o estado biológico atual… Porém, há uma esperança, uma pequena luz no fim do túnel, pois a própria ciência humana está alcançando os limites dos corpos materiais e começa a se preparar para uma incursão no mundo além da matéria como a conhecemos… com certeza ainda vai levar algum tempo… quanto? talvez mais rápido do que imaginamos… Aí, não apenas passaremos a ter uma visão mais correta e justa dos casos (que são totalmente humanos, como afirmado acima), como ainda seremos capazes de, sem preconceito e sem condenação, ajudar mais e melhor a todos(as)… Bom domingo.

  • marcos

    Homofobia é uma doença, Ricardo, igual a corrupção dos nossos políticos e roubos de pessoas que vendem a fé, como certos pastores e bispos que construiram verdadeiros impérios as custas do povo pobre, sofredor, mas crente em Deus.

  • santos

    Parabéns pelo texto; também acho que devemos respeitar a todos indiscriminadamente. Ao nobre Marcos:Picaretas, existem em todas as religiões, inclusive na sua.

  • Carlos Oliveira

    O grande dilema é que ficam tentando confundir e afrontar a sociedade civil a todo momento. O homosexualismo sempre existiu,e desde os tempos da idade média a sociedade convive com ele. O problema é o de sempre,primeiro transformaram a comunidade gay em “minoria” com o objetivo de denegrir as instituições mais importantes como Família,Educação e Religião,e depois,para receber vantagens das instituições governamentais(e recebem). É uma opção sexual e merece ser respeitada pois cada um tem o direito de fazer o que quer com a sua vida. A homossexual feminina é linda,não se veste de homem,se veste altamente feminina porque simplesmente ela gosta de pessoas do mesmo sexo. O homossexual masculino,a mesma coisa. Para que tentar ser homem ou mulher se não gostam do sexo oposto. É opção,não é nenhuma doença e muito menos distúrbio. Não existe cromossomo gay.

  • Alex

    Muito bom. Seu texto me fez refletir na máxima que, na minha infância era tida como dos tolerantes à homoafetividade: “Tudo bem ele ser, desde que não beije em público”. Me escuso da discussão se pode ou não, apenas analiso que ainda assim é uma forma de torná-los invisíveis, de marginalizar e excluir.
    Às pessoas que são contra o direito homoafetivo de um estranho que nada lhe prejudica, bem… Falta senso. Ou falta Jesus. Jesus não rejeitaria ninguém.

    • Zé MCZ

      Prezado,
      Quando alguém se sente incomodado com essa questão é porque no fundo, digo no bem íntimo dela há algo que teme…
      Prova disso foi o massacre na boate em Orlando. Foi a maneira radical que o assassino achou para matar seus próprios conflitos.
      É uma tragédia para essas pessoas que vivem à margem de quase tudo.
      É por isso é que elas fecham em guetos. Ainda assim sofrem violência de todas as formas.
      Eu entendo que a pior delas é o bullyng.
      Não merecem…

    • Luciana

      OI Alex, bom dia!
      Com certeza Jesus não excluiria ninguém; e digo mais: o grande problema de algumas pessoas é colocar os outros em um único padrão. Não entendo muito do mundo “Trans” mas tenho refletido muito sobre o assunto. Devemos entender e aceitar as diferenças pois independente de religião ou ideologia o respeito deve sempre prevalecer; assim como o bom senso!Para superar este equívoco precisamos formar sujeitos críticos capazes de enxergar o ser humano como alguém que tem o direito de ser quem realmente é.

  • Marcelo Nascimento

    Reflexão muito oportuna nos dias atuais em que nos deparamos com tanta intolerância e ódio ao diferente. O jornalista Ricardo Mota cumpre de forma elogiável o papel histórico de abordar temas ainda polêmicos e por tirar do obscurantismo a realidade cotidiana das pessoas transexuais.