A mulher à minha frente falava alto ao telefone. Não escondia a sua contrariedade na caminhada noturna pela iluminada noite da orla de Maceió. Quase vociferava:

– E se ele for de Capricórnio?

Seria uma pergunta importante, imaginei, pelo ríspido diálogo: alguém deveria estar do outro lado. E se ele fosse mesmo de Capricórnio? Eis a questão que parecia fundamental no desfecho do bom combate.

Recolhi-me à minha profunda ignorância sobre o tema. Eu nasci Peixes, aprendi desde cedo, homem de muitas emoções, me disseram, e por elas levado. Sim, sou esse bicho um tanto sentimental, “sentimentaloide”, numa forma quase acusatória sobre a minha essência anímica, dizem de mim os inimigos ou os amigos mais sinceros.

Há algo, sempre cri, de uma ascendência genética, que leva à inevitável descrição do personagem que se inscreve na minha conhecida (para os mais próximos) personalidade – exposta numa vitrine que eu até evitaria, se possível.

E se eu fosse de Capricórnio, teria cascos fendidos, prenúncio do demo, ou chifres que denunciariam o meu fracasso de amante – ou a inevitabilidade do desencontro com a mulher amada, ela a buscar algo melhor do que posso oferecer?

Eis que choro ao triste e ao alegre. Haveria de ser diferente se os planetas apontassem – sem trocadilho – outro caminho quando nasci? (Aquela mulher, sim, me foi infernal numa noite tropical.)

Não imagino que sendo neto do seu Antenor, avô materno e emotivo, e filho do seu Luiz Mota, que chorava pelo sorriso, eu pudesse ser de outro jeito – ou signo? – e ter nascido não em março, um mês insosso, nem verão nem temporada de chuva por essas plagas, mas em outro qualquer: um dezembro ou um junho, tempos de calor ou de água desembestada. 

Voltando ao caso em estudo.

Se tivesse vindo ao mundo, vasto mundo, sessenta e poucos dias antes, eu talvez pudesse entender o inconformismo daquela voz, a me parecer então tensa o suficiente para prever um desastre astral.

Eis que se me apresenta, em retrospectiva, um destino planejado para me fazer assim: um bicho de lágrimas fáceis, o coração mole, relutante e reativo. Tudo por causa daquele instante (vocês, safadinhos, bem sabem) de projeto e ação. 

Respeitosamente, imagino com algum pudor filial, que o casal resolveu numa específica e estudada noite – ou terá sido dia? – dar origem (biológica, sem sacanagem) a um garoto briguento na infância, choroso ante a primeira reprimenda e que haveria de vagar pela Terra em busca de algo que o desmanchasse em choro: de dor, de alegria ou simplesmente por alguma beleza que o fizesse entalar uma palavra (mal) dita.

E se, simples assim, eles tivessem antecipado o princípio – científico, ainda sem sacanagem, certo? – deste que vos fala: seria eu magro, escurecido, um ser desprovido de tibiezas anímicas, pragmático, objetivo e talvez mais ambientado aos dias que se passam (é o que diz o Google sobre o indigitado)?

Até tive vontade de indagar à preocupada caminhante: e se o tal for mesmo de Capricórnio, que alma possuirá, a que destino haverá de se curvar? Ah, quanta ignorância a minha sobre a sentença dos astros!

Mais do que a minha timidez, naquele momento foi o meu medo de questionar sobre o que sou e não identifico que me fez calar: e se ele fosse de Peixes, haveria salvação, para ambos ou pelo menos para um deles?

 Sim, porque se eu sei tão pouco – e vai piorando com o tempo – sobre os desígnios terrenos, menos ainda posso querer desvendar acerca do que orbita lá pelo alto, onde a minha vista não alcança e que determina o que aqui somos e seremos.

Quem sabe um dia eu possa revê-la, a sábia mulher do zodíaco noturno, celular ao ouvido, olhos esbugalhados, a indagar: “E se ele for de Peixes?”

