Recentemente, a Presidente Dilma ministrou uma aula a 370 estudantes do Colégio da Polícia Militar Alfredo Vianna, em Juazeiro (BA). O evento foi uma de suas ações em formar um exército contra o mosquito aedes aegypti e, consequentemente, contra o vírus da zika. O que era para ser um acontecimento festivo pela rara presença de uma autoridade de patente inquestionável transformou-se numa cena de humor digno de uma crônica infantil, daquelas em que o menino pergunta: “é barato o lanche?” E outro com o gosto da ironia que só a criançada sabe revelar: “barato é o marido da barata”. A Presidente, como uma guria que apenas gostaria de ouvir boas risadas, criou um novo gênero e quebrou a molécula dos epicenos: “…tem o mosquito e a mosquita. O mosquito gosta de frutas, ele não pica nem extrai sangue das pessoas. Quem faz isso é a mosquita. É a mosquita que pica. E é quando ela pica que contamina, porque é a mosquita que transporta o vírus da zika.”

Sei que as incontáveis críticas destinadas ao amadorismo com que a Presidente pronuncia seus discursos – e eles já formam uma literatura invejável – provocam fissuras no já tão frágil debate sobre preconceito, “pois ele é o resultado da universalidade da anticultura, iniciada e fomentada pelos detentores do poder econômico e da elite conservadora”. Mais que uma lamentável ausência de teorias consistentes sobre a presumível militância das causas justas, em pleno século das discriminações, tais alegações, numa tentativa de corrigir erros históricos contra as minorias desamparadas, acrescentam mais ainda dúvidas sobre o real abismo que separa a verdade do imponderável. Realmente, um campo minado. Qualquer passo na direção de um esclarecimento aceitável sobre quem, de fato, lambe o mel da fortuna, num país gigante em desfaçatez, é arriscado. Logo ali, uma bomba espera o mais inocente dos passantes, mesmo que as placas de alerta estejam em todas as curvas. O caminho é um só: a avenida dos resmungos.

Mas presidente é Presidenta. Autoridade. Não há como pensar ou aceitar diferente. Hierarquia. Não se pode desprezar a faixa que pousa em seu peito desde o primeiro voto da urna silenciosa. E é por isso mesmo que os ouvidos estão mais atentos e os olhos mais cuidadosos em seu contorno. Não há quem resista a uma postura de deferência diante do Rei – ou da Rainha, mesmo que ele ou ela estejam nus.

Isso me remete à extraordinária fábula do dinamarquês Hans Cristhian Andersen “A Roupa Nova do Rei”. Aqui, peço licença ao caro leitor para um breve resumo deste conto fantástico.

Um bandido, se fazendo passar por um alfaiate de terras distantes, diz a um determinado rei que poderia fazer uma roupa muito bonita e cara, mas que apenas as pessoas mais inteligentes e astutas poderiam vê-la. O rei, muito vaidoso, gostou da proposta e pediu ao bandido que fizesse uma roupa dessas para ele.

O bandido recebeu vários baús cheios de riquezas, rolos de linha de ouroseda e outros materiais raros e exóticos, exigidos por ele para a confecção das roupas. Ele guardou todos os tesouros e ficou em seu tear, fingindo tecer fios invisíveis, que todas as pessoas alegavam ver, para não parecerem estúpidas.

Até que um dia, o rei se cansou de esperar, e ele e seus ministros quiseram ver o progresso do suposto “alfaiate”. Quando o falso tecelão mostrou a mesa de trabalho vazia, o rei exclamou: “Que lindas vestes! Fizeste um trabalho magnífico!”, embora não visse nada além de uma simples mesa, pois dizer que nada via seria admitir na frente de seus súditos que não tinha a capacidade necessária para ser rei. Os nobres ao redor soltaram falsos suspiros de admiração pelo trabalho do bandido, nenhum deles querendo que achassem que era incompetente ou incapaz. O bandido garantiu que as roupas logo estariam completas, e o rei resolveu marcar uma grande parada na cidade para que ele exibisse as vestes especiais. A única pessoa a desmascarar a farsa foi uma criança: “O rei está nu!”. O grito é absorvido por todos, o rei se encolhe, suspeitando que a afirmação é verdadeira, mas se mantém orgulhosamente e continua a procissão. (Crédito: Dedalus USP: A roupa nova do imperador. Banco de Dados Bibliográficos da USP, São Paulo : Brinque-Book, 1997).

No caso do evento em Juazeiro da Bahia, parece-me que há uma força bruta por parte da mandatária em querer que apenas “as pessoas mais inteligentes e astutas” tenham o poder de enxergar suas vestes. Aqui, é o mundo do faz de conta, dos ouvidos surdos que não escutam a única voz que denuncia a nudez do Rei. Se “mosquita” soa como as roupas invisíveis do Rei, da Rainha, quem somos nós para desampará-la exatamente no momento em que ela passa à toa com sua banda? Seus súditos, muito menos. Os ministros? Ora, quem poderia? Sua “mosquita” é engolida assim mesmo.

Quer, assim, a Primeira mulher do país, esconder o que todo cidadão comum, com um mínimo de letra no caderno, sabe há muito: nossos líderes devem ser os primeiros a falar a língua pátria como ela se apresenta, sem sustos, com criatividade, que cause graça em seus regionalismos, inventiva como o inigualável “imexível” do Rogério Magri. Mas “mosquita” nos deixa sem risos – ou com os falsos suspiros de admiração e os risos invisíveis de sua plateia -, sem a troça usual nos jornais e nos programas de humor. Difícil fazer uma piada!  Se o Dias Gomes estivesse ainda por aqui, certamente não colocaria o vocábulo na boca do irreverente prefeito Odorico Paraguaçu, no Bem-Amado. O Dramaturgo não encontraria, na figura da Presidente, um fio de humor capaz de elevá-la ao panteão dos seus grandes personagens. Um poste não inspiraria o marido de Janete Clair. Dilma é muito circunspecta para soltar a “mosquita”, pois tem uma trajetória de sisudez irrepreensível. Pelo avesso, seria como o Nezinho do Jegue proferir uma palestra sobre física quântica. “Cada qual no seu cada um”, acredito que diria o Odorico. Como “mosquita” pode concorrer com o Prefeito de Sucupira?

“Quem é que pode viver em paz ‘mormentemente’ sabendo que, depois de morto, defunto, vai ter que ‘defuntar’ três léguas pra ser enterrado?”, ou com “Se eleito nas próximas eleições, meu primeiro ato como prefeito será o de cumprir o ‘funéreo dever’ de mandar fazer o construimento’ do cemitério municipal.”

Não tem graça a Roupa Velha da Rainha! Mesmo assim, “Vamos dar uma salva de palmas a esta figura trepidante e dinamitosa”.

Osvaldo Epifanio

O Cristo de Craíbas
10% dos homicídios do mundo: Brasil, República dos Assassinos?
  • Frederico Farias

    Pif, você é um gênio.
    Abraços.

  • Há Lagoas

    Sim, um excelente texto!
    Odorico Paragaçu, no Bem Amado, era um personagem da fictícia Sucupira cujo papel era nos entreter. Não é o caso da atual figura que hoje ocupa o maior cargo da nossa República formada pela união do Distrito Federal, dos 26 estados e dos 5 570 municípios.
    Nem o Sr. Molusco produzia diálogos tão confusos…

  • JEu

    Realmente é um gênio… e com muito humor…!!! “Mormentemente” o embaraço criado pela nossa “representanta” maior, creio que, de agora em diante, a chamaremos de “PresidANTA”…

  • Arlene Leão

    Pife, sou sua fã!