Perdoem-me pela obviedade do tema. Falar de pai, em pleno dia dos pais, não me parecia algo digno para os leitores domingueiros deste blog.

Mas eis que, em plena sexta-feira à noite, estou na fila do caixa de um supermercado com um apetitoso – para mim – prato de rabada, tão nordestino quanto insuperável.

Confesso: talvez gordo demais para quem já está roçando nos sessenta anos de existência (é mais elegante dizer assim). Aparece-me, então, um “desconhecido íntimo” e indaga, entre incrédulo e gozador:

– Vai encarar, Ricardo?

Eu, de bate-pronto:

– Com pirão, não troco por nada.

E a troco de nada, passei a dizer das minhas preferências culinárias, nada sofisticadas, e que mantenho de forma, digamos, irresponsável: buchada, feijoada e a própria, ali à mostra.

Ele riu e concordou, com algum desalento, creio, mas manifestando uma saudosa cumplicidade: “A mulher não deixa nem entrar lá em casa”. A minha, também, mas eu continuo teimoso!

A conversa seguiu, e eu falei do seu Luiz Mota (de novo, hoje? Freud explica). Contei, rapidamente, das artimanhas do meu pai para devorar generosos pedaços – ou “rodilhas” – de rabada, em plena madrugada de Paripueira.

Quase toda a família reunida em torno de uma mesa de carteado, eu deitado em uma rede, lendo, e ele dormindo um sono sincero, honesto, do qual até hoje eu tenho inveja. O relógio marcando duas, três horas da madrugada. De repente, meu pai se levantava, passava a mão no rosto e me provocava:

– Tem uma rabada pronta na geladeira. Você quer comer?

Claro estava quem era o proprietário do desejo.

Eu assentia e ele tratava de acordar a minha mãe, que ressonava em outra rede, para dar o aviso:

– O Ricardo está pedindo rabada. Ele quer que você esquente.

Eu era a “isca”, está claro.

Minha mãe ia para os tratos, e minutos depois estava seu Luiz Mota, já passado um bocado dos setenta, roendo os ossos do prato magistral. Eu, até para que a mentira não aparecesse como fratura exposta, beliscava por ali, mas sem o seu apetite pantagruélico.

Não foram poucas vezes em que fui usado pelos seus ardis para convencer dona Lucinha a ir para a cozinha preparar seus manjares preferidos.

– Chegou um jacaré de Penedo. Você quer comer, domingo?

Imagina!

Irresistível para ambos, duelávamos sem que um pudesse apontar o vencedor da peleja. A farofa no dendê dava o toque especial, pouco nobre, eu reconheço, mas que nos fartava e satisfazia muito mais do que qualquer prato ao chef.

Ah, sim, não haveria de esquecer: a galinha domingueira ao molho pardo tinha uma história própria, repetida e nem por isso menos saborosa (ambas: a história e a galinha).

Aos sábados, seu Luiz ia sempre ao mercado público, em Jaraguá, e de lá chegava com uma penosa depenada e imensa: era galinha gorda, tendo ultrapassado, portanto, a condição de franga. Dona Lucinha, com certa ingenuidade, perguntava: “É galinha velha, Luiz?” (uma questão fundamental para o preparo).

Não tinha jeito. A resposta estava na ponta da língua:

– Eu não sei. Não pedi a certidão de nascimento dela.

Um pândego!

O que sou eu hoje, já nem sei; o que é dele, quem saberá me dizer? Perco sempre a minha certidão de nascimento quando o fruto proibido está à mostra.

Talvez os pratos na mesa falem por nós dois.

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  • FRED

    VOCE ME FEZ LEMBRAR MEU PAI, O SENHOR ABEL, UM HOMEM RETO NAS SUAS ATITUDES. E POR FALAR EM PECADO, ME FEZ LEMBRAR O SR BRASIL, EM QUE CONTAVA A HISTÓRIA DO CUMPADE, QUANDO A VIÚVA, ENTÃO ELE DIZIA:*QUANDO FOR PECAR ME DÊ A PREFERÊNCIA*

  • Fernando Dacal Reis

    Brilhante homenagem através da qual pego carona para lembrar, também, neste dia, meu “pândego” PAI. E nós Ricardo, que ainda estamos em nosso aprendizado terrestre, com certeza contamos com a companhia deles em todos os momentos, especialmente nas tardes de sábado com saborosos chopes da Brahma é claro…

  • tania

    Feliz dia dos Pais pra vc!!!!!

