Eu não me lembro como tudo aquilo começou. Mas quando dei por mim, já estava ajustando as horas para que pudesse ir àquele encontro nunca marcado e que quase sempre acontecia.

Alguma palavra trocada, um cordial “boa tarde”, ao menos? Nada. A cena se repetia, e por mais previsível que fosse, havia de acelerar a minha pulsação, sentir meu peito ser empurrado para fora do corpo. Apenas um rápido olhar, um sorriso discreto, imperceptível para os outros que não nós dois, e só.

Também não me recordo de tê-la surpreendido em uma única oportunidade sequer. Ao dobrar a esquina da Roberto Ferreira com a Barão de Atalaia, ali no Centro da cidade, lá estava ela, ao final da tarde, sozinha na janela – sempre olhando em direção ao lugar de onde eu surgiria. Como se mirasse a curva de um rio esperando que a correnteza lhe trouxesse algo muito desejado – assim eu imaginava (e me aprazia fazê-lo).

Sua imagem, que foi se fixando na minha mente, se construiu no meu tear mais íntimo, passo a passo, nas repetidas oportunidades em que eu a vi. Finalmente, estava ali: cabelos negros escorridos pelos ombros, onde duas alças finas e delicadas de um vestido florido em vermelho lhe cortavam a pele muito alva. Os olhos? De um negror profundo, que absorvia toda a paisagem.

Eu passava em frente à janela do casarão – a sua janela – aprumando o passo, querendo parecer mais velho e vigoroso do que de fato era. Depois do leve encontro dos nossos olhares, ficava a pensar que ela me acompanhava, ainda. Até sentia os seus olhos roçarem levemente minhas costas, nuca, cabelo… Que delícia! Acho que aquele era o momento em que a adolescência engendrava o seu poderoso e inexorável plano de criar amores.

Acontecia sempre naquele horário em que o sol preparava a sua despedida diária. A luz mais branda, ainda assim, tratava de realçar o contraste que carregava consigo – pele de neve, olhos de jabuticaba. Interessante: eu não a levava para o travesseiro, como fazia com tudo com que queria sonhar. Ela só existia naquele curto espaço de tempo e naquela esquina da minha infância e juventude. Sem sofreguidão, senão com uma cumplicidade serena, silenciosa e secreta.

Um dia, lembro-me, meu pai conversou à mesa que na casa da janela – da sua janela – ocorrera uma tragédia. Não, não fora ela a vítima. Entretanto, a partir de então, eu nunca mais a vi. Nem mesmo naquela hora que parecia tão nossa.

Às vezes, até me pergunto se ela de fato existiu: não teria sido fruto da imaginação fértil de um adolescente que começava a viver os calafrios dos afetos mais sentidos, a ansiedade de uma paixão desconhecida?

Aí me vem à mente a mesma tela, emoldurada pela janela, pendurada na minha galeria das memórias, com um frescor de moça pronta para amar e ser amada.

 

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  • claudemir

    De fato tb passei por isso e a guardo na memória até hj, parabéns Ricardo fiquei bem emocionado

  • JEu

    Ah! Os devaneios da juventude… que saudades… Tudo parece perfeito na mente juvenil que sonha com os grandes amores (pois é, quase nunca é um só….) Quem não os teve? Creio que ninguém, consegue se furtar a tais emoções depois dos 9, 10 anos… Tão longe na vida, tão perto da memória…! Diz o poeta da MPB que relembrar é viver… pois é, revivi hoje a minha tão longe juventude… Bom domingo, Ricardo.

  • Há Lagoas

    Qual de nós nunca criamos nossas musas imaginárias?
    Seu talento de poeta o fazia personificar esta diva de tal forma que ela parecia real!
    Que boas lembranças…

  • Tina

    Lindo!

  • Rosa

    Eu sabia que aqui encontraria sensibilidade e poesia.
    De novo, acertei.

  • maria jose da silva

    Olhos negros são lindos

  • conceição Freire

    Nós mulheres também temos lembranças da nossa infância e dos amores que ficaram na nossa imaginação,lindo o que vc escreveu Ricardo,lembro que tinha um pai tão ignorante,que na época falar com um coleguinha não era normal,lugar de mulher para ele era na cozinha,morava em uma cidade chamada Pindoba,um lugar de direita e de políticos que na época ninguém podia falar imagine ,mais se podia sonhar,isso meu pai nem aqueles políticos podiam me impedir,sempre sonhei,com isso aprendi a amar mais e procurar ser mais justa com tudo o que existe no mundo,sofremos mais,nos indignamos mais,mais o importante é lutar,sonhar e amar.

  • Giuseppe Gomes

    Caro escriba: não sei se por esquecimento, por um “clique” mal aplicado ou simplesmente por teres passado ao largo da esquina famosa – prefiro acreditar na última alternativa – nos brindastes novamente com “Olhos Negros”, a belíssima crônica de todas as esquinas da nossa vida. Feliz em reler a republicação no Blog, apesar de quando em vez, buscá-la nos meus arquivos pessoais, onde suas crônicas impressas aguardam substituição pelo livro que urge mas não chega.