A nossa relação com a beleza é sempre de encantamento ou de despeito. Esta última se manifesta, principalmente, quando o belo se apresenta em alguém: se homem, no caso dos homens, por impossibilidade de também tê-la; se nas mulheres, por inacessíveis. 

O tempo, entretanto, surpreende e apronta. Vamos descobrindo belezas que não são aparentes e delas nos tornamos tão sequiosos que até nos indispomos com os que não a identificam.

É no amor romântico, a que tanto valorizamos em boa parte das nossas vidas, que se estabelece a relatividade da beleza. Os encontros acontecem em condições bem mais especiais do que o contrário, por raros.

Descobrir a beleza no outro é uma tarefa de que não damos conta de quando a exercitamos. Simplesmente vamos por caminhos que nos serão sempre desconhecidos, mas seguimos feito cegos na escuridão: identificando ao simples “toque” aquilo que nos dá prazer, na química dos seres, que amalgama as almas mais improváveis, se renunciamos ao que idealizamos como objeto do desejo.

Da finitude da beleza física, puramente, o tempo se encarrega de sentenciar. Da outra, sabe-se lá como se desfaz em desencanto, embora tanto aconteça. Será sempre o imponderável a atuar sem o nosso consentimento, e dele nunca precisará.

Não nos é dado dom de saber quando e quantas vezes cada um de nós há de se deparar com a beleza onde ela não ostenta escancaradamente as suas virtudes. Mais serenos os tempos, mais chances teremos de descobrir o que se esconde sob a névoa da aparência. A avidez é má conselheira também na geografia sentimental.

As pessoas se revelam no comportamento, na fala, nos gestos, nos gostos, coisas tão comuns que são imperceptíveis, ainda que nos pareçam incomuns quando somos nós os desbravadores da insuspeita beleza. Seus traços definitivos ali estarão, como se fosse uma armadilha dissimulada do destino.

Capturados, tratamos de descartar, por inútil, aquilo que a primeira impressão, a que quase nunca fica, nos provocou.

E há de ser mesmo belo o inesperado, porque não há nada mais cativante do que a beleza descoberta onde só os nossos olhos alcançam.

E dane-se o mundo.

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  • Antonio

    “Tudo muda o tempo todo no mundo”. A maturidade, a cultura , a relatividade.Estamos na casca de noz? Viva a vida,sempre bela! ” E dane-se a humanidade.” Forevis.”

  • JEu

    Para falar sobre a beleza, este é mesmo uma beleza de texto. Para mim, definir a beleza é algo quase imponderável, pois como dito no texto, a beleza pode ser algo totalmente pessoal, uma descoberta pessoal… Pode, assim, ser algo inusitado, pois cada ser humano é um mundo todo originaL… Cada pessoa, portanto, pode captar a beleza de formas diferentes, de acordo com suas próprias percepções e sensações… Cada um compreende e sente a beleza de forma especial e o mundo inteiro é capaz de conter todas essas percepções, creio eu… E esta capacidade de conter todos em tudo é algo realmente grandioso e belo na “CRIAÇÃO”, que para mim, é algo divino…
    Obrigado e mutito bom domingo, Ricardo.

  • maria auxiliadora araujo

    O seu belo texto diz que as pessoas se revelam no comportamento, na fala, nos gestos, nos gostos,coisas tão comuns que são imperceptíveis,,,,,È justamente por aí que exercito a minha percepção de beleza.O que, por acaso faltar, ‘é o acordo entre o conteúdo e a forma’ como bem disse Henrik Ibsen. Um belo domingo para você .

  • Luiz Carlos Godoy

    (…)
    “Vamos descobrindo belezas que não são aparentes e delas nos tornamos tão sequiosos que até nos indispomos com os que não a identificam.”
    (…)

    “Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
    Ambos existem; cada um como é.”
    (Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

  • alberto

    Valeu, isso vale pra poder identificar o lobo na pele de cordeiro.

  • Jisete Monteiro Nicacio de Lima

    Feliz os que os olhos possam alcançar a verdadeira beleza, pois é ela que possibilita a capacidade de encher nossos corações de alegria e amor.
    Valeu mais uma vez pelo texto. Abraços.

  • Natanael Nascimento

    A nossa percepção da beleza se aprimora com a experiência dos anos vividos. Hoje, aos 51 anos, consigo perceber o verdadeiro belo e vivo mais feliz.
    Belo texto, Ricardo. Parabéns!

  • Alexandro Negrão

    ” Belo, é tudo aquilo quanto agrada desinteressadamente”!
    Immanuel Kant

  • Glorinha, que não é a Gadelha

    Ontem me lembrei de você. Li uma história super interessante de um norueguês fã incondicional de Fernando Pessoa. Ele, dia desses, abriu uma livraria de um livro só. O “showman” queria que todo mundo lesse, para ele!, o melhor livro do mundo, o do Desassossego. Não posso afirmar que você compartilha da máxima dele, mas sei que esse livro é um forte candidato a um dos melhores de sua lista. Saudade, querido. Te tenho, quando memória é sossego.

    Glorinha.