Pelo menos já imagino: há de ter mordeduras amenas, desde que não seja um tubarão, não há de provocar grandes estragos na presa e não atacará com a contundência de um ser nascido em Capricórnio – pontiagudo e perfurante (objeto de estudo em qualquer IML).

Lembrando, para que não sobrem mágoas: o sujeito ou “a sujeita” já nasce com pontas, em sendo do signo mencionado. É o que está escrito nas estrelas, elas próprias pontiagudas e não menos definitivas aos gozos e percalços que advirão da dolce vita (ainda que amarga).

Atenciosamente, um Peixes de Aquário.

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  • Anthony

    Eu sou de Capricórnio!De janeiro. Terceiro decanato, por isso, com alguns traços de Aquário. Bom domingo!

  • Maria Aparecida de Oliveira

    meu amigo, eu nasce em 12 de janeiro, assim como você estou ciente da minha ignorância sobre os signos, ou seja lá o que for, já passei dos 5.0 e até hoje passo as mãos na cebeça e não encontro chifres, nem aqueles que dizem que os “companheiros” colocam, o atual também nasceu em 14 de janeiro e também não tem chifres, mas assim como eu ele é bastante determinado e muito amigo, um beijo. EWm tempo. no meu site na terça-feira tem um artigo em nossa homengame atingidos pela censura, é que a tvcom rescindiu meu contrato porque segundo a sua diretoria “eu estava falando muito mal dos companheiros do PT” A

  • Noélia Costa

    Lindo texto! Sou do signo de Peixes,e realmente somos sentimentais,sonhadores,acreditamos em quase tudo,somos seres apaixonados pela vida! Parabéns amigo jornalista!

  • JEu

    Eu somente me pergunto? Se o tal do zodíaco tem somente 12 signos (a maioria com nomes de animais), o que dizer dos outros quase sem número de animais não representados? Isso é discriminação… Seria menos preconceituoso ter um signo para cada dia ou, quem sabe, para cada hora de cada dia… A astronomia já enxergou que os quadrantes estelares também mudam, pois tudo se encontra em movimento no Universo (conhecido)… Onde então está a tal ciência (que deve ser lógica) da astrologia?…

  • Carlos Enoch Barros

    Querido Ricardo, sou capricorniano, e o temor dela era a nossa determinacao, arrogancia, autoritarismo e dominação. Temperamento fortíssimo, gênio irracivel, era esse o temor da dita mulher.

  • jane de melo

    É Carlos Enoch Barros,talvez ela não soubesse que o único signo que se entrega à paixão e ama verdadeira e fielmente é o signo de capricórnio, é tudo isso que você citou, e mais ainda, o mais confiável do zodíaco.Texto ótimo, Ricardo Mota, apesar que é redundante dizer isso do seu texto. Bom domingo!

  • maria cornuda

    Boi , boi, boi… boi da cara preta pegue essa coroa que tem medo de careta! rsrsrsrrssrsrsrsrs. Sou sua fã Ricardo.

  • Luiz Carlos Godoy

    Sou de sagitário (09/12), cavalo da cintura pra baixo (modéstia às favas!).
    “Cabeça em pé de guerra mansa”
    http://www.youtube.com/watch?v=feTysd3dwgI

  • Zanza

    O que falar de mim, ter que aturar o estigma do Escorpião?!?! Kkkkkkkkkk

  • Celso Tavares

    Ricardo,
    Imagino o concilíabulo dos entes naturais que definiram os caracteres desses bilhões de terrestres!
    Não sei sea um sagitariano pode desejar um grande abraço, mas de qualquer forma…
    Celso

  • maria auxiliadora araujo

    Houve um tempo, meu caro jornalista, em que eu respirava o que meu signo ditava;era na juventude onde, para o virginiano, tudo tinha que ter uma explicação racional, tudo devia beirar o perfeccionismo. Hoje, passo batida pelos signos, seus significados mas, admiro a sua capacidade de transitar , com tamanha desenvoltura ,por todos os saberes e dizeres que tocam o ser humano . Poética e instigante a sua curiosidade .