O fato é verídico e aconteceu recentemente. Um homem humilde, exalando o odor dos demônios em dias de intensa atividade, entrou numa repartição pública em busca de ajuda. A primeira autoridade com quem teve contato rejeitou recebê-lo em seu gabinete. O argumento era simples e direto: “O homem fede”.

Eis que apareceu outra, mais calejada pelo tempo e preservando dentro si a tolerância e o respeito para com os mais humildes. Levou o “homem que fede” para a sua sala, até insinuando, por insuportável, o incômodo provocado pelo mau perfume que empestou o ambiente: “O senhor sua muito, não?”

Ouviu, constrangido, a explicação:

– Desculpe, doutor. Eu moro em Marechal Deodoro. Como eu só tinha o dinheiro de uma passagem e precisava chegar a Maceió, vim a pé. À noite pelo menos vou poder voltar de ônibus. É mais seguro.

É apenas mais uma situação singela do cotidiano, a nos revelar, sem chance de defesa, que há sempre uma história demasiado humana por trás de uma pequena tragédia.

Dar-se a chance de conhecê-la, esta sim, não parece ser parte do nosso dia a dia. Perdemos essa capacidade, e a temos cada vez menos, por motivos que vão se acumulando na nossa trajetória de pressa e desatenção para com quem não devemos reverência ou obediência, se assim nos parecem.

Quanto menor o homem, maior a sensação de peso sobre os nossos ombros em carne viva. Que pena! Deixamos de enxergar os gigantes anônimos que encaram a dor com o estoicismo que nem reconhecem em si: fazem o que tem de ser feito, suam e cheiram mal.

Sim, porque o homem fede. Fede numa esquina da Rua da Alegria, fede na calçada ao nos dar “bom dia”, fede no trabalho, fede de passagem pela vida, fede dentro de casa, fede no quarto do amor já morto. Fede, e é isso tão somente o que nos faz sentir a sua existência: a podridão de uma alma insepulta, que teima em permanecer.

É claro que há um agravante no caso: ocorreu numa dessas repartições públicas onde os servidores-autoridades são remunerados bem acima da média dos demais trabalhadores. Pagos, eis a miserável realidade, por uma gente igual ao “homem que fede”.

Se as instituições não têm olhos, não têm ouvidos, não têm compaixão, aprimorando apenas um olfato tão sensível, nós, pessoas comuns em um mundo que despreza os comuns, também não nos damos conta da presença da dor humana, se não a nossa ou daqueles que nos cercam e não exalam odores estranhos.

Seja por puro pragmatismo ou cálculo negociado com o futuro, não podemos relegar a empatia à condição de sentimento menor, dispensável e inconsequente: todos nós temos, tivemos ou teremos dias de “homem que fede”.

Mesmo que então não nos falte o dinheiro da passagem de ida a lugar nenhum.

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  • JEu

    Na realidade, Ricardo, o que fede mesmo é nossa arrogância e sentimento de “superioridade” mal resolvida perante os menos favorecidos pelas finanças, muito embora, a meus olhos, se achem moralmente muito acima dessas pretensas “autoridades” e, até, de nós mesmos, pois dificilmente teremos a coragem desses que, como vc disse, “fedem” às nossas narinas arrogantes. Por isso e por outras é que aceito que deve haver uma Justiça Maior que a nossa, homens de pouca fé e de pouca, ou quase nenhuma, sensibilidade humana.
    Obrigado por nos abrir os “olhos” do coração nesta manhã de domingo… Que o sol da humildade e da solidariedade possa brilhar na vida de muitos de nós no dia de hoje.

  • Fernando Dacal Reis

    Quem sabe essa “autoridade” que, se negou a a tender o Cidadão, não esteja fedendo muito mais internamente, não caiba sobre esse a citação milenar de Cristo: “Sepulcro caiado”.
    Valeu Ricardo!

