Lembro-me de que se chamava João José e que era homem de sonhar. Estatura além da mediana, cabelos ralos e compridos, um tanto pálido, carregava uma pasta onde guardava seu bem maior. Entrevistei-o várias vezes, aí pela década de 1980, sempre o mesmo tema: o que o movia na vida.

João José era um visionário, um tipo que habita cada cidade do interior, inconformado com o que existe e querendo algo além do que parece possível.

Com o que sonhava João José? Fazer na pequenina Craíbas dos Nunes, no agreste, a versão alagoana de Nova Jerusalém. Sentia-se injustiçado porque a “força da grana” não chegava em seu socorro. Daí, acredito, o tanto de ressentimento que carregava em sua pasta, junto aos papéis do seu projeto inatingível. “Se eu tivesse nome, eles davam o dinheiro”. Mas tinha apenas aquele “João José” que o acompanhava desde o nascimento.

Era comum o pito que passava nos atores locais, quando com um deles encontrava. Protestava porque estes não o prestigiavam, um artista da província, “mas se fosse um ‘global’ estavam todos batendo palmas na plateia”.

– Eu apresentei a Paixão de Cristo, no Teatro de Arena, no dia 25 de dezembro, e não tinha ninguém para assistir.

Feita a reclamação, contava a sua via-crúcis, encenando a mesma peça, de cidade em cidade, “levando arte pro povo” e fazendo dos habitantes locais, também eles, artistas, assim como o próprio João José:

– E ainda tem uns cabras safados, que fazem molecagem, não respeitam nem a história de Jesus. Eu boto eles no papel de centurião romano, e o que é que eles fazem? Cachorrada! Eu aviso: isso é teatro. O chicote é só pra parecer que está batendo, não é de verdade. Mas, não! Uma vez, eu levei tanta chicotada desses animais, que no final eu tava todo roxo. Eu dizia baixinho: “é de faz-de-conta”. E eles, tome, tome, tome.

Era conter o riso, que o homem não estava para brincadeira. Resmungava o João José:

– Vocês nunca quiseram fazer arte pro povo. Eu faço, e o que é que ganho? Não consigo um tijolo pro meu teatro ao ar livre. A coisa mais linda do mundo! O de Pernambuco não chega nem aos pés.

E continuava, o nosso artista, a narrar as agruras de quem quer dar um momento de glória aos interioranos:

– Um dia, no momento da crucificação, a música bonita tocando no meu som, enquanto o pessoal levantava a cruz de madeira com Jesus amarrado, que era eu, né?, senti que o fraldão que eu tava usando se abriu um pouco na parte de baixo. Foi um sufoco! Eu espremia as pernas, mas sentia aquele ventinho batendo nas partes. Que desgraça!

É claro, qualquer um ficava ansioso, aguardando o desfecho da história – ou da peça, o que no fim dava no mesmo. Era um tristonho João José que desabafava o desfecho da sua pequena tragédia pessoal:

– Menino é uma raça que não presta. Eu de olho meio aberto, meio fechado, vendo a plateia só pelo cantinho, e um desses pestes virou para a mulher que tava do lado dele e disse: “Mãe, óia as bolas de Jesus Cristo”. Aí não teve jeito, eu chorei de verdade.

 

P.S: O teatro a céu aberto de Craíbas foi inaugurado no ano passado, exibindo o espetáculo A Paixão de Cristo. Uma pena que o João José não esteja mais por aqui! Sua ideia venceu.

Senadores alagoanos se recolhem ao silêncio obsequioso
A roupa velha da Rainha (um texto de Osvaldo Epifanio)
  • JEu

    Kkkkkkkkkkkkkkkk. Desculpe, Ricardo, é que sua crônica é hilariante… porém trágica…!!! Digna mesmo de ser inserida na nacionalmente conhecida trama do “O Auto da Compadecida”… ou talvez do “O Bem Amado”… O mais importante, creio, é a lição sobre a vitória das idéias (as boas) que se perpetuam no futuro das pessoas… é mesmo uma pena que seu autor não pode vê-las concretizadas no momento atual, ainda pisando nestas terras caetés… quem sabe não está vendo do “lado de lá”? Bom domingo.

  • Fernando Andrade

    Ricardo.Você me remeteu aos anos de 1961 em João Pessoa, Paraíba.Em um circo ” pinico sem tampa” durante a semana santa,encenando a paixão de Cristo, o ator na cruz e Maria Madalena chorando e se esfregando nos pés do crucificado,envolto em papel celofane na região pélvica, deu-se o inevitável!!Blasfêmia gritavam as beatas e afins!!

  • Pilarense

    Que legal Ricardo , voce trazer essa informação. Mas não ficou claro, se ele, morreu, ou não se encontra em nosso estado, qual o seu fim?

    Resposta:

    Ele já morreu.

  • carlos

    Infelizmente só as idéias do mal,que consegue recursos para bancar os políticos.

  • Há Lagoas

    Simplesmente genial essa sua cronica.
    E pensar que nossa cultura esta atrelada mormente a recursos do estado…
    Um visionário que morreu sem realizar seu sonho em vida por culpa dos politiqueiros de plantão!

  • Anthony

    João José foi um homem que viveu seu sonho. Trabalhei com ele em 1988 no “Natal do Rei dos Reis”, peça que ele encenou por vários anos. Ele gostava de grandes produções. Era generoso ao extremo, e dava chance a todos que queriam pisar no palco pela primeira vez. Em 1995 eu o reencontrei, no hospital que eu trabalhava, já com a saúde abalada. Conversamos muito nesse dia. tempos depois soube do seu falecimento.