  • Há Lagoas

    Sabe Ricardo,
    A culinária nordestina nunca sairá de nossa mente, e o meu paladar pode parecer rústico e antiquado, mas, e eu com isso?
    Amo os frutos do mar, coisa que aqui em Londrina é um luxo!
    Sururu, Peixe, Siri, Carangueijo e Camarão – este ultimo meu filho paulista ama de paixão…
    Mas ontem, em casa de stª Maria – que não é mãe de Deus – comi o velho e “saboroso” cuscuz nordestino – aquele simplesinho com cavalinha…
    Um vizinho de minha mãe ficou espantado com o “cheiro” que meu saboroso peixe exala, minha irmã reclamando que incensou toda a casa e eu com água na boca querendo devorar meu manjar…
    Para nossa surpresa o vizinho não se fez de rogado, bateu em nossa porta e procurou saber que cheiro era aquele, foi convidado e experimentou nosso manjar! Ao sair perguntou reto e direto: posso voltar?
    Amigo, todo Sábado a noitinha lá estou eu saboreando meu cuscuz com Cavalinha, lembrando de minha infância próximo a lagoa no Bom Parto…

  • memória

    Nem me fale! Eu também lembro do meu velho comendo piaba com farinha.
    PS.: faz pirao na boca!

  • Gustavo Pinto

    É Ricardo, assim como você já não tenho mais o seu Nilton presente, fisicamente falando. Há exatos 15 anos nos deixou com muita saudade. Hoje vou ” entornar” umas geladinhas em homenagem a ele, que tanto apreciava. Conhecia e frequetava todos os bares da redondeza da França Morel. Vida que segue…

  • José Francisco Silva Santos

    Amigo Ricardo. Participei nessa época das mesmas guloseimas, só que na mesma , Buarque de Macedo 130, casa dos meus queridos e saudosos Tio Paulo e Tia Fhiló, principalmente quando acontecia um grandioso CSAxCRB, pois naquela época era diferente. Ficávamos na expectativa do resultado, para ver quem curtia com quem. Você amigo, deve se lembrar muito bem. Um abraço por esse dia..

  • Fernando Sarmento

    Caro Ricardo, lendo seu texto foi impossível não lembrar de minha história com meu pai, Francisco Sarmento. Cozidos, galinhas velhas, ou novas, buchadas, rabadas, enfim, comidas típicas de nossa região que aprendi a apreciá-las com ele. Hoje só me resta a saudade, das conversas, do convívio e dos conselhos do meu querido Pai. Parabéns pelo texto.

  • Frederico Farias

    Essa da galinha velha….kkkkkkkkkkk

  • jorge manycera – penedo-al.

    Bom dia RICARDO, boas lembranças, meu velho gostava de sarapatel com pimenta malagueta e pilombeta frita na banha de porco.

  • Eduardo Magalhães

    Caro amigo Ricardo,
    Crônica de uma amizade acumpliciada saudosamente muito bem vivida… Que maneira singular de se homenagear! Parabéns.

  • maria jose da silva

    Feliz dia do pais para todos que têm pai vivo. Meu sol deixou saudades, muitas saudades, saudade eternas, mas parabéns pelo seu dia.

  • Constante Ramos

    Seu Luizinho, para os íntimos, era uma figura. Quem teve o privilégio de o conhecer que o diga. Meu pai foi aos 85 sem nenhuma recomendação para fechar a boca. Como é bom envelhecer com dignidade e sem cerimônia diante da mesa.

  • Ricardo Gois Machado

    Discordo veementemente dessa frase: ” A farofa no dendê dava o toque especial, pouco nobre…”
    Sem essa farofa de dendê, o jacaré não fica tão nobre, como de fato é este prato tão penedense.

    Resposta:

    E eu concordo com você (foi só “provocação”).

    Ricardo Mota

  • Fernando Albuquerque

    Ricardo acabei de ler as suas recordações e me vi lembrando do Homem que me deu lições que até hoje norteiam minha vida o Sr. claudenor de Albuquerque lima meu pai Homem que dentre todas as lições me insinuou que temos de ser amigo dos amigos um feliz dia dos pais para vc.

  • Eduardo Lopes

    Nesse manjar descrito, acrescente o cozido, dobradinha, sarapatel, tripas e mocotó. Pimenta, limão, farinha e cachaça. Da certidão de nascimento esquece-se a idade, mas nunca a ancestralidade.

  • AAraujosilva

    Formidável!!! Formidável, mcjovem!
    Ricardo, nem Seu Freud conseguiria explicar
    Seu Luiz Mota e, talqualmente, Seu Arthur Silva;
    esses nossos pais são umas figuras que não estão
    no gibi e nem nunca tiveram…