Descobri, tardiamente, que aquilo que eu queria mesmo era beber o leite das coisas. Sabê-las por dentro, o que as fazem vivas, se vivas, ou inertes, ainda que remexidas pelos tempos.

É claro, não haveria grande chance de dar certo.

Cada coisa tem sua essência, que lhe sustenta a permanência, quase sempre inacessível, principalmente se trouxer em seu interior uma alma, mesmo se exposta na vitrine.

Como não nasci com destinos alheios na minha cabeça, tive de me conformar em ver outras vidas, observá-las com sentimento mais do que com a razão, arredondar aqui e ali, mexendo só um pouquinho para que pareçam mais verdadeiras.

É assim que eu me passo, tantas vezes, como inventor de gentes, a quem eu dou uma vida curta, que dura apenas um só domingo (quem sabe se esse domingo).

Guardo inconfessável prazer ao constatar que alguém, do outro lado da tela, acredita que estou a fazer uma narrativa verdadeira, contando algo do qual fui testemunha ou até mesmo protagonista. E nem sempre, peço desculpas, é o que acontece.

Onde sou eu, de fato, onde me invento, em versão? Nem mesmo eu saberia dizer com exatidão. As memórias não pertencem de todo aos seus donos.

Eis um truque de prestidigitador aprendiz, a escrever palavras, parágrafos inteiros, sobre personagens que misturam a minha com outras histórias, essas que me são alheias, mas de cuja veracidade nunca haverei de ser capaz de duvidar. É como se estivesse, enfim, saboreando um pouco do leite desejado desde sempre.

“A arte existe porque a vida não basta” (Ferreira Gullar). Mas que vida basta a si própria? Os vazios, que nunca deixarão de existir, nos remetem à fantasia, ao enredo verossímil, ainda que não inteiramente verdadeiro.

Não há mentira na ficção. Ela nos desvela, tão somente, um mundo externo que já habita dentro de nós, sem comunicar presença. Quando ela chega e nos toca no íntimo terá sido porque há, ali, no texto, no subtexto, nas entrelinhas, alguma relevância que nos parece inteiramente possível numa (in) certa existência, seja de dor, seja de alegria.

É uma travessia que não acaba nunca.

Então, eu sigo inventando, mentindo para ser o mais verdadeiro que a minha alma, de pouca valia, exige.

Sinto-me queimar de febre, desfazer-me em suor, para ter à minha frente uma vida construída ao meu gosto ocasional. Sabendo que a fome volta, porque insaciável é o apetite pelo que ainda não foi dito ou narrado, mesmo que de pura invencionice.

Se eu vou – bem lá na frente, espero – morrer faminto? Pois será essa fome, do leite das coisas, que sinalizará o quanto ainda estou vivo.

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  • Valdemir

    acesse o link abaixo, vejam a enquete mostrando quem foi os piores e melhores; há políticos alagoano presentes.
    http://blogmiltonneves.bol.uol.com.br/blog/2013/12/29/os-melhores-de-2013/

  • JEu

    A arte é uma coisa ao mesmo tempo impalpável e concretamente real… me parece. Escrever é uma arte. Arte da alma, da mente, que mente e desmente para ser real, verdadeira… me parece… E ela (a arte) só é verdadeira, real, concreta, quando reflete o ser real, verdadeiro, concreto (e imaterial)… o ser humano… Mas será a arte um produto exclusivo da mente que a idealiza ou será algo mais “intuitivo” como uma “antena” a captar os sonhos mais reais do artista em sua irrealidade humana? Não sei, quem pode saber? Porém, se a arte (de escrever, no caso) alcança verdades reais humanas, donde veio tal “inspiração”? Quem poderia saber ou imaginar?… Talvez tenha razão o artista que afirmou: “há mais mistérios entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia!”… Parabéns pelo texto deste domingo Ricardo. Minha única dúvida é: será que somos responsáveis pelos efeitos que possamos causar em outras pessoas (efeitos tanto positivos quanto negativos) quando, pela arte de escrever desvendamos a alma (ou sentimentos) alheios?…

  • Antonio Carlos

    Prezado Mota, nas vivências narradas, nas fantasias criadas, nos enredos dos bons filmes, nos livros, na arte, nas divagações, nos sonhos, enfim, podemos viver outras vidas. Parabéns pelo último texto do ano nos dias de domingo. Aguardaremos quando fevereiro chegar, se a saudade não matar agente. Valeu por mais um ano.

