Num baú de memórias há de caber de tudo, do bom e do ruim, mesmo que ao buscar alguma coisa que nos seja de serventia, e até sem enxergar o conteúdo lá dentro, tratemos de encontrar sempre o que se nos apresenta agradável ao tato e ao primeiro contato.

Mas quero crer que aquilo que mais espaço ocupa na peça, que vai se moldando ao passar dos anos, vem da infância, se a tivemos com gosto de fruta tirada no pé e, principalmente, se o medo antecedeu o prazer. Eis um sabor que carregaremos para sempre, contrariando Proust e a sua máxima de que desejo e posse são incompatíveis. Não, então.

No meu baú, bem lá no fundo, mas fácil de achar, há de se abrigar um par de trilhos por onde um trem velho e impassivelmente lento, a nos permitir embarcar na carreira, transitava apitando noite e dia. Às vezes, rompendo o silêncio das horas escuras.

Hei de encontrar à mão uma bola improvisada, quiçá torta e obediente ao comando de craques a quem o futuro negou as devidas glórias. Mas os sonhos, estes viajaram em velocidade maior do que a luz nas pernas mais ossos do que carne dos garotos que não entendiam nada sobre o que vinha pela frente – a não ser o mais espetacular gol que a plateia bem deveria ter testemunhado.

Um pouco mais acima, poder-se-á tocar a árvore que parecia frondosa e larga o suficiente para nos esconder dos indesejados senhores da maldade, mesmo que a vida, um pouco mais adiante, nos mostrasse que estavam eles prenhes de razão na sua fúria vingativa.

Avançando, nos depararemos com paixões tão definitivas quanto passageiras, a projetar finais felizes que nunca se confirmaram. Mas terão sido elas as matrizes do que aprendemos para além dos hormônios, que trouxeram um gosto especial às descobertas – do corpo e da alma. Insubstituíveis, até na idade provecta a que nos destinamos.

Existirão, espalhadas, as alegrias fugidias, em bandos ou solitárias, a nos fazer crer que vale a pena compartilhar com a espécie até quando dela nos envergonhamos de fazer parte. Porque ainda que sejam poucos os amigos, ninguém os terá tido com tanto privilégio.

Ah, e os insistentes acordes de uma canção inacabada, a minha Cantiga de esponsais (Machado de Assis), a esperar até o último segundo para revelar seu desfecho, já inalcançável. Que outro possa descobri-lo a tempo.

Há de conter também, em toques de outono, a molecagem imatura de um infante tardio, homem encanecido, a provocar na vítima – Ceará rebatizado – a mais frouxa risada, reveladora de uma cumplicidade tão própria dos acreditam que a amizade é um sentimento que não se explica a não ser pela sua existência.

É nesse baú que busco o sossego, quando ele me foge, ou se a saudade se assenhora de mim, me negando aos olhos os que já se foram e nunca irão embora.

                        *A Gilvan Ferreira, o Ceará, cuja gargalhada se fez indesejável silêncio. 

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  • antonio xavier

    O nobre jornalista me lembrou Pedro Nava,em seu “BAÚ DE OSSOS”.Leu? Muito bom! Good sunday,good luck!

  • maria auxiliadora araujo

    Bendito baú que abriga tantas memórias vividas, sonhadas, sofridas e contidas e se deixa abrir para um publico que , se apossa de muitas delas, se identifica,tornando o seu domingo maior .

  • Marisa Barros

    Tocante. Parabéns pelo belo texto.

  • AAraujosilva

    Bendito baú, mesmo!!! Ele não me nega o que
    “aos olhos já se foi e nunca ira embora” …
    Também me apossei de seu baú, grande
    escriba Ricardo Mota.

  • Antonio Carlos

    Prezado Mota, belo texto. A vida bem vivida é aquela que não carregamos sentimento de culpa, e não tendo fantasmas a nos infernizar. Lembrei-me do belo filme “Os fantasmas de Goya”. Valeu a chegada do domingo, pois a semana foi muito sofrida.

  • SEBASTIÃO IGUATEMYR CADENA CORDEIRO

    PREZADO AMIGO , EXCELENTE MATÉRIA ! VEZ EM QUANDO INCURSIONO AO MEU BAÚ , AONDE GUARDO
    UM PRECIOSO RELICÁRIO . COMO JÁ CITEI ANTERIORMENTE , SE ALGUEM ME SURPREENDER RINDO SÒZINHO , JÁ SABE , OU ACESSEI AO MEU BAÚ ,
    OU ESTOU OUVINDO OU RECORDANDO , UMA “PEGADINHA DO MUSSÃO ” . . . ÔMI ! FORTE ABRAÇO !

  • Ana

    Querido Ricardo, como é bom ler os seus textos, você me fez volta lá trás….minha infância. adolescência…sonhos….alguns que realizei, outros que se perderam com o tempo…senti um que de nostalgia….

  • Constant Ramos

    Blz. Todos nós temos o nosso baú. Gilvan é o retrato daquele profissional que saiu de cena com o sentimento do dever cumprido. Os homens de bem sempre viajam primeiro para a eternidade carregando seu baú. Os que não são? Esses podem viajar sem bagagem envergonhados das suas torpezas. É lamentável que no atual contexto terreno o mal continue predominando sobre o bem. Um dia haverá uma reviravolta que ficará guardada no baú do tempo.

  • Adriel Batista Correia de Melo

    Maceió,31 dfe março de 2014

    Bom dia Ricardo !

    Eu me lembro que neste dia há 50 anos,eu tinha 13 a-
    nos de idade e me recordo do “golpe” de Estado.Posso te
    garantir que não há preço pela liberdade.Eu não sinto a me-
    nor saudade daqueles tempos terríveis.Apesar de não gostar
    nem um pouco do tal Socialismo,os esquerdístas tiveram ra-
    zão,pois o Brasil sempre foi(e ainda o é),um país injusto.Uma
    nação para poucos.

    ADRIEL BATISTA CORREIA DE MELO