    A título de sugestão, fica para uma próxima oportunidade de uma crônica mais alegre, a história do “Homem que cheira”, em homenagem ao nosso amigo Robson… Kkkkkkkk

  • SEBASTIÃO IGUATEMYR CADENA CORDEIRO

    EITA , MATÉRIA ! FOSSES BUSCAR ESSA NO FUNDO DO
    BAÚ , EHN ? PODE SER TAMBEM INFLUÊNCIA RELIGIOSA
    DA SEMANA QUE SE APROXIMA . . . A TURMA DA PONTA
    VERDE (ALGUNS) , VAI SE SENTIR COM A CONSCIÊNCIA
    VIBRANDO COM ESSE PIPAROTE QUE VOSMECÊ , SABIA-
    MENTE , EXECUTOU , EM SUAS ALMAS SEBOSAS . . . UM
    ÓTIMO FINAL DE SEMANA PARA VOCÊ , MEU AMIGO E
    IRMÃO !

  • tania

    Perfeito!

  • Fátima Medeiros

    Sensacional! Belíssimo texto.

  • Robson Farias

    Magnata da Escrita! Por essas e outras você é o Magnata. Quanto ao nosso amigo Dacal, eu sou cheiroso desde de nascença.Abraços a todos e obrigado pelos sábados.

  • Anthony

    Nos deram espelho, e vimos um mundo doente. ( Renato Russo, “Índios” LP 1986). Esse texto caiu como uma luva para todos nós.

  • É o Que Somos

    Ricardo, a carapuça cabe para todos nós. Não por culpa mas por omissão , pois quando reclamamos da vida que temos esquecemos de tantos que não tem o mínimo para ter uma vida descente. E quando falo o mínimo e desse exemplo do texto que você escreve. Mas esperar o que dessa ganância de quem comanda o País nos três poderes onde se sentem os verdadeiros Deuses onde podem tudo e não devem , muito menos satisfação para todos nos que pagamos seus astronômicos salários . Esses realmente fedem, mas, fedem tanto que deveriam ser proibidos de circular e serem colocados em um confinamento todos juntos.Para sentir uns o mal cheiro dos outros. Com toda certeza pouco ou nada vão sentir, pois o odor é o mesmo de todos.

  • jose ironaldo

    MUITO BEM. SÃO QUANTOS CIDADÃOS QUE FEDEM NESSE PAIS PRINCIPALMENTE NESSE ESTADO… PARABÉNS POR ESSE PEQUENAS LINHAS TÃO ESCLARECEDORAS

  • Roberto

    Caro Ricardo,
    Felizes dos que fedem e alma cheira. Estamos, em nossa maioria assim. É hora de acordar Alagoas. Qual o pecado que cometemos para merecermos tudo isto?…..

  • Luiz Carlos Godoy

    “…todos nós temos, tivemos ou teremos dias de ‘homem que fede’.
    ——————————————————————————–

    “O Rato e a Ratoeira”

    “Numa planície da Ática, perto de Atenas, morava um fazendeiro com sua mulher; ele tinha vários tipos de cultivares, assim como: oliva, grão de bico, lentilha, vinha, cevada e trigo. Ele armazenava tudo num paiol dentro de casa, quando notou que seus cereais e leguminosas, estavam sendo devoradas pelo rato. O velho fazendeiro foi a Atenas vender partes de suas cultivares e aproveitou para comprar uma ratoeira. Quando chegou em casa, adivinha quem estava espreitando?

    Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote. Pensou logo no tipo de comida que haveria ali.

    Ao descobrir que era uma ratoeira ficou aterrorizado.

    Correu para a esplanada da fazenda advertindo a todos:

    – Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa !!

    A galinha disse:

    – Desculpe-me Sr. Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.

    O rato foi até o porco e disse:

    – Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira !

    – Desculpe-me Sr. Rato, disse o porco, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser orar. Fique tranqüilo que o Sr. Será lembrado nas minhas orações.

    O rato dirigiu-se à vaca. E ela lhe disse:

    – O que ? Uma ratoeira ? Por acaso estou em perigo? Acho que não !

    Então o rato voltou para casa abatido, para encarar a ratoeira. Naquela noite ouviu-se um barulho, como o da ratoeira pegando sua vítima.

    A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego.