  • AAraujosilva

    Gostei, meu caro Ricardo!
    Não é que sempre procurei ‘beber o leite
    das coisas’, adoidadamente … Ah! Por
    certo, é por isso que eu não invento, eu
    aumento …

  • SEBASTIAOIGUATEMYRCADENACORDEIRO

    MAIS UM BELO TEXTO, MATÉRIA ; TODAVIA EU PREFIRO
    ACEITAR QUE O PERSONAGEM CENTRAL , LACTENTE
    COMO UM “CABOCO MAMADÔ ” , SEJA O INTRÉPIDO
    NAVEGADOR DO ESPAÇO INTERIOR , QUE TODAS AS
    SEMANAS , NOS BRINDA COM SUAS PAIXÕES E SUAS
    ELOCUBRAÇÕES , QUE , GUARDADAS AS RESPECTIVAS
    DIMENSÕES , SÃO PRODUTOS DA FERMENTAÇÃO GA –
    LACTA , OU GALÁCTICA , OU DE AMBAS … APRECIO O
    FLUXO DESSA GALACTORRÉIA ( NOSSOS IRMÃOS IN –
    TERNAUTAS TAMBEM , CREIO EU ) . JÁ BASTA VIVERMOS
    DESMAMADOS DE OUTROS PRAZERES , QUE POR DI –
    REITO ELEMENTAR , DEVERIAM CONSTAR DE NOSSO
    CARDÁPIO … MESMO SE SUSPEITANDO , QUE SEJA UM
    LEITE DERRAMADO . . . ATÉ A PRÓXIMA GESTAÇÃO ,
    MATÉRIA . . . BEIJO NO SEIO ESQUERDO (CORAÇÃO) . . . ÔMI ! EU HAVIA PREPARADO UMA MINHA RETROS –
    PECTIVA DE 2013 , COM ALGUMAS FRASES E TRECHOS , DE COMENTÁRIOS CRÍTICOS E CÁUSTICOS ,
    QUE OUSEI DIVULGAR NESTE ANO QUE FINDA ( E JÁ
    VAI TARDE ! ) , SOBRE A NOSSA TRÁGICA REALIDADE
    SÓCIO-ECONÔMICA-POLÍTICO-CULTURAL . . . BASTA ,
    POR ENQUANTO . . . !

  • Katia Betina

    Ricardo, sempre leio vc e sempre é um prazer mergulhar nas suas palavras, repito isso sempre a Tania, me ajuda a alma. Parabéns e obrigada. Feliz Ano Novo.

  • Ricardo Gois Machado

    Continue assim, “inventando, mentindo para ser o mais verdadeiro…” pois suas “invenções”, suas “mentiras”. lidas e relidas, esse personagens que misturam sua vida com as alheias são muito mais reais, muito mais concretos do que se pode imaginar.
    Esses personagens somos todos nós, viventes anônimos. “Não há mentira na ficção”.
    Como sempre, aguardo seu texto no próximo domingo. Até lá.

  • maria auxiliadora araujo

    Continue Ricardo a sorver e a nos fazer sorver o leite das coisas, continue no faz de conta da vida ,seja o Dom Quixote de seus fiéis escudeiros dos domingos…Permita que nós, leitores, continuemos juntos e misturados aos seus devaneios, aos seus receios , à louca camuflagem que vc faz da vida na tentativa de torná- la mais viva …Que venha 2014 com os seus desafios e com vc nos brindando com o faz de conta da vida . Mais uma fiel domingueira .

  • Anthony

    “O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.” E assim somos nós…O ano está acabando…seria mais ou menos um?