Na semana que passou, encontrei o filho de um colega de Moreira e Silva, tempos em que o colégio era uma referência na boa qualidade de ensino.

O Renato, me disse ele, havia morrido de câncer, em março, após uma árdua luta contra o mal devastador. Ainda que não fôssemos íntimos, nunca tivéssemos conversado sobre sonhos e a vida real, lembrei-me do seu sorriso, algo marcante na sua personalidade.

Conversamos um pouco, e eu segui adiante na minha caminhada. Não fazia muito tempo, já havia me deparado, ali mesmo, no calçadão da orla, com outro contemporâneo do velho Moreira:

– Ricardo Mota!

A voz, quase aflita, chamou a minha atenção.

O Rato, como o tratávamos, estava sentado à mesa, sozinho, em um das barracas espalhadas por ali. Após breves cumprimentos, ressaltei que o tempo não passara para ele, o que, nesse caso, era absoluta verdade.

Com exceção da barba, já marcada pelos anos, ele se mostrou do mesmo jeito que marcou sua passagem pela minha adolescência: alegre, brincalhão, perguntando pelo “Veio”, “Batata”, “Asa”, “Bate-e-cheira”, todos eles personagens de que nunca poderei esquecer.

O Rato era um gaiato. Muito magro, corcunda, algo discreto, participava e assumia até o protagonismo nas peraltices, então permitidas, que praticávamos.

Um dia, ao final das aulas, descemos em bando num dos poucos ônibus que faziam a linha Farol-Centro. No volante, um motorista já alcunhado pela turma de Topo Gigio, um bonequinho – um rato, na verdade –, que fazia um programa na TV com Agildo Ribeiro, aí pelo início da década de 1970.

Sentamo-nos na parte dianteira do veículo, que estava quase vazio. O Rato puxou a conversa:

– Eu vejo os meus colegas mexendo com o senhor e fico chateado. Isso não se faz.

O homem, trabalhador em plena atividade, sensibilizou-se com o comentário de insuspeita solidariedade, e para mostrar a sua gratidão, adoçou a fala:

– Ainda bem que aí também tem estudantes educados, como você.

Foi a deixa para que o esquálido roedor tomasse o papo ao seu modo. Afirmou que já havia reclamado à diretoria da escola do tratamento que seus colegas dispensavam ao motorista. Falava pausadamente e com um respeito comovente, ainda que mentindo como nunca.

Fomos assim até a Praça dos Martírios, onde o Rato iria descer. Na despedida, veio a autorrevelação do anjo caído:

– Até logo, seu Topo Gigio.

O homem partiu com explosiva fúria atrás do danado, que conseguiu se safar. De repente, me dei conta de que eu permanecia dentro do coletivo, para onde o seu titular retornava espumando de raiva.

Seu olhar, saltando das órbitas, não deixava dúvida: eu iria pagar pela molecagem.

Eis que o pavor nos dá a força e a velocidade que não temos, de fato, como seres humanos. Saltei os degraus da porta de saída do carro e fugi feito um ladrão que havia sido denunciado em meio à multidão.

A parti daí, por justa precaução, passei a identificar, já de longe, o motorista do ônibus que iria me levar do “planalto” à Praça Dom Pedro Segundo.

Essa, você ainda me deve, Rato.

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  • JEu

    Bons tempos aqueles, em que escola pública era uma “escola” de verdade. Também estudei no Moreira e Silva dos bons tempos… (sem considerar o tal do regime militar)… Degustei o texo me lembrando de algumas peraltices que também pratiquei e que, hoje, já calejado da vida (embora ainda não tenha aprendido o suficiente) relembro até com algum “remorso”, por ter, também, feito alguém (sempre mais velho) de tolo ou por ter desconsiderado, de certa maneira, das pessoas… No entanto, creio que havia mais irreflexão do que malícia nas tais “brincadeiras”… Hoje em dia o que se vê por aí é pura maldade e desconsideração para com os mais velhos… Quem não vê o que acontece, em muitas escolas (públicas ou privadas – estas últimas em bem menor proporção) com os professores. Naquela época se respeitava mais os professores e as próprias escolas… Saudades dos velhos tempos…

  • ARTUR

    Esse tipo de comportamento era natural e normal entre os jovens da nossa geração. era traquinagem costumeira quando saiamos em grupo, era só alegria e maloqueiragem entre colegas que não esquecemos nunca.
    TEMPO BOM! NÃO VOLTA MAIS! SAUDADE! É O TEMPO QUE FAZ!¨ Bom domingo a todos.

  • Frederico Farias

    “Outro dia vinha pela rua,
    quase morri de rir,
    pois um cara que passou por mim,
    chorava fazendo assim:
    hã hã hã hã hã hã hã hões,
    foram só 20 milhões..”

  • Renato Rocha Filho

    Grande Ricardo,
    Encontro-me sem palavras e a brotar goticulas ao canto dos olhos, viajo nos contos do meu eterno Rocha, e nas dos amigos dele como vc o erá.
    Obrigado por essa lembrança e pra mim sem duvidas “homenagem”,
    Fique c/ Deus e todos que os a companham.

  • Ubirajara Fernandes Vieira

    Caro Jornalista Ricardo Mota, parabéns pelo belo texto. Na vida temos que cativar os verdadeiros e poucos amigos que amealhamos. E aos encontrá-los devemos ser nós mesmos, um pouco mais velhos e experientes, e não esconder nada. Da vida não levamos nada a não ser estórias para contar.

  • Eduardo Lopes

    Com a verdade não se brinca.

  • Frederico Farias

    Comenta-se, à boca miúda e à boca graúda, que o homem de 20 milhões de reais também vai pedir o benefício da “delação premiada”.

  • fred

    Meu caro, que narrativa linda, e me fez lembrar minha vida, que coisa, é meu pai seu ABEL, do bar do cação da nossa praça GUEDES DE MIRANDA, praça da troça, é tempo, isso faz parte da minha vida, meu pai , minha mãe, meus irmãos, minhas irmãs, hoje minha esposa, que coisa, pense minha vizinha, ela meuu pecado original, meus pecados, disse veio, pense, veio três filhas; ANDRÉA(QUE TERMINA MEDICINA EM 2016), AMANDA(QUE FEZ DIREITO, E PASSOU NA OAB, NESSE ANO), E ANDRESSA( QUE ESTÁ TERMINANDO ENGENHARIA AMBIENTAL). É NOSSA FAMILIA, QUE COISA LINDA.

  • Armando Leite da Silva

    Escola Moreira e Silva, quanta saudade!