No domingo (18/5/14), numa noite encantadora, num palco de “celebridades arrebatadoras” (pelo menos é assim que uma vizinha minha pronuncia toda vez que a Jennifer Lopez e o Pitbull se apresentam), a nossa encantadora Claudia Leite (confesso, é arrebatadora, mesmo. Já temos uma intimidade autorizada: Claudinha), baiana arretada, de pernas imitadas, de gingado Sangalo, de requebro Shakira, de músculos Madona) – desculpe-me a longevidade dos parênteses, meu caro leitor – entornou uma frase arrepiante no badalado Billboard Music Awardes, Las Vegas, espécie de Oscar não sei de quê (até o Michel Jackson já esteve por lá), em resposta a um comentário de uma fã.
O diálogo foi assim, no twitter da baiana, esse fofoqueiro moderno:
Fã: “Ela pode até ir no Billboard, mas é cafona forever”.
Claudinha: “Uma garapa de aldicarbe com organofosforados, você não quer tomar, né, fofa?”
Em tempo:
“Cafona” (Aurélio), sinônimo: Diz-se da pessoa que, com aparência ou pretensão de elegância, foge ao que convencionalmente é de bom gosto…
“Cafona” (Houaiss), antônimo: airoso, alinhado, aprimorado, garboso…
“Aldicarbe” (Wikipédia), sinônimo: é um agrotóxico, também conhecido como “chumbinho”.

A fã obedeceu aos cavilosos significados dos vocábulos (unívocos e opostos). Pronunciou aquilo que aprendemos como convenção semântica de preconceito. Que me perdoe, principalmente, o dicionarista alagoano de Passo de Camaragibe.

A Claudia perdeu a oportunidade de dar uma resposta baiana.

Não seria pretensioso se a Claudinha tivesse respondido no Facebook, não no twitter, mesmo que “in box”, no lugar da frase “venenosa”.

