O menino caminha tranquilo com o cachorro ao seu lado. Seguem juntos num sincronismo de passos que prescinde de ensaios, o que só é possível nas relações que se estabelecem pela força da natureza. A liberdade é tudo o que possuem, o que os une.

O menino tem os cabelos ressecados, assim como os pelos do cão. Vivem à beira-mar qual personagens de Capitães de Areia, no olhar de Jorge Amado para a infância que desconhece abrigos seguros. Mas é no perigo que ignoram que os dois se fazem um só: menino e cão.

Cheiram a mar e vivem nas areias manchadas da Jatiúca, de que são donos sem posse. Apenas usufruem o território que a cidade lhes oferece. São parte da paisagem, a que nos é invisível.

Se o mar é do menino, e nada impede que nele mergulhe sob a luz fraca que a essa hora escura chega às águas, ele também é do cachorro, de pelagem amarela e de raças misturadas, que encontraram no seu corpo a resistência  a males que os cãezinhos bem-cuidados e alimentados não suportariam.

O menino corre. O cachorro corre. Ambos parecem disputar uma prova de velocidade sem regras. Quando um para, o outro se aquieta. Venceu o menino? O cão se dá por satisfeito em alcançá-lo. Pernas pequenas e magras estacionam em meio ao burburinho da pressa dos caminhantes noturnos. 

As pessoas passam e desviam daquela massa, agora única: os dois já estão sentados na calçada irregular, abraçados, ensopados. A pata do animal roça o rosto do menino, delicadamente, como se medisse com exatidão a força que deve imprimir àquela carícia sem ferir o companheiro do mundo sem portas e tetos. O menino retribui o gesto, balançando a cabeça do cachorro – puro afeto. Ambos se levantam e caminham de volta ao areal.

É lá que está a jangada. Na verdade, tocos do que foi uma velha e precária embarcação de pescadores, abandonada ao relento. O leito que dividirão, assim como dividem a vida, sem cobrança. Há restos de comida em volta: um pedaço de pão, um naco de peixe frito, uma caneca d’água mais vazia do que cheia.

A vasilha amassada é emborcada, a boca para baixo, deixando correr até o último pingo. O sono os chama ao repouso de mais um dia sem generosidade. Mas não há ressentimentos no último olhar do pequeno “capitão” aos passantes. E o rabo em pêndulo é o sinal de contentamento do cão. Um sorriso e uma palmada suave são o aviso de que o menino assumiu o controle: ele deita e o outro se enrosca em seus pés. Será o seu cobertor nas horas frias que virão.

Um velará o sono do outro. Haverão de sonhar acordados com a manhã seguinte, que conhecerão aos primeiros raios de sol vindos lá do Oeste, eles que não precisam saber da direção dos astros. 

Ali, tão juntinhos, os corpos recendendo a sal marinho, a matéria da sua segunda pele, fecham os olhos: deles não necessitarão para que se saibam em meio à escuridão que já se avizinha.

Enquanto viverem, não conhecerão a solidão.

Esta restará amarga a tantas vidas que nunca se darão conta do menino e do cachorro.

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  • Luiz Carlos Godoy

    “Cheiram a mar e vivem nas areias manchadas da Jatiúca, de que são donos sem posse. Apenas usufruem o território que a cidade lhes oferece. São parte da paisagem, a que nos é invisível.”

    Veio me à lembrança uma imagem poética por mim presenciada ao anoitecer no dia de São João (24.06.2013) na orla da Ponta Verde da linda Maceió.
    Tava caminhando e vi esse flanelinha nessa “vibe” com esse dog:
    https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10151533362544685&set=a.10150447689769685.380144.730529684&type=3&theater

    Resposta

    Meu caro Luiz Carlos:

    Sua foto disse mais o que todas as palavras aqui escritas.
    (Peço desculpa pelo lugar-comum, mas não pude resistir).

    Valeu!

    Ricardo Mota

  • josé carlos santos

    Bonito texto camarada, parabéns.

  • maria auxiliadora araujo

    É uma pena que aquele cão seja o único cão amigo (dentre milhares de cães da vida ) daquela criança, de outras e mais outras aqui, bem pertinho da gente, alí , por toda parte de um Brasil tão desigual….

  • maria auxiliadora araujo

    Belíssima e pungente imagem registrada em uma noite de pipocar de fogos juninos;o melhor e, talvez o mais sonoro pipocar daquela noite !!! Parabéns ao autor do grande feito .

