O breve comentário de um psicólogo na televisão, na semana que passou, chamou a minha atenção mais do eu poderia esperar.

Tratou, o ótimo profissional, de uma dessas notícias de pé de página, desimportante no farto noticiário sobre corrupção e a tocante tragédia francesa.

Acostumado com o comportamento conservador da sociedade dos EUA profundo, ainda assim a narrativa me deixou prostrado diante da tela por alguns preciosos minutos e me remeteu a uma dolorosa lembrança.

O fato, contou o comentarista, ocorreu em uma escola de uma cidade americana de nome Tampa, na Flórida: um garoto de nove anos de idade foi acusado de assédio sexual a uma colega de escola.

Seu crime: escrevera uma carta destinada à garotinha, em que dizia da beleza dos seus “olhos brilhantes” e do seu “cabelo arrumado”. A professora, ao se deparar com a agressão sexista, expôs o garoto à sala de aula, onde ele foi julgado e condenado, levando-o em seguida à direção da escola para as devidas – e duras – providências. Ele foi punido exemplarmente.

Uma história tola e banal?

Não para mim.

Em 1968, na saída do grupo escolar em que eu estudava, na Rua do Sol, fui abordado bruscamente pela mãe de uma colega, que me fazia uma grave acusação: enviara uma carta – na verdade, um bilhete – pornográfica para a menina de cabelos longos e aloirados que estudava na mesma sala que eu. Tínhamos, ambos, dez anos de idade e fazíamos o quarto ano primário.

No interminável sermão, aos berros, eu ouvi daquela senhora, a me parecer imensa, que havia assacado inaceitáveis ofensas à sua filha. Pior: ela tinha a prova do crime e ameaçava entregá-la à diretora da escola, uma mulher cordial, mas muito temida.

O pequeno pedaço de papel, que ela agitava com uma das mãos, revelava uma personalidade precocemente corrompida, que o mundo precisava conhecer, bradava.

Já aflito, cabisbaixo e sem qualquer reação, ouvi a advertência que me acompanharia por dias sem fim, por noites mal dormidas e, me dou conta agora, pelo resto da vida:

– O meu marido é policial.

Vivi o pavor de ser desmascarado pelos colegas, pela nossa professora e, pior ainda, pelo meu pai, que não permitiria que eu me comportasse como um “tarado”, a palavra-punhal que a mulher enraivecida cravara em meu peito.

O pavor tomou conta de mim, que passei a enxergar as nuvens cinzentas que a vida haveria de me oferecer nos tempos que se avizinhavam.

No dia seguinte, a garota, com quem antes eu trocava demorados e ternos olhares, me enviou um bilhete pedindo perdão pelo meu vexame: a mãe encontrara a “carta” em meio às paginas de seu caderno escolar. Não foi o suficiente para que ao menos eu voltasse a encará-la, até que concluíssemos o curso.

Fui estudar no Marista, no ano seguinte, e o incidente se desfez na desmemória das dores da infância, indo habitar o território das histórias que não contamos a ninguém, por absoluta vergonha.

Anos depois, já atuando como jornalista, vi a mesma senhora em um ponto de ônibus, ela carregando as marcas do tempo, que avançava impiedosamente. Parei e lhe ofereci uma carona. Sorriu, entrou no carro, lembrou que já me conhecia desde a minha infância e disse do imenso orgulho que sentia de mim.

Deixei-a à porta de casa, na Avenida Rotary, e, sem rancor ou alegria, agradeci seus entusiasmados elogios.

Como agora, lembrei-me então da “carta”, escrita com letra ruim e de tão poucas palavras, a minha confissão de culpa, nunca revelada ao mundo (para meu alívio):

– Você é linda.

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  • Há Lagoas

    Poético o seu texto, eu no máximo fazia alguns desenhos e escondia no caderno de uma determinada garota, sem coragem para identificar quem o fez. Você estava anos luz a minha frente.
    Você me trouxe a memoria aquilo que estava esquecido, como será que está minha primeira musa de infância?
    Um bom domingo.

