Eram anos, aqueles, em que assalto para nós tinha sabor de festa e prenúncio de romance. Assustado, uma variação sobre o tema, não era uma referência ao brasileiro urbano dos dias de hoje. Pelo contrário, soava como o convite a uma noitada de olhares, toques e – se tivesse alguma sorte – de boas lembranças para o travesseiro.

Foi por aí, início dos anos de 1970, que a voz inconfundível de Billy Paul chegou aos meus ouvidos “pelas ondas da Rádio Mundial”, precursora das FMs. Me and Mrs. Jones logo se tornou um hit para a garotada, fosse a turma do colégio, fosse o bando da vizinhança.

Era música de ouvir e de dançar. Sim, porque havia isso: muitas canções funcionavam maravilhosamente para harmonizar os passos no salão, seguindo a divisão previsível e fácil dos “dois pra lá, dois pra cá” (Bread era imbatível). Já o repertório para ouvir na radiola instalada na sala de visita da nossa casa, na Buarque de Macedo, quase sempre era outro.

Beto, meu irmão mais velho, e eu disputávamos o domínio territorial, ainda que temporário, do simplório equipamento que espalhava música no ambiente e que envelheceu celeremente como toda minha geração. Quem chegasse primeiro era o DJ da hora – e todos ouviam sem desprazer.

Ele, roqueiro de qualidade, ia de Emerson, Lake & Palmer, Beatles e outros não menos cultuados. Eu, já muito cedo fã da MPB, preferia Chico, Caetano, Gil, Paulinho e os artistas de quem eu aprendera a gostar pelos ouvidos de seu Luiz Mota e de dona Lucinha, escandindo em réplica as palavras que me chegavam embaladas em notas musicais e me sabiam à poesia.

Nas festinhas – assaltos ou assustados -, que realizávamos a um custo compatível com o nosso bolso, Billy Paul virou presença obrigatória, quase uma lenda, e nos fazia flutuar de olhos fechados. Soava romântico, e eu sempre fui um tolo e incorrigível romântico – fazer o quê?

No início da semana passada, ao me deparar com a notícia da morte do intérprete de Me and Mrs. Jones, tratei de ouvi-lo mais uma vez no caminho para o trabalho e o fiz com o mesmo prazer do adolescente capturado na memória. Porque a música tem disso: transporta-nos no tempo e no espaço, acumpliciada com a nossa imaginação, e esta trata de dar às lembranças o roteiro que lhe apraz.

É inegável que nas casas já não se toca mais tanta música como na era da Rádio Mundial, sob o comando de Big Boy, um professor de filosofia no Rio de Janeiro (de onde era a emissora) e que, mutatis mutandis, se tornou o disc jockey preferido e inaugural de várias gerações.

Por aqui, as rádios Progresso e Palmares também marcaram a época de uma qualidade perdida pelos veículos de comunicação de massa. O que hoje toca não me toca. Continuo ouvindo os discos do começo ao fim, como sempre fiz, dos meus preferidos, que estão cada dia melhores. Teimosia da idade? Eu diria, repetindo os modernos, que é a resiliência da memória afetiva.

A tecnologia, para o bem de todos, nos possibilita hoje ouvir música em qualquer lugar – basta ter um celular. E se não há mais as audições coletivas, o compartilhamento musical nas casas, é apenas a confirmação de que o giro do mundo prossegue célere e inexorável, alterando gostos e costumes.

Eu só lamento é que a garotada de hoje, que há de assumir o comando da história, ao se deparar com a palavra “assalto” não possa se imaginar a sair por aí, dançando e planejando paixões. Quem sabe até com a sua própria Mrs. Jones, ainda que pareça “errado”.

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  • Fernando Dacal Reis

    Ricardo,
    Como é gostoso acordar recordando a nossa juventude, através de Billy Paul e, nessa viagem, não poderia deixar de lembrar o saudoso Neguinho Adérson (naquela época não era discriminação nenhuma), nosso imitador (hoje seria couvert) preferido de Billy Paul. Com certeza terei um belo domingo hoje.

  • Ademar Campos

    Simplesmente não dá pra ouvir radio nos dias de hoje em Maceió , a programação é um horror, a FM Pajuçara que tinha uma programação de alto nível há uns anos se transformou numa coisa que não consigo nem classificar,vivemos um período medíocre musicalmente,culturalmente e politicamente , o advento da esquerda ao poder nos custou caro em todos os aspectos, mas confio em um Brasil livre desses bandidos socialistas.

