Ainda garoto, eu perambulava com frequência pela Praça Sinimbu, e era comum que brincássemos e jogássemos bola com meninos que viviam nas ruas, sem que a memória tenha retido algum incidente mais sério.

O moleque mais famoso, no entanto, nunca aparecia, apesar de ser sempre lembrado por nós, curiosos em saber o seu paradeiro, e pelos seus colegas de infortúnio e liberdade.

Na verdade, nunca vimos o Fura-pacote, mas sabíamos de algumas de suas proezas na narrativa de pessoas que conheciam outras pessoas que o conheciam ou foram vítimas da sua habilidade em furtar o conteúdo de embalagens, bolsas e sacolas que ele furava com grande destreza e um afiado punhal, espalhando fama e temor.

Era a cidade, então, criando um dos seus mitos, que se perdeu no imaginário coletivo ao longo dos anos. O boca a boca se encarregou de garantir, naqueles anos, uma incontestável veracidade ao personagem de uma urbe ainda sem as dimensões de uma capital inchada e amedrontada.

Hoje, prescindimos de conversas cheias de mistério e curiosidade para engendrarmos figuras de perfis – ficcionais – tão ricos em currículo quanto Carlos Bandeirense Mirandópolis.

Pois é: este cidadão virou manchete nos grandes portais nacionais, na semana passada, e não haveria de ser mesmo um anônimo no Brasil de mais de 200 milhões de habitantes: perseguido pela ditadura militar, ativo participante da campanha das Diretas Já, jurista, compositor, amigo de Chico Buarque de Hollanda, Mirandópolis foi citado em uma decisão recente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, em um trabalho acadêmico na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em um documentário sobre os anos de chumbo e apontado como o inspirador do Samba de Orly, do grande nome da MPB (Vai, meu irmão/ Pega esse avião…).

Eis, no entanto, o homem que não existiu, mas que recebeu a missão de escancarar a nossa fragilidade ante as informações sem freios e sem filtro que trafegam na rede mundial de computadores.

Ele é o produto acabado de um perfil inventado por dois advogados paulistas e incluído na Wikipédia, “a enciclopédia livre que qualquer um pode editar”, na autodefinição dos seus criadores: o espaço onde “cada um faz o que gosta”, como no verso da música A nível de…, da dobradinha João Bosco e Aldir Blanc.

E é exatamente assim na Wikipédia. Qualquer um de nós, sem formação específica, pode dar a sua contribuição aos ávidos de conhecimento, oferecendo-o gratuitamente ao planeta, ainda que sem compromisso com a verdade.

A “enciclopédia aberta” nasceu em janeiro de 2001, nos EUA, com outras pretensões e outro nome: Nupédia. Seria um sítio da internet onde estariam disponíveis artigos produzidos por estudiosos e especialistas, revisados por seus pares, espalhando democraticamente o melhor do saber humano.

O bombardeio que recebeu por parte dos mais apaixonados pela nova ferramenta levou-a ao fracasso. Mais do que isso: à transformação naquilo que hoje é a Wikipédia.

Em seu revelador O culto do amador (de 2007), Andrew Keen, pioneiro do Vale do Silício, “um insider que se tornou apóstata”, já apontava a Wikipédia – e similares – como “um cego guiando o cego”.

Não por acaso, diz ele, já no início de 2007, a tal enciclopédia tornou-se fonte de pesquisa proibida pelo departamento de História do Middlebury College, o que logo se estendeu por outras faculdades americanas.

Entre outros casos de fake, narra Keen, estava um dos mais assíduos colaboradores da Wikipédia, conhecido como Essjay, que editou milhares de verbetes sobre temas os mais variados e forjou um perfil verossímil para milhões de crédulos: era um profícuo estudante de segundo grau – e não um professor titular de teologia, muito menos detentor de quatro diplomas de graduação acadêmica, como se identificava. Foi “descoberto”, em 2007, pela revista The New Yorker.

Mirandópolis, o homem que não houve, chegou com quase dez anos de atraso ao Brasil, escancarando a nossa vulnerabilidade – e alguma preguiça – na busca de fontes confiáveis de informações. Estas são até acessíveis na rede, desde que estejamos dispostos a pesquisar com mais cuidado e menos credulidade.

O nosso admirável personagem talvez seja apenas mais uma réplica dos perfis que construímos de nós mesmos nas redes sociais: homens e mulheres à beira da perfeição e imersos na solidão dos dias.

Os contribuintes do Rio de Janeiro e os de Alagoas, segundo Santoro
Santoro: "Reajuste dos servidores será definido em Lei Federal"
  • Marcia

    A internet é uma boa solução. Não podemos nem devemos fazer dela parte do problema.
    Ótimo texto.

  • Marcantonio

    As informações fragmentadas, mais acessíveis, não dispensam outras leituras. Fazem parte do cotidiano, mas não formam o conhecimento. Usemos a internet a nosso favor.

  • Celso Tavares

    Ricardo,
    Tenebroso e o Dr. Google. Haja insanidades.
    Um grande abraço,
    Celso Tavares
    PS: precisamos retornar à discussão sobre a pertinência de iniciarmos a vacinação dos brasileiros contra a Febre Amarela. Há uma porção de óbices, nada, porém, que não possa ser superado por gestores e profissionais competentes, comprometidos e críticos.

  • JEu

    Parece até a tal estória criada em torno do PT e de seu mais destacado membro, Lula, pois ambos não passaram e não passam de imagens e ilusões criadas para formar um perfil de honestidade e amor ao Brasil que não existe e nunca existiu… São a maior fraude brasileira de todos os tempos…

  • SEBASTIÃO IGUATEMYR CADENA CORDEIRO

    APESAR DE TER SIDO TAMBEM UM MALOQUEIRO ( DE
    FAMÍLIA ) , NAQUELES BONS TEMPOS IDOS E TER MAIS TEMPO DE RUAS DO QUE URUBU DE VÔO , EU
    TAMBEM NUNCA VI ESSE TAL DE FURA-PACOTES , QUE
    PREENCHEU O IMAGINÁRIO DE TODA UMA GERAÇÃO
    MACEIOENSE . EXISTIAM POUCOS MALOQUEIROS DE
    CARTEIRINHA E OS MALOQUEIROS DE FAMÍLIA , A GRANDE MAIORIA , PELOS INSIGNIFICANTES LIMITES TERRITORIAIS DA PROPRIA CAPITAL , DIFICILMENTE DEIXARIAM DE PERCEBÊ-LOS E DE SE COMUNICAREM E/OU , SE INFORMAREM ENTRE NÓS MESMOS . EU O IMAGINAVA UM PIVETE AMARELO , FRANZINO E DE BOA ÍNDOLE , IGUAL A MIM E A TANTOS OUTROS QUE COMPARTILHAVAM COMIGO , AS ACONCHEGANTES RUAS , DA VELHA MACEIÓ . . .