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Esse é um tema atual, em todos os tempos, desde quando existem homens e mulheres, machos e fêmeas no mundo (somente olhando o aspecto biológico, morfológico do ser humano – sem considerar, obviamente, as questões biológicas dos seres considerados irracionais e das plantas). Trata-se do “instinto” de conservação para a reprodução da espécie, que chamamos de sexo. Nos dias de hoje temos de ter muito cuidado com o tema, ou podemos ser taxados de sexistas ou preconceituosos. No entanto, como disse, isso é assunto muito antigo no mundo, pois existe desde o momento como dito na bíblia (sem entrar em assunto teológico) em que Adão se deu conta que tanto ele como Eva estavam nus… e logo correram a pegar folhas para se cobrirem… Pois é, por causa disso, e de nossa capacidade de exagerar os “dons” que Deus nos deu, é que alguns de nós (principalmente no âmbito religioso) passamos a pensar que sexo é algo sujo e que conduz ao pecado… Como se Deus tivesse colocado em nós algo que fosse ruim e nos conduzisse ao inferno… E, aí, reagimos muitas vezes irracionalmente ao nos deparar com um “amor” infantil ou juvenil… Enxergamos, muitas vezes, o despertar do instinto sexual (através do início da produção dos hormônios correspondentes) não como algo natural e obedecendo aos ditames divinos, como já afirmei acima, e sim como algo a “temer”… é o pecado! e ponto final… Lógico que tudo na vida pede-nos compreensão e educação, para agirmos com respeito em relação a nós mesmos e, na mesma medida, em relação às outras pessoas… Sexo, como em tudo na vida, solicita a devida responsabilidade perante a vida, concorda? Por isso mesmo, devemos deixar de enxergá-lo com a visão atávica do “pecado mortal” e passar a enxergar como uma dádiva de Deus para nossa alegria e felicidade conjugal, com o devido respeito e responsabilidade. Assim, creio, devemos educar nossos filhos e filhas para encará-lo com naturalidade, entendendo suas responsabilidades perante a vida nesse campo, não é mesmo? Bom domingo, Ricardo.

  • ARTUR

    É por isso que você é diferente, é uma pessoa sem maldade e sem rancor, é grande e rico em espirito.
    Eu não alcancei esse estagio mesmo estando com 63 anos, me coloque em seu lugar neste momento de sua infância e confesso que não teria este gesto de grandeza. Parabéns pela aula de humildade e grandeza.