“Minha cara fã,

O que você estigmatizou como cafonice, ou brega, não me atinge em particular. São 53 milhões de pessoas (último censo de 2009) que vivem assim, no Nordeste, como você diz, em cafonice. 75% dos mineiros são do interior; Só em Bagé, no Rio Grande do Sul, são 117 mil cafonas. Em Campinas, são mais de 952 mil pessoas que convivem com a diversidade de gostos.
Deixe-me explicá-la. O Nordeste, onde nasci, como um presente de Deus, me deu a Bahia, Salvador. Lá, como em Alagoas, Ceará, Paraíba e em tantos outros, nasceu o que chamamos de cultura de raiz (Temos raiz: negros, índios, portugueses, holandeses). O que você chama de cafona, minha fã, nada mais é do que uma identidade, uma cultura, um jeito de ser, uma atitude, uma mistura só vista por essas matas. Foi a cafonice que construiu São Paulo; que projetou gente como Graciliano Ramos e Ariano Suassuna. Lembra do Patativa do Assaré? E aquele cara chamado Reginaldo Rossi, que vendeu 1 milhão de cópias e ganhou 14 discos de ouro. Foi à toa, foi? Ele estava certo e o resto do mundo errado, foi? Minha cara, foi a cafonice que encantou, não achas? Ah! Tinha um que dizia em suas canções “Pare de tomar a pílula”, um hino que provocou um surto de discussão sobre as escolhas da mulher. “Que venha o pirralho, mas que você usa pílula, ah, isso é verdade”. Um escândalo!
Veja, são milhares de imigrantes italianos que vivem no Brasil (30 milhões de descendentes). Sabes o que eles trouxeram? O orégano, o tomilho, o alecrim, a salsa e o manjericão. Tudo cafona na Itália, sem a simpatia dos nobres. Não há pizzaria nem cozinha do interior, neste Brasil, que não use uma salsinha básica. É gostoso, viu? Figura, é sério. Herdamos a cafonice dos europeus.
Talvez você não queira assumir. O diferente, realmente, incomoda nossas malditas certezas de que tudo não vai além do nosso nariz. Sou assim, também. Acho que a minha imbecil aspiração pelo esplendor não vê aquilo que os outros simplesmente assistem como passageiro, normal e dispensável. Eu e você não respeitamos as vontades alheias. É um péssimo exemplo de empáfia, seja intelectual (que nem eu e nem você temos), ou cultural (que nem eu nem você assumimos).
Igual a você existe uma multidão. Gente que não entende onde começa a liberdade de expressão.
Os americanos nos fizeram ouvir o rock. Mas legítimo mesmo foi o Country, “uma mistura de estilos populares”, um folclore tradicional, cafona, que ainda hoje condenamos como imperialismo. Besteira, meu rei!. A música sertaneja de Matogrosso e Mathias, das irmãs Galvão e de Chitãozinho e Xororó vem dessa seara. Será que somos mais autênticos do que outros povos? Ninguém possui uma história? Berimbau e atabaque, da África, encantam meu Ilê Ayiê até hoje. Meu Rei, que coisa linda! Isso não é imperialismo.
Sério, minha fã. Você não quis ser inteligente. Sua frase foi um golpe na decência. Como todo preconceito tem sua face arrogante, talvez a sua infeliz atitude não encontre eco nos milhões de cafonas espalhados pelo Brasil e pelo mundo. O que seríamos de nós sem a cafonice? Não choraríamos as músicas do Roberto; não veríamos “Meu pé de Laranja Lima”; detestaríamos Charlie Chaplin; não brincaríamos de “avião”; não jogaríamos pelada; não desenharíamos um coração atravessado com uma flecha com um dizer “eu te amo” para nossa namoradinha; fecharíamos os olhos para o Grande Otelo; não cantaríamos “Carinhoso”; acharíamos uma vergonha nacional aquele chapéu do Santos Dumont e taparíamos os ouvidos para os versos de Cora Coralina. O que dizer, então, do Luiz Gonzaga? Você acha esse cabra da peste de Exu um despropósito, só porque ele é cafona?
E aí, você gosta de quê, ou de quem? De mim sei que não é; de música, pior ainda. Ah, você poderia até dizer “Claudia, isso seu não é música”. Isso tudo é uma grande farsa; você é produto da indústria do entretenimento; não há nada em você que seja chique, luxuoso, sofisticado, clássico, nobre, sublime. Você não tem voz; faz tudo parecer ser, sem ser de verdade; amostrada!”.
Mas você agrediu uma concepção, uma ideia. Não quero censurar sua voz, apenas solicitar um pouco de cidadania, se isso resolve. Respeito, sinceramente, sua opção pela infâmia. Você ter me chamado de cafona não muda nada entre nós; apenas o lugar onde você se encontra deve estar vazio de solidariedade.
Amo a cafonice, amo ser povão, amo ser baiana, amo ser nordestina, adoro Dorival Caymmi e Cartola; Rebolo ao menor batuque do samba carioca; sinto a alma em Adoniram Barbosa; me emociono com a voz do Cauby.
“Qué” isso, meu rei, tomara que você seja mais ignorante do que preconceituosa.
Beijos!
Claudia Leite
(Claudinha, se for longe demais).
Meu Rei!”

Ex-assaltante, deputado anuncia morte dos partidos
Conseg: 274 meninas de 9 a 14 anos foram estupradas no estado em 2013
  • Luiz Henrique

    Esse povo construído por nos nordestinos não se cansa de fazer escárnio com quem deveria ter muito respeito. Nos Alagoanos já fizemos três presidentes: Floriano Peixoto, Marechal Deodoro e Fernando Collor de Mello, se bem que este ultimo não nos deixou lembranças louváveis. Aqui não elegemos políticos por deboche, como no caso de Juruna, Tiririca e Clodovil. Aqui temos Djavan, que canta poesia e encanta corações, e nos faz orgulhosos quando em uma de suas estrofes diz: ” Farinha boa é a que a minha mãe manda de Alagoas “.
    Pode ter certeza Ricardo, que está fã com pensamento tão onagro deve ter em seu sangue raízes nordestinas, e como não sabe o que fazer por ter a alma fraca e não suportar o peso desse sangue, faz de sua boca o seu intestino, transformando de bom em m…. E a Bíblia é muito clara quando diz: A boca fala do que o coração está cheio. (Lucas 6.45 ).