    No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa. E a cobra picou a mulher… O fazendeiro chamou imediatamente o médico, que avaliou a situação da esposa e disse: sua mulher está com muita febre e corre perigo.

    Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha. O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal.
    Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la.

    Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.

    A mulher não melhorou e acabou morrendo.

    Muita gente veio para o funeral. O fazendeiro então sacrificou a vaca, para alimentar todo aquele povo.

    Moral: Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que quando há uma ratoeira na casa, toda fazenda corre risco. O problema de um é problema de todos.”
    (Esopo – 620-560 a.C.)

  • igor ferreira bastos

    Ganhou mais 1 fã, Ricardo.

  • Antonio Moreira

    Recebi uma aluna na minha sala. Ela tinha os 11 anos de idade. Estava suada, nervosa e chorava bastante. Logo chegou uma prima dela pedindo a transferência dessa criança. A prima disse que a turma da menina não agüentava mais o mal cheiro dela. Dei a ela o meu perfume, e junto com uma professora compramos produtos de higiene para ela. Ela foi orientada e continuou na escola. Isso aconteceu no interior de alagoas. A menina morava numa fazenda e muitas vezes nem tomava o café da manhã.

  • Williams Roger

    Ricardo, esse texto que você escreveu é muito forte, ao mesmo triste. Pois, em sua grande maioria, é o que realmente acontece! Ainda mais no serviço público, no qual o servidor deveria tratar qualquer administrado sem qualquer acepção de pessoa(s).
    E situações como essas, revelam que grande parte da nossa sociedade exala preconceituosidade.
    Aproveitando o ensejo, conto uma história, verídica, que aconteceu com uma amiga semana passada:
    O pneu do carro dela estorou. E ela parou em uma rua esquisita, que no momento, ninguém passava. Daí, segundo ela, se perguntou:- meu Deus! E agora, o que vai ser de mim?
    Foi então que, “do nada”, apareceu um andarilho, não muito diferente da personagem central da crônica. Era como se fosse que ninguém daria nada por ele. Magro, moreno, roupas rasgadas. .. Daí a “surpresa”, que ao mesmo tempo estando ela com um pouco de medo, por ser mulher, ESCUTOU: – moça! Quer ajuda?
    Ela então disse:- quero sim moço, não sei trocar o pneu. Daí ela continua:- só que tem outro problema moço! No momento, eu não tenho nem cinquenta centavos pra lhe dar!
    Foi então que o “andarilho” disse: carece não moça. Onde estão as ferramentas e o estepe?
    Essa minha amiga disse que, em silêncio só agradecia a Deus.
    Dito isso, ela com o pensamento de retribuir de alguma forma o favor, lembrou de um colega, e pediu ajuda em dinheiro, e que fosse ao encontro dela.
    Lá chegando, já no término da troca do pneu, ela pergunta ao colega quanto ele tinha em dinheiro, ele disse:- quarenta reais. Então ela pegou todo o dinheiro e deu ao “andarilho”, que por sua vez ficou muito feliz e tão muito agradecido.
    Só que um fato ocorreu. O colega dela ficou P. da vida porquê ela tinha dado a quantia de quarenta reais ao “andarilho”. Daí ela disse ao colega:- se eu tivesse cem reais eu daria todo a este rapaz que me ajudou sem me cobrar nada em troca do favor.
    Pois é Ricardo, se não é você, eu e outras pessoas que dê publicidade de fatos como esses, como seria a vida de muitos sem a devida reflexão!
    Mas ainda falta muito, no caso em tela, o AMOR DE DEUS!
    Por isso, além de ler e reler o texto da crônica quantas vezes forem necessário.
    Sugiro também que leiam e releiam Mateus 6 e Lucas 14 NA ÍNTEGRA!
    Ademais, Jesus dissera:
    “Amarás teu próximo como a ti mesmo”.
    “Outro mandamento maior do que este não existe.”
    Mateus 22:39, 19:19
    Levítico 19:18
    Marcos 12:31
    Gálatas 5:14

    Enquanto isso, diante tanto preconceito, bandidos de presença e bem vestidos roubam bancos!
    Enquantos os “fididos” ajudam seu semelhante sem pedir nada em troca!
    A não ser, o respeito como ser humano igual a qualquer um, indepedentemente da condição social.