  • Joilson Gouveia Bel&Cel RR

    UM POVO ASSEDIADO NUMA NAÇÃO ESPOLIADA, OPRIMIDA E SOFRIDA (?)
    Joilson Gouveia*
    Percebe-se, pois, nesses episódios recentes – trazidos à baila pelo brilhante literato caetés e tupiniquim – portanto, desses tempos atuais e comparados aos que não voltarão jamais porquanto perdidos na memória dos atuais senis e dos “jovens-velhos” ou “velhos-jovens”, cinquentões ou sessentões ou mais, como nós (tempos perdidos porque “esquecidos”-ou arquivados no baú memorial- nunca por tê-los vivido; claro!), áurea época em que os povos, sociedades e comunidades ou mesmo todas as nações democráticas buscavam consolidar os ideários desfraldados pela revolucionária bandeira de uma tríade de premissas axiológicas, e que encantara ao mundo inteiro: “liberdade, igualdade e fraternidade”! – nem todas as nações as conquistaram e as realizaram…
    E, hoje, ameaçadas de extinção, revogação ou por desuso, pelo que se pode inferir, da brilhante narrativa dominical do ilustre, preclaro e destacado “analista caetés”!
    Permita-me transcrever aqui o seguinte, a saber: “Em breve, sorrir será ofensa aos banguelas e desdentados; florir ofenderá aos que não dispõem de um jardim; caminhar e correr discriminará aos mancos, aleijados e mutilados; pensar ofenderá aos que possuem cérebro enquanto massa cinzenta inócua aos que sequer sabem que ele existe – e para que fim ele está nela, ali na sua caixa craniana e etc. Ou até mesmo ser senil ofenderá ao jovem imberbe e imaturo “mano”; “sabe”! (?) – contido in http://gouveiacel.blogspot.com.br/2015/11/a-verdade-passara-ser-crime-hediondo.html. – E digo mais: o elogio passará a ser uma ofensa! O verbo será crime ou assédio ao mudo e surdo…
    O livre pensar que fora só pensar, no dizer de Millôr Fernandes, será atentado ao desgoverno que aí está! Ou não?
    Alguns passaram a exigir mais direitos, privilégios, prerrogativas ou sinecuras, benesses e graçolas que os limitados na própria isonomia (todos são iguais, em direitos e obrigações, perante a LEI) quebrando a equânime equidade equitativa do esquadro da premissa axiológica da legalidade legítima, justa e democrática e, por conseguinte, para todos, igualmente (social, sociológica o socialmente falando), ainda que sejamos todos diferentes, divergentes, díspares e desiguais enquanto seres humanos, mas todos iguais na bitola, esquadria e no molde e modelo legal!
    Já havíamos dito, a saber: “Aliás, é de se dizer que todo privilégio e/ou prerrogativa torna-se, efetivamente, numa odiosa sinecura, perversa vantagem especial e exclusiva discriminação. De mais a mais, tal e tais prerrogativas, mordomias e imunidades remontam à taxionomia de castas sociais ínsitas à monarquia, como se pudesse admitir classes ou categorias de seres humanos ou mesmo de cidadania, a despeito de muitos assim procederem, i.e., uns, da chamada elite, se acharem mais cidadãos que outros e só pelo fato de terem um diploma ou um anel no dedo – muita vez, estes é que cometem os mais absurdos e hediondos dos delitos.” Leia-se mais in : http://jus.com.br/artigos/2235/imunidade-ou-impunidade#ixzz3sDvGK2Dd
    A igualdade, fora dos liames legais constitucionais, se tonou desigual quando privilegiaram uns, bonificaram outros, gratificaram, beneficiaram e premiaram a alguns em detrimento de todos quando “instituíram cotas para algumas ditas minorias ou excluídas parcelas da sociedade”. Ou não?
    Enfim, aquela tríade (liberdade, igualdade e fraternidade – outrora anelada) foi reduzida, na prática, e numa “realidade social fraterna, igualitária e justa”, que somente existe ou “passou existir” no “mundo real da telinha de tevê”, mormente nas vinhetinhas dos governos, urdidas por marqueteiros, e massivamente veiculadas, divulgadas e pulverizadas nas casas dos habitantes de uma nação de tênue, pífia e tíbia democracia que periga ser tiranizada, venezuelizada ou cubanizada – como eu queria viver no estado ou país dessas vinhetinhas! – como se pode inferir da censura dessas mesmas tevês que noticiaram, editaram ou mostrarem à realidade dos fatos diversos, díspares e contrários aos fatos divulgados nessas vinhetinhas, é que a verdade é vermelha – vide, pois aqui, a saber: http://gouveiacel.blogspot.com.br/2014/12/a-verdade-e-vermelha.html
    Urge lembrar, por supino, fundamental e importante, que pensar, falar ou agir diferente ou mesmo não concordar e até desconcordar ou mesmo calar diante deLLas ou exigir legalidade, respeito e transparência é puro “golpe, golpismo, PIG, é ser coxinha, zelite ariana ou viúva de quem não morreu” – basta ver que ao que o nosso Parlamento, que deveria ser a caixa de ressonância de seu povo – expulsou a esse mesmo povo de seus logradouros, largos, paço, gramados e jardins de uma esplanada usando de sua guarda pretoriana a serviço de seus pretores!
    O que mais falta vir? O que advirá depois daí? Pense!
    Abr
    *JG

  • Mario Feijó

    Ricardo, parabéns pela história.

  • fernando costa

    Belissimo artigo. De repente voltei aos meus tempos do querido Marista. Quantas saudades…

  • Julieta de Medeiros

    Linda! Linda é sua sua alma e sensibilidade, a escrever suas memórias que são de tantos, e guardadas há tanto tempos e anos, nos baús inconscientes e conscientes de idas e vindas de nossas vividas , sofridas e contentes Vidas. Saudades!!!

  • Vilma

    “Sem rancor ou alegria”, mas com o que você tem de mais precioso: a delicadeza, a sensibilidade para transformar uma história triste em um momento de felicidade para os seus leitores.
    Valeu, mais uma vez.

  • Antônio Carlos de Almeida Barbosa

    Mota, quanta incompreensão e ignorância da mãe da garota. Parece que a mesma não passou pelos dez anos de idade, com a descoberta dos amores. A infeliz, ruim e maldosa senhora, não tinha qualquer sensibilidade e sentimentos.
    Talvez, vivesse amargurada e sem amor, inconscientemente tentando privar a filha de uma paixão inocente.
    Tão perversa, que ainda dá o tiro fatal da ameaça, em pleno regime militar, que seu marido era policial.
    Os adultos sem compressão e sem amor, prejudicam os filhos e as pessoas, deixando marcas profundas, na alma de quem teve a infelicidade de conviver, com estas lástimas.
    Grande abraço.