  • Denilma Ferreira

    Comecei a ler e fiquei imaginando o companheirismo entre o menino e o cachorro. ‘Vi” então, uma amizade despretensiosa e verdadeira em que o respeito com o ‘outro” é sem dúvida sinônimo de liberdade. Continuando, me deparei com a foto publicada pelo caro Luiz Carlos Godoy, o que serviu de reforço visual aos meus pensamentos. Belo texto, bela foto.

  • Antonio

    “O cachorro também é um ser humano” Agora, a liberdade sempre foi relativa e limitada, dependendo de muitos fatores. Mire e veja: numa ditadura comunista? “DEUS ESTEJA”.

    Resposta:

    Desculpe-me discordar de você.
    É injusta, para os cães, a comparação.

    Saudações democráticas,

    Ricardo Mota

  • J.Monteiro

    Meu caro Ricardo Mota, seria maravilhoso se nas horas difíceis da vida, tivéssemos ao nosso lado um cachorro amigo. Mas, duro é constatar que às vezes, temos ao nosso lado, um “amigo”, pior que um cachorro. Eu não conheço um cachorro pior. Você conhece?

  • Allysson Rafael Araujo dos Santos

    Magistral, bom alagoano!

  • Fernando

    Consegui através de tão poéticas palavras visualizar os dois inseparáveis amigos, não precisei de nenhum recurso visual, até porque na minha “viagem lúdica” eles existem e vou acompanhar o desenrolar dessa amizade, até que uma mãe aflita os encontre, pois tenho certeza que essa criança por ser tão sossegada diante da indiferença humana tem uma. Mas ele ignora o sofrimento que essa amada mãe está passando. Quando li, me identifiquei. Eu também fugi de casa, mas ao contrário dele, eu fui covarde, quando escureceu, voltei para dormir perto de casa, na ânsia de saber se “eles” estavam preocupados. No outro dia eu soube e ao contrário dos filmes americanos que os pais enchem a criança de beijos e abraços quando as encontram, eu levei foi uma “pisa daquelas” da minha mãe, de cinturão ainda mais. Doeu? Nem um pouco, pois eu percebi que ela se importava e muito comigo, porque ao mesmo tempo que ela batia ela chorava. Em toda nossa curta convivência, ela morreu quando eu tinha 13 anos, essa foi à única “pisa” que ela me deu. Mas como gostaria de ter levado mais umas três pisas dela, não que eu tivesse feito por merecer, mas se tivesse acontecido, com certeza teria mais três declarações de amor para lembrar-me dela. Talvez quem leia o que eu escrevo ache que eu sou louco, principalmente diante das mudanças que existem hoje em relação a não bater.
    Sou do tempo em que até o professor que ensinava alguma disciplina, também disciplinava o aluno e não era só com conselhos, mas com castigos e até mesmo batendo com uma régua de madeira ou uma palmatória. Nesse caso eu morria de medo do professor, mas ao mesmo tempo eu o odiava, pois ele fazia aquilo na frente dos outros e não ha humilhação maior do que apanhar na frente dos colegas e daquela menina a qual geralmente todos os meninos paqueravam. Apanhar da minha mãe era diferente, ela me bateu dentro de casa, porque eu a fiz sofrer e sendo ela a pessoa que me dava tudo, além de amor e carinho, com certeza eu mereci e ela tinha esse direito. Pior seria, se no outro dia ninguém tivesse percebido, ficassem indiferentes, aí sim teria doido muito, pois aí eu teria certeza que estava sozinho no mundo. Já o professor foi porque errei a tabuada ou fiz uma graça pra turma rir, não sei ao certo. Mas eu detestei, pois ele era um desconhecido que não me dava nada para ter aquele direito, nem mesmo o ensino da sua disciplina (matemática) de forma compreensiva para que eu pudesse entender e não apanhar.
    Por isso eu espero que aquele garoto seja encontrado logo por sua mãe e ela, assim como a minha, mostre pra ele com muito amor toda dor que ela está sentindo, pois esta “liberdade” que ele está vivendo não tem futuro, pois quem sem limites viveu, infelizmente não envelheceu. A exceção o grande astro pop Michael Jackson, que viveu sem limites, chegando ao cumulo de querer ser branco, embora tenha nascido negro, mas por outro lado também não queria envelhecer. Por incrível que pareça, ele conseguiu os dois, morreu branco e jovem.
    Desculpe-me a empolgação, mas a sua história me tocou.

  • M. Frade

    Perfeito o texto, Ricardo. Os que nunca se darão conta do menino e do cachorro estão nos facebooks da vida. E, hoje, se alguém notá-los, provavelmente será para fazer um selfie. São os ‘soldadinhos da rede’.

  • Fátima Almeida

    Que sensibilidade, a sua, Ricardo! Eu vi o menino e o cachorro por meio do seu texto.