  • Monique

    Seu texto me lembrou o poema “O bicho”, de Manuel Bandeira e me faz refletir sobre a falta de humanidade, do egoísmo presente na sociedade, fico bastante triste com a hipocrisia humana, a que nível chegamos? Não trouxemos nada para esse mundo e não levaremos nada dele. Como afirma Charles Bukowiski: “Todos nós vamos morrer, que circo! Só isso deveria fazer com que amássemos uns aos outros, mas não faz”.

  • Jane Costa

    Suas palavras Ricardo, nos remete a uma reflexão nesse momento de quaresma, ao menos, já que não a praticamos no dia-a-dia. A arrogância comum a alguns, impede de enxergar no outro, a alma, o ser; apegando-se apenas ao externo, ao “homem que fede”. O materialismo é só o que encontramos em algumas “mentes” … De qualquer modo, o seu texto nos serviu como alerta!

  • chico amorim

    Caro Ricardo, desta vez você extrapolou a expectativa daqueles mais incrédulos. Não querendo subestimar a inteligência dos demais. Todos nós, algum dia teremos um dia do “Homem que fede”, eu já tive o meu e terei mais algumas vezes porém, minha maior satisfação e orgulho por exalar o mau cheiro é saber que terá sempre algo que farei em prol do meu benefício ou outrem – pois ganharei o pão com o suor do meu rosto – e para minha maior felicidade é saber que existe uma classe que FEDE MAIS do que eu – Alguns Políticos, esses ladrões de consciência que vivem sempre na esperança que o dia de hoje seja pior que o de amanhã, pois só assim se perpetuará no poder invertendo a história de Hobin Hood que roubava da nobreza para dar aos pobres. Eles roubam dos pobre para fortalecer suas contas bancárias. Pois é digníssimo Ricardo tenho orgulho do meu FEDOR! E nojo do Fedor Palaciano. Parabéns!

  • Eduardo A de C Lopes

    Infelizmente Ricardo, essa ė uma realidade mais que comum. Aqueles que deveriam cuidar de nossa população, simplesmente a repulsa com a arrogância inata dos espiritualmente fétidos. De fato, uma lástima.

  • Palmeiron Couto Pimentel

    Lindo e humano texto. Parabéns.

  • fernando costa

    Quando JOSE SARAMAGO foi questionado por uma admiradora do porque um homen bom como ele era ATEU, SARAMAGO assim respondeu;…a pergunta poderia ser outra. Porque uma pessoa que acredita tanto em DEUS seja capaz de cometer tantas maldades??//

  • Luiz Antônio Maciel

    Parabéns, um convite à reflexão para os que ainda tem a capacidade de fazê-lo.

  • carlos jorge

    Parabéns !

  • Ana Maria

    Adorei o texto. Enfia sem dó o dedo num chaga aberta de toda a sociedade; a falta de empatia, de respeito e a arrogância, que isolam socialmente e diminuem moralmente o homem.

  • Sergio

    E quem disse que o Perfume Francês que esses idiotas usam agrada a todos?

  • Jorge

    Aqueles que mais fedem são os desviadores de recursos públicos!
    Deixam crianças sem merenda!
    Hospitais sem remédios!
    Fornecedores sem pagamento!
    Acobertam corruptos!
    Esses são as carniças da sociedade!

  • Brígida Santa Cruz

    O Sr. nos lembrou como fedemos, mas, sabemos nos esconder atrás de certos perfumes “baratos”. Temos um Deus q vê e sente tudo, não adianta se esconder! Parabéns pelo texto.

  • Antonio

    Nada fede mais que a CORRUPÇÃO e o APARELHAMENTO das instituições, além do CAOS estabelecido na sociedade. O FEDOR de Gramsci está aumentando! DEUS ESTEJA!!Mire e veja: A LIBERDADE é PERFUMADA!!!