Quem conhece um pouco do que foi a Revolução Cultural da China (1966 a 1976) há de estranhar o lirismo de A árvore do amor, belíssimo filme sobre um episódio trágico e sangrento da existência humana. Mas ele está ali, em presença definitiva e reveladora. 

Só veio a confirmar uma certeza que carrego: as grandes tragédias são deslindadas a partir de pequenas histórias individuais. No caso, mostrando a crueldade de um ditador que “amava a Humanidade”, mas ignorava os sentimentos dos seus semelhantes.

O filme (chinês)? É assistir, com a alma em enlevo.

Este é apenas um exemplo de como a arte, em um enredo que há de parecer até despretensioso, pode contar os acontecimentos mais expressivos e importantes, ainda que dolorosos, pelos quais passamos como espécie.

Haverá algo mais pungente do que a história da mãe, morta em vida, de A escolha de Sofia (livro e filme)? Está ali, como em poucos relatos, o quão devastador e perverso foi o nazismo.

Os indivíduos, eles, nós, compõem o que chamamos de humanidade. E a arte nos coloca dentro do fato histórico com uma naturalidade inimaginável nos livros documentais, cheios de números e circunstâncias – tudo necessário, que não restem dúvidas, para entendermos o que fomos e somos, persistentes na repetição dos erros.

Uma dor única, pessoal, exposta em uma criação imaginária, pode representar a dor de milhões. Eis um segredo revelado pelos artistas que mergulham na alma humana.

Com a literatura também aprendemos a passagem de tantos momentos da história do homem, sem que a narrativa siga o rigor dos que se debruçam sobre os grandiosos episódios, a interpretá-los e situá-los em um dado momento.

Uma inquestionável confirmação: Il Gattopardo (O Leopardo, livro de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, que também virou um ótimo filme).

Se a obra não trata exatamente de uma tragédia, mostra o irrefreável avanço do capitalismo na aristocrática Itália. O protagonista a se deparar com a passagem do tempo, pessoal e histórico, nos conduz ao processo inexorável de transformação do mundo, resultado da ascensão da burguesia na Europa envelhecida e apodrecida por um poder carcomido e até então inquestionável.

Nenhum livro de história haveria de ser capaz de nos fazer compreender, com tanta emoção e clareza, os rumos que a civilização perseguia, dilacerando a alma do “príncipe”, derrotado ao final pelo surgimento de uma nova era. Seu sofrimento expunha o de tantos dos seus iguais.

Haverá também, imagino, a melhor síntese do amor, busca frenética de cada um em qualquer tempo. Será primazia da arte desnudá-lo em cena única.

Acredito que já me deparei com ela, em um dia irreplicável, da minha insignificante existência.

Era um olhar, apenas e tão somente.

Descrevê-lo me é impossível. Mas ele estava ali, a ensinar que o amor abdica das palavras para dizer o que é de fato essencial.

Quem bater de frente com este sinal há de reconhecê-lo como a mais singela e definitiva tradução do sentimento que recompensa com sobras as dores da alma. 

 

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  • JEu

    Excelente tema para um domingo, quando se tem um pouco mais de tempo para refletir sobre si mesmo: este “ser humano”.
    É verdade que, de tempos em tempos, o homem (humanidade) parece repetir os mesmos erros, como se nada tivesse aprendido com os exemplos históricos que, gravados na memória, na cultura e nos escritos dos povos, estão alí para reavivar os sentimentos, muito humanos, das grandes tragédias dos povos e das “pequenas” tragédias da cada um, destacando os sofrimentos e as dores vividas por todos e por cada um, como resultado de nossa ignorância, de nossa imprevidência e, mais ainda, de nossa incapacidade de amar a nós mesmos e ao próximo. Por isso mesmo, destaco aqui o inolvidável exemplo de vida, amor e sofrimento pela humanidade, cujos ensinos mudaram para sempre o modo de ser e de pensar de todas as civilizações após seus passos sobre esta Terra. Ele foi só um filho de carpinteiro. Não possuía nem ouro nem prata, nem ao menos uma “pedra” onde descansar a cabeça. Parecia frágil por fora, porém, sua palavra e seus exemplos de amor por seus irmãos (e irmãs) em humanidade excedeu todo e qualquer limite do tempo e do espaço neste mundo e legou para a posteridade a certeza de que podemos transformar para melhor, a partir de nós próprios, a nossa convivência, a nossa sociedade, a nossa maneira de pensar e viver esta “vida”…. para tudo isso só precisamos “amar o próximo como a nós mesmos”…

  • vera

    A arte é a maior revelação humana. Expressa aquilo que teimamos em negar, ainda que em nós mesmos. Eis um texto que lhe dá a merecida dimensão. Parabéns.

  • Diva

    “Quem bater de frente com este sinal há de reconhecê-lo como a mais singela e definitiva tradução do sentimento que recompensa com sobras as dores da alma”.
    Só a arte para decifrá-lo, meu caro amigo.
    Ótimo domingo pra você.

  • Antonio Carlos

    Prezado Mota, a arte ajuda a suportarmos a vida com a sua beleza, fazendo a nossa sublimação. Belo texto. Valeu.

  • Rivanilda Nemézio de oliveira

    Sempre vejo seu blog,nunca comento,mas hoje tocou a minha alma porque como tantos carrego dores e a arte alivia.Bom domingo.

  • Noélia Costa

    Belo texto amigo jornalista Ricardo Motta!Parabéns!Existe um livro muito bom, ” A Cabana”,li esse livro em um momento muito triste em minha vida,é um livro de reflexão,muito bom!Aproveito para convidar seus leitores para irem ao evento dia 5 de dezembro as 9:30 no auditório do tribunal de Justiça de Alagoas,enfrente a praça Deodoro!Esse evento é uma realização do Tribunal de Justiça de alagoas e do Fórum de combate ás drogas! Com o tema”O Poder Destruidor do Crack”,um evento feito de amor e união!Palestra e Depoimentos! Venham dizer não às drogas!

  • Luiz Carlos Godoy

    De fato, “O Leopardo, como todos os filmes do genial Luchino Visconti, é um convite à reflexão acerca da nossa existência.
    Nessa toada, creio que a arte nos instiga a sair do ansiado e proclamado seguro (mas também letárgico) “caminho do meio” (“Deus vomitará os mornos” – Apocalipse, capítulo 3, versículos 15 e 16) e ir para o caminho RADICAL (na acepção da origem etimológica da palavra, registre-se). Como diz a música: “Eu devia ter me arriscado mais…”
    A vida miserável de uma família de retirantes sertanejos na obra “Vidas Secas”, por exemplo, (que continua sendo ignorada pelos bem nascidos em terras caetés) é um outro exemplo de “tapa na cara”. Ainda são muitas as “Sinhás Vitória” que sonham em dormir em uma cama de couro como a do Senhor Thomas de Balandeira.
    Vidas sofridas como a de Sinhá Vitória deveriam ser o combustível que nos alavancaria da mornidade mediana fundada no tripé sobriedade-prudência-comedimento (constantemente refreada) para a real virtude, que é a radicalidade.
    “Eu sei por que motivo o meio-termo não é seguido: o homem inteligente ultrapassa-o, o imbecil fica aquém” (Confúcio).