  • SEBASTIÃO IGUATEMYR CADENA CORDEIRO

    TOCANTE . . . ASSUSTADOR. . . RESILIENTE. . . COMO ÉRAMOS FELIZES . . . E NÃO SABÍAMOS . . . AS MÚSICAS
    DO HIT PARADE INUNDAVAM OS NOSSOS OUVIDOS A CADA METRO DE RUA QUE PERCORRÍAMOS , FOSSE ELA CALÇADA OU NUA . JUNTAVA-SE AOS OUTROS SONS QUE EMANAVAM DE TODOS OS CANTOS DELA ,NUMA MIXÓRDIA QUE, POR UM CAPRICHO HUMA-
    NO , ERA CONTEMPLADA COM UMA TRILHA SONORA
    ALEATÓRIA , MAS , INDISCUTIVELMENTE BELA . . . E HUMANA . O CANTO DE UM BEM-TE-VI, ALI, NAQUELA MANGUEIRA, ANUNCIANDO O RETORNO DO SOL E DO CALOR , APÓS UM PÉ DÁGUA REFRESCANTE, AS VARIAÇÕES SONORAS ADVINDAS DAQUELE GALINHEIRO , MENINO CHORANDO BEM ACOLÁ , MARTELO BATENDO EM METAL , À CERTA
    DISTÂNCIA , E MAIS , MUITO MAIS ONDAS SONORAS
    FLUINDO EM NOSSOS CÉREBROS , QUE DESATENTOS AO CONJUNTO DA OBRA , SE FOCAVA EM PEQUENOS
    E INSIGNIFICANTES DETALHES ( COMO SÓI ACONTECE ) . E , ORDENANDO ESTE APARENTE CAOS ,
    UM RÁDIO TOCAVA , NESSA CASA DEFRONTE A NÓS ,
    ME AND MRS JONES , ALGUNS METROS DEPOIS , OUTRO RÁDIO , EM OUTRA CASA, JÁ SE HAVIA NOTÁVEL , A GAITA DE “I SHOULD HAVE NO BETTER” , DE LENON & MAcCARTNEY. ERA A VIDA , PASSANDO DIANTE DE NÓS , QUE ÉRAMOS FELIZES . . .

  • Nete

    Ricardo,

    Chorei ao saber da morte do grande Billy Paul. Assisti uma entrevista dele na Globo News e chorei mais ainda quando ele disse que veio muitas vezes ao Brasil para passar férias e por incrível que pareça Ricardo ele disse que passou muitas férias em Maceió, por conta de suas praias.
    Você se lembre se ele fez algum show aqui em Maceió? Eu não me lembro. Como gostaria de ter assistido a um desses shows maravilhosos deste homem que se foi e que eu não tive o privilégio de assisti-lo pessoalmente para cantar e dançar como a entrevistadora disse que fazia.
    Só resta agora como você fez: pegar o CD e colocá-lo no som do carro ao sair para trabalhar ouvindo Me and Mrs. Jones.

  • JEu

    Diz o ditado popular que “tudo o que é bom dura pouco”, frase repetida em uma canção também dos anos 70… No caso do Billy Paul creio que vai durar para sempre, pois suas canções haverão de repercutir em nossas mentes por toda a “eternidade”… enquanto durar….

  • Paulo Malta

    Ricardo, há vozes, letras e canções que estão cada vez mais difíceis de nos satisfazer. Billy Paul e Marvin Gaye são incomparáveis com suas qualidades musicais que dão prazer – verdadeiramente – apreciá-los, ouvi-los.
    Queria registrar que a Pajuçara FM só toca música de verdade nos minutos que antecedem o PAJUÇARA DOZE E DEZ.

  • Luiz Carlos Godoy

    “Impeachment”, Prince, Billy…Parece que o escritor tava certo: “ABRIL É O MAIS CRUEL DOS MESES…” (T. S. Eliot)

  • cláudio santos gomes pacheco

    Tem razão o Godoy: impeachment, Prince, Billy Paul, nosso imortal James Magalhães… Abril é mesmo o mais cruel dos meses.

  • Há Lagoas

    “O que hoje toca não me toca”. Vivo de saudades. E de alguma forma tento influenciar meu filhote de 13 anos, tarefa árdua, mas prazerosa…
    Sou persistente, creio que alguma coisa ele vai guardar, ninguém resiste a uma boa música.
    Uma boa semana pra todos.

  • Carlos Nederland

    Como eu costumo dizer: “Do tempo em que existia música”.

    Valeu, Ricardo, por nos fazer lembrar daquele tempo tão bom. Nostalgia.

  • Mário

    Parabéns pela belíssima crônica. Nossa geração cada dia que passa fica mais pobre musicalmente. As FMs locais são uma pobreza só (raríssimas exceções). Ainda bem que temos opções tais como: Antena 1 e Alpha FM (São Paulo); JB FM e Nova Brasil FM (Rio); Cidade FM (Natal) e outras grandes emissoras. Abraço.

  • Tiago Melo

    Nos faz viajar no tempo, pois também sou da época dos “assaltos”. parabéns Tio Rico, bjs!!!!!!