Logo que eu casei, em 1979, fui morar no Jardim das Acácias, ali no Farol. Em dois anos, passei por três apartamentos, sempre e por coincidência, em prédios contíguos.

No ano seguinte, já tendo feito a minha primeira mudança – eu que morara na mesma casa a vida toda, na Buarque de Macedo –, conheci um vizinho de quem seria impossível esquecer ou não lembrar com alegre saudade.

Seu Antônio durante o dia cuidava de barbas e cabelos em seu salão na adorável – então – Rua Augusta, ouvindo as histórias mundanas de tantos, de quem captava as notas da diversidade da alma humana. Aquele homem miúdo, de horizontes largos, desprezava preconceitos e se aninhava com a delicadeza. À noite, exercia o seu mais estimado talento: era um instrumentista de raro bom gosto e delicadeza.

Fazendo duo com Pato, um jovem aloirado, de cabelo crespo e que o acompanhava com admiração e zelo, ele transformava as noites do lugar em horas de calmaria e prece, com seu cavaquinho de notas precisas e sentidas. Era assim que eu recebia a sua cotidiana presença.

Como eu já lhe dissera que gostara muito da sua interpretação de Pedacinho do céu (Waldir Azevedo), num gesto de reiterada generosidade, sempre que ele ia executá-la dava alguns passos à frente da sua “esquina” e se postava abaixo da minha janela, escancarada e esperançosa, no segundo andar.

Aqueles acordes embeveciam a mim e a Tania, nos comovendo durante meses, a suavizar o nosso sono.

Santo Antônio!

Paulo Vanzolini, cientista, poeta e boêmio – não necessariamente nesta ordem –, letrou Pedacinho do céu, mas não foi exatamente uma experiência muito exitosa.

Este belo choro-canção dispensa palavras. Não há nele tristeza ou alegria, mas poucas músicas exigem tanto o nosso silêncio e cuidado ao ouvi-la. Pede que apenas embarquemos com ela por entre estrelas espalhadas no escuro do universo.

É verdade que, algumas vezes, a letra posta após a passagem do tempo, quando a música já se deu por esquecida, surge de forma magistral, como se fosse a um encontro previamente marcado com a melodia.

Hermínio Bello de Carvalho fez isso de forma magistral, em Doce de coco (Pixinguinha), seguindo os passos de Vinícius de Moraes, em Lamento (Pixinguinha) e Gente Humilde (Garoto, contando ainda com o auxílio luxuoso de Chico Buarque). Por raros, estes êxitos merecem registros.

Na semana que passou, ouvi, vezes sem conta, Pedacinho do céu, em gravação primorosa de Dominguinhos, com seu acordeão pungente, em parceria com Yamandu Costa, despido de malabarismos e domado pelo “mestre”.

A música estava lá, inteira e bela. A cada audição, confesso, lembrei-me de seu Antônio, aquele homem simples, de riso escancarado, que trazia consigo uma imensa alegria de viver e que já tinha o seu pedacinho de céu, a que distribuía sem parcimônia.

Pedindo licença a Goreti Lima, sua filha e minha amiga, fico a imaginar, cabotinamente, que ao se dirigir à janela da minha morada, seu Antônio levava o seu acalanto para que eu pudesse dormir em paz.

E sempre conseguia.

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  • ARTUR

    Ricardo,são esses gestos simples de pessoas simples que nos fazem acreditar que o ser humano mesmo simples torna-se rico em espirito, dividindo sua felicidade com os outros.

  • ARTUR

    Ricardo, você me fez lembrar minha trajetória de vida, quando participava com a turma das peladas na praia da avenida e apos o racha se reunia embaixo de um pé de amêndoa gigante para tomar raspadinha com bolo ou brasileira, próximo a FENIX, acompanhado pelos cantos dos sanhaçus. Quantas vezes assistia luta livre na praia com a participação dos famosos lutadores: CHINA,CRIANÇA e outros. TUDO ISSO DE GRAÇA E LIVRE DE VIOLÊNCIA. KKKKKKKKKKK SÓ PAGAVA O LANCHE 1,00 depois saia liso e feliz. kkkkkkkkkkkkk tempo bom.

  • JEu

    Ah! Que beleza. Músicas como essa que vc falou, Ricardo, são realmente “pedacinhos do céu” que, de alguma maneira, foram endereçadas à nós, insignificantes “humanos”, sabe-se lá se pelos “anjos”, intuitivamente captados por alguns talentos que podemos considerar, até, sobre-humanos (se podemos realmente usar este termo). É tão difícil encontrar isso hoje em dia… Normalmente, o que ouvimos, são barulhos de sons esganiçados acompanhados de letras (se podemos dizer assim, pois, normalmente, estão cheias de erros ortográficos, tão ao gosto da atualidade) e péssimo gosto (se podemos chamar de gosto), à uma altura insuportável e, na maioria das vezes, durante as horas destinadas ao repouso (direito que estamos perdendo). Graças a uma lei aprovada no município de Maceió, os tais “paredões” de som estão proibidos dentro dos limites urbanos desta cidade (até que enfim saiu alguma coisa boa da câmara municipal). Muito bom domingo.

  • Há Lagoas

    Meu Caro Cronista,
    O que eu mais admiro em você é esta singeleza de se aperceber da poesia do cotidiano simples e natural, mesmo vivendo em meio a uma sociedade corrompida e sem princípios.
    Me refiro aos políticos, Ricardo…
    Mas seu saudosismo não entristece minha alma, pelo contrário, me enche de esperança e me faz navegar em lembranças de minha infância e juventude aí em Maceió.
    E fica aqui um desejo, quando voltar a minha terra natal gostaria de conhece-lo pessoalmente!

  • Goretti Lima

    Meu amigo Ricardo, é com olhos marejados que agradeço sua feliz lembrança de papai num contexto tão saudoso da nossa existência. Assim como a música, papai era um pedacinho do céu em minha vida. Guardo em minha mente os melhores ensinamentos. A alegria constante. A felicidade dele em receber em casa os amigos do grupo de chorinho. Guardarei também esse momento. Você me fez viajar no tempo. No tempo da delicadeza. Seu texto é belo. Um domingo pra ser sempre lembrado. Obrigada.

  • Eduardo Lopes

    Há lugares, meu caro, onde se respira paz, onde se foge da ânsia, onde a amizade é devota.
    Nesses lugares, ao contrário do que pregou Descartes, quando pensamos não existimos, pois só somos, quando nos esquecemos.
    Boa semana.

  • Antônio Carlos Gouveia

    Muito bom Ricardo. São situações como a narrada que nós faz refletir pelo que efetivamente importa.