E se eu fosse o louco da cidade? Sim, e por que não? Todas as cidades, no mundo inteiro, têm os seus loucos. Eles servem para que as outras pessoas, ao vê-los, se sintam normais e resgatem a autoestima que imaginavam não mais ter. Assim, para que uma cidade seja sã precisa ter o seu louco. 

Só há vantagens no projeto: é o ganha-ganha. Aliás, eu só não sei por que a loucura privilegia tão poucos.

Eu poderia dormir na praça, em meio aos cães, todos em volta, carentes que são do carinho humano. Adoráveis tolos! Nas noites de frio, os seus pelos me serviriam de manta. Quando fosse temporada de calor, com esperteza, lhes faria um agrado e eles abanariam os rabos – pequenos e delicados ventiladores.

Esqueceria para sempre todas as regras da etiqueta. Comeria com os dedos, fazendo bolinhos com o bem-mole que me dariam, tomaria água com as mãos em concha, como quando era moleque a me espalhar e sumir no oco do mundo: “Você é doido, menino.” Pois é, de repente poderia ter dado certo, mas eu reneguei o vaticínio. Por algum tempo, como bem se vê.

A garotada, ao passar de volta da escola, zombaