Não há ficção que seja impossível à capacidade humana de perpetrar o mal. Ainda que duvidemos, mesmo que rejeitemos a crueldade, nada será capaz de fazermos do altruísmo e da bondade as marcas maiores da nossa pequena existência como espécie.

Eis que me chega uma notícia que já carrega em si, pela simbologia, um mar de dores. Ouço-a com perplexidade, quedo-me imóvel e mudo.

Foi no interior da China. Um garoto de oito anos choramingou no colo da mãe porque já não mais podia “ver o dia amanhecer”. Nada mais triste, para quem conheceu os belos quadros que a Natureza pintou, do que deixar de contemplá-los.

Ficara cego, o garoto, está claro. E da maneira mais cruel que alguém possa imaginar. Se é que a imaginação pode se antecipar ao fato, no caso: seus olhos haviam sido arrancados por uma quadrilha que comercializa órgãos no “império” da Grande Muralha.

É possível que outra pessoa, agora, esteja vendo o dia amanhecer com os olhos do menino triste. Para ele não haverá mais o sol a oeste rompendo a escuridão do mundo. Seus dias serão apenas noites, que nunca mais se desmancharão em cores que não as da lembrança.

Perder é muito pior do que nunca ter tido, eu bem sei.

O garoto chinês, de alma dilacerada, um assum preto em forma de gente, não conhecerá os traços da mulher amada, não saberá do sorriso do filho, não sentirá as lágrimas da mãe, ao longe, em prantos pela despedida do seu amanhecer, que era seu e não será de mais ninguém.

Tudo que o amanhecer poderia lhe revelar fartamente, sem avareza, por dispor de todas as riquezas possíveis, tornara-se ausência abissal.

Seus olhos, onde estiverem, não haverão de reconhecer aquilo que só ele desvendou. Terá sido, embora por tão pouco tempo, o único ser vivo que viu o amanhecer do seu jeito, definitivamente irreplicável.

Os olhos, sem o menino, serão outros, como se nunca tivessem existido. E nenhum novo amanhecer, por mais que tente se repetir, copiar os que já ficaram para trás, será igual àquele que só o menino viu.

Repetir-se, tediosamente, perversamente, parece que só mesmo a estupidez humana.

Lombada não freia a ação dos assassinos do trânsito
Por que covardes e canalhas só atuam em bandos
  • Antônio Carlos.

    Prezado Mota, como Freud já nos deixou a frase marcante sobre o humano “nada que vem do humano me causa espanto”. Tem maior miséria do que somos como humanos vendo estes acontecimentos. Triste.

  • jane de melo

    Belíssimo texto, carregado de poesia! Obrigada,Ricardo Mota,
    pelo presente aos meus olhos e alma, numa manhã, quase considerada entediada, de domingo. Que bom contemplar o amanhecer.

  • Rosa Borges

    Há poesia na dor? Eis que sim. Tocante e emocionante história,com o lirismo do poeta de domingo.
    A sua dor é a minha dor.

  • ROBSON FARIAS.

    MAGNATA DA ESCRITA! QUAL A CIVILIDADE QUE DEVEMOS TER PARA “BUSCAR DEFINIÇÕES” DESSA ESPÉCIE? POR ISSO,SOU FÃ DE HAMURABI.

  • maria auxiliadora silva de araujo

    Já espero, com ansiedade, a poesia do domingo do RIcardo Mota .Hoje, com grande nostalgia, agradeço a Deus ter olhos para ler tão doído texto…

  • Ir.Sandra

    Caro Ricardo, mais uma vez você nos impressiona com a forma clara e transparente de expressar fatos e sentimentos. Sua indignação cheia de compaixão leva-nos a fazer também a mesma experiência.Claro que de maneira única e pessoal.Somente pessoas profundamente sensíveis são capazes de adentrar no coração humano. Deus o conserve atento e solidário à dor que dói no mundo.

  • anderson dantas lira

    Caro Ricardo, dá para sentir: palavras carregadas de comoção! Se não fosse tão triste a história, queria não esquecê-la jamais! Até onde vai a estupidez humana? Que pena somos tão humanos.

  • Amélia Sandes

    Li a matéria e vi a foto do garoto e sua mãe. Fiquei tentando imaginar o que move um ser humano à perversidade. Fechei meus olhos e senti um mínimo da dor daquele garoto. Não ver me parece desesperador. Talvez a dor maior esteja com aqueles que não conseguiram impedir que um inocente fosse tão castigado.

  • Noélia Costa

    Lindo Texto! Triste realidade da vida,infelizmente o ser humano é assim – a maldade ,a perversidade,enfim a falta de amor ao próximo.Hoje vivemos um Mundo Perverso,mas temos sempre a esperança de um Mundo mais sereno e terno!

  • Fátima Almeida

    Que texto perfeito,meu caro Ricardo. Que retrato realista e sensível de tamanha dor, consequência de tamanha crueldade – que mais parece (quem dera fosse),obra de ficção. Ê mundo cruel!

  • Luis Antonio Anjos

    Obrigado pelo belo texto (poesia triste) que retrata a monstruosidade humana que é aceita pela grande maioria deste mundo sem porteira

  • Francisco Alencar

    Caro Ricardo, lutemos juntos contra a imensa cegueira que furta os olhos da infância e faz doer a inocência que procura a luz que jamais verá.

  • Zanza

    Triste. Hoje esta crônica , tao cheia de dores, coincide com o fim da historia, nesta terra, de outro “filho”… hoje, o sepultamento do filho de um dos maiores educadores do nosso estado: Falone Tenorio. Ambos vitimas do mais baixo nível da raça humana!!! Conforta- nos, ó, Pai !

  • Allan Lessa Santana

    Exímio texto! Faço uma analogia ao fato lamentável que ocorreu na madrugada de sexta feira com meu amigo-irmão, Nikael…Palavras já não surtem mais efeito. Pois o homem com alma de menino já se foi. E nada fará com que ele veja novamente o nascer do sol. Somos muito imperfeitos para crermos em uma justiça humana. Mas que seja feita a justiça do Senhor!

  • Thiago Dos Santos Ribeiro

    Lendo,percebi o quando o ser Humano é cruel. É triste saber, que pra outra pessoa enxerga outra vai ter que ficar sem ver nada,o capitalismos fazem com que o verdadeiro cedo seja os Ladrões,que tiram deles a alma e seus sentimentos e passem a enxergar só o dinheiro que irá ganhar,sem se preocupar se aquele menino nunca mas vai ver o amanhecer…
    Cada dia que passar o ser Humano da deixando de ser racional…

  • ANA MARIA NUNES

    É assustador comprovar o quão fino é o verniz que esconde a barbárie humana. Essa monstruosidade feita ao garotinho foi perpetrada por pessoas ( ?), imagino eu, consideradas civilizadas, inseridas num ambiente social. É pior que filme de horror.