Minha avó materna não trazia alegria nos olhos. Nem dos tempos em que convivemos nem de antes, quando eu não existia. Não recordo de tê-la visto gargalhar uma única vez. Quando ria, era de um jeito discreto, até de aprovação, mas nada que revelasse que represara alguma felicidade lá no passado que eu desconhecia.

Dura no trato cotidiano, tinha um jeito próprio de manifestar seu afeto: nos dava, de coração, aquilo de que tanto gostávamos:

– Nego, tem uma coisa na geladeira pra você.

Eu corria direto para a cozinha e me deparava com uma generosa porção de doce. Se fosse de batata-doce, então, eu me esbaldava.

Que cozinheira divina! Um simples bife, passado na hora, era irresistível, de gosto único. Tudo com um tempero simples, mas que sua mão transformava em um apetitoso prato especial, uma refeição que os melhores chefs não haveriam de reproduzir, ainda que pudessem saber o gosto bom da minha infância.

Às vezes, ela olhava para mim, e num tom de inequívoca melancolia me dizia:

– Nego, você parece com o Cão.

Não era, e eu bem sabia, o Tal que metia medo a qualquer um que pronunciasse o seu nome. Dona Anatildes se referia ao meu avô, Antenor de nome e de fama.

Ele a havia abandonado quando eu ainda era criança. Tivéramos uma boa convivência, e eu cheguei a passar umas férias com o casal, em Igreja Nova, um pouco antes que se separassem. Depois, só nos víamos quando ele vinha a Maceió receber o salário do mês. Um dia muito aguardado por mim, que sempre recebia alguns bons trocados.

Vovô formou uma nova família, e se não bastasse a extensa prole – já criada – que ele deixara para trás, ainda teve mais dez filhos. Era da sua essência, boêmia, romântica, que não descartava um carteado.

Aliás, foi o jogo o principal motivo de tantas brigas com a minha avó. Na mesa, ele simplesmente empobrecia na velocidade da luz: o salário, os bens da casa, tudo servia de pagamento aos credores do baralho. E a vida de ambos virava um inferno, com bate-bocas e juras de vingança.

Se seu Antenor reconstruiu sua vida, aquela separação ficou marcada nos olhos da minha avó até os seus derradeiros dias, em um hospital de Maceió.

Na minha adolescência, eu não entendia muito bem por que me achavam tão parecido com meu avô: ele tinha os traços finos, eu, negroides, e além da pele morena, nada mais denunciava qualquer semelhança aparente entre nós.

Só depois de adulto, ao me ver andando numa filmagem de televisão, pude constatar que tínhamos a mesma corcunda, que era marcante nele e que eu pude ver finalmente em mim. Matei a charada. Eis que eu parecia, de fato, com o “Cão”.

Não havia raiva alguma quando ela se referia a meu avô. Revelava apenas a saudade daquele a quem elogiava como “um pé de valsa”, exímio dançarino, que eu vim a conhecer no Clube Bandeirantes, lá em Igreja Nova, fundado por ele para ser um time de futebol e um espaço de convivência da comunidade.

Era próprio do seu Antenor. Nas cidades por onde passava, e foram muitas em uma vida cigana, deixava a sua marca de orador e de “agitador social”.

Minha avó nunca comparecia aos bailes que ele organizava, mas tratava sempre de perguntar, a mim inclusive, como tudo havia transcorrido. Não escondia a sua satisfação ao saber que o velho magro e cuidadosamente vestido havia girado no salão, exibindo-se à plateia com seus passos de elegante valsista.

Nos últimos anos de vida da minha avó, meu pai se transformou em um dos seus “filhos” preferidos. Ela fazia pratos, sempre bem fornidos, da carne de panela que seu Mota mais apreciava, e avisava, à sua chegada, o que o aguardava na cozinha: um guisado que ele não haveria de achar em nenhum outro lugar. Meu pai se desmanchava e fazia as vezes de incorrigível glutão.

Hoje, lembro com saudade de dona Analtildes fazendo suas orações ao Padre Cícero, sempre muito concentrada.

Não sem imaginar que quando ela rezava pensava mesmo era no “Cão”.

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