Ainda que a carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, divulgada na semana que passou, seja de 1928 e não traga grandes novidades, o tema central provoca frisson entre os leitores por ser a “confissão” da homossexualidade do autor de Macunaíma. Ou seja: ele saiu do armário.

Quão injusto é esse julgamento, mesmo que da posteridade! A curiosidade transformada em mexerico, algo tão desprezível em qualquer tempo, até mesmo nesses tempos que haverão de passar.

Imaginemos um Mário de Andrade, genial e culturalmente tão criativo, vivendo a clandestinidade da sua natureza, por não poder se mostrar como de fato era.

Que sentença cruel!

Por esses dias, vivemos um belicoso debate, principalmente via redes de intrigas, sobre a “ideologia de gênero” – baseado em informações fabricadas. A atualidade do tema mostra o quanto teimamos em negar aos desiguais o direito a uma existência social.

E já se vão quase 90 anos desde a carta carregada de lamentos de Mário de Andrade ao seu amigo poeta.

Impressionante, o que merece registro, é que o temor maior – predominantemente manifestado nos comentários de agora – dizia respeito à possibilidade de a escola ensinar aos “nossos filhos” que “ser gay é bom”. Note: não se fala em “nossas filhas”, o que para mim só revela o machismo embutido no medo à “anomalia”.

Na verdade, assim acredito, a semente desse preconceito é a mesma que gera a misoginia e, indo um tanto além, o racismo, a intolerância religiosa e todos os sentimentos que nos impedem de partilhar uma convivência saudável com os diversos – se não afetuosa, pelo menos respeitosa.

Creio que, como no samba de Noel Rosa (“Feitio de Oração”), também a homossexualidade “não se aprende no colégio”. O respeito, este sim.

Nem mesmo os estudiosos da alma humana foram capazes de definir uma única origem para o “mal”. Não me atrevo a especular sobre uma questão tão complexa quanto presente na história da humanidade.

Mas o biólogo americano Edward O. Wilson, em A Conquista Social da Terra, afirma que “a homossexualidade empenhada, com a preferência aparecendo na infância, é hereditária. Isso significa que o traço nem sempre é fixo, mas parte da probabilidade maior de uma pessoa se tornar homossexual é determinada por genes que diferem daqueles que levam à heterossexualidade”.

Vai mais longe o cientista. Do ponto de vista da Biologia Evolutiva, diz: “As sociedades se equivocam ao desaprovarem a homossexualidade porque os gays têm preferências sexuais diferentes e se reproduzem menos”. Isso “daria vantagens competitivas a um heterossexual praticante” no processo de replicação dos genes.

Seu arremate: “Uma sociedade que condena a homossexualidade prejudica a si mesma”.

A verdade absoluta não há de estar com ele nem com ninguém. Mas certamente não se encontrará na reação dos que não aceitam os gays como pessoas normais, ainda que não convencionais. Com talentos especiais para algumas atividades humanas, não são melhores nem piores do que as outras pessoas: são iguais na sua desigualdade.

Lembro-me de uma conversa com um colega jornalista, já maduro, a lamentar o olhar enviesado com que é recebido nos lugares públicos, quando acompanhado do seu companheiro de vários anos:

– Você vai a um restaurante com sua mulher e pode trocar afagos com ela. Eu só posso fazer isso na clandestinidade, que é como eu vivi sempre.

Ele não fazia referência aos espetáculos ou exibicionismos das gigantescas paradas gays (descartando, por descabidas, as provocações religiosas), que a mim em nada incomodam. Falava apenas de afeto, o que não depende de gênero, raça ou credo.

Autor do ótimo Humanidade sem raças?, o cientista brasileiro Sérgio Danilo Pena nos avisa que a diversidade humana ultrapassa os sete bilhões de indivíduos.

Haverá de chegar o momento em que teremos de optar: ou nós ou a intolerância dos novos bárbaros.

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  • João

    Ricardo, a ideologia de gêneros é a imposição social mais autoritária que se pode existir, em nada tem a ver com respeito a diferenças sexuais e a educação sexual! Me espanta o nobre jornalista não aprofundar no assunto! Conceitos de heterossexualidade, cristianismo e família devem ser defendidos por quem quiser e respeitados, o problema é que querem criminalizar essas pessoas que defendem sua opnião! Assim como o respeito e direito aos homossexuais devem ser respeitado e ampliado! Problema é exaltar a homossexualidade e querer dar mais direitos e regalias isso tambem é preconceito

  • JEu

    Tema difícil este de hoje, Ricardo. Complexo e simples tudo ao mesmo tempo, na minha pequeníssima opinião. Complexo por se tratar de uma tema humano, e o ser humano é complexo por natureza. Como vc mesmo disse, até hoje a ciência dos seres humanos (para não dizer: dos homens) ainda não foi capaz de explicar o que, para muitos, parece inexplicável. Da mesma forma, como vc também disse, os estudiosos da alma humana (filósofos ou religiosos) também ainda não conseguiram desvendar esse “mistério” do ser psíquico. Tudo isso só faz ressaltar a complexidade do tema. Também é simples pelo fato de, como destacado no texto, precisamos apenas de respeito e solidariedade pelas outras pessoas humanas. Para mim, fica a lição maior de Jesus que afirmou: “não julgueis para não serdes julgados, pois com a mesma medida que julgardes os outros, também sereis julgados”! Seria bom, creio, se deixássemos o julgamento nesse campo para Deus, cuja justiça e perfeita e, portanto, não erra, como normalmente o fazemos e tomássemos a outra lição inolvidável de Jesus: “amai o próximo como a vós mesmos”, como solução simples para problema tão complexo. Afinal de contas, foi ou não foi Deus quem criou todas as pessoas?

  • tania

    Bom texto…..precisamos respeitar todos sem restrições, conheço alguns casais homossexuais , tanto masculinos como femininos e acredito que eles são felizes sim…..acreditam que escolheram o que é melhor pra eles e vivem sua sexualidade sempre reprimida por não poder mostrar seu afago em publico…..acredito que tudo bem dosado fará bem a todos!!!

  • Sara

    O humanismo entende e prega que o respeito deve guiar o nosso comportamento. Entendo, assim como você, que todos somos diferentes demais para que dispensemos a tolerância.
    Parabéns.

  • Ascanio Correia

    “Em tempos de Internet a ignorância é uma opção”. Como canta o poeta: consideramos justa toda as formas de amor”

  • Eduardo Lopes

    Que sentença, que jugo, que pena abjeta é a imposição do preconceito.