  • Fernando p. s. nascimento

    Prezado Ricardo
    Gosto muito da sua coluna e sei o quanto é bem informado mas no caso especifico de Claudia Leite é preciso esclarecer que ela é como nosso governador Jaques Wagner carioca de
    nascimento e baianos por consequência da vida

    Um abraço

    Resposta:

    O texto, meu caro, é do Pife, grande personagem das letras locais.

    Abraços,

    Ricardo Mota

  • EDUARDO

    Ricardo sé toca, tu sabe la nada de celebridade, cai na real…..

  • Angelo Cavalieri

    Ricardo, como sempre colocando em suas colunas perolas escritas por você ou por outros , mas com grande inteligência. Parabéns a vc e ao PIFE.

  • Michelle

    Gente, me perdoe se estiver equivocada, mas ainda não entendi onde está o preconceito com nordestinos na frase da internauta que, ao meu ver, só expôs sua opinião, de acordo ou não deve ser respeitada…. sinceramente não vi desrespeito algum…. talvez um certo “recalque”… mas quem vai saber qual a real intenção senão a própria autora da frase? se nem JESUS CRISTO agradou à todos imagine as denominadas “celebridades”.

  • Jose Carlos

    Liga não Claudinha isso é uma mal amada.

  • jacson

    bom primeiro lugar ela e cafona mesmo é artificial e não e baiana a claudia e carioca foi morar em salvador ainda crianca antes de se tornar cantora era reporter da tv aratu filial do sbt na bahia e como reporter era pessima tambem

  • allana sampaio

    Ricardo, você deveria colocar expressamente no primeiro paragrafo do texto: que não é seu e definir a autoria. Por que, apesar da referencia entre parenteses, está faltando inteligência pro pessoal assimilar. (Risos)

  • Alvenan Santos

    Ricardo, parabenizo você por abrir espaço para pessoas como o Pife,que consegue nos presentear com esse estilo próprio , autêntico e inteligente de abordar alguns acontecimentos cotidianos. Parabéns Pife, você deveria estar na academia brasileira de letras, pois alguns que estão por lá não temos a menor noção do que escrevem.

  • Lívia Lima

    O Pife sempre encantando com suas palavras que nos remetem a várias épocas, ritmos, histórias.. Texto super bem escrito!!

  • Alexandre Aciolly

    É só ouvir as letras cantadas pela nossa linda cantora baiana para chegar a conclusão que nunca na galáxia ela teria capacidade intelectual para dar uma resposta como sugeriu o autor do texto acima.Ela se igualou a fã que a criticou, criou uma polêmica e tudo certo.Isso é Brasil!!!

  • Fernando Antônio Netto Lôbo

    Eu não a tinha, com tal lucidez e veracidade nas palavras e nos conceitos. Mesmo não gostando do “axé”, pois meu gosto musical é um pouco mais apurado, não posso desdenhar do brilho e da competência dessa baiana linda e arretada. Mas esse tipo de comentário estúpido, reflete a ignorância e a mal educação de muitos brasileiros, que por estarem (ou serem gestados) no sul, imaginam-se superiores, mas são dominados pela burrice e a ignomínia. São párias em uma sociedade múltipla e diversa como a nossa, canhestros e míopes de educação e sabedoria. Há um ditado popular muito sábio – essas pessoas quando passam defronte de uma estrebaria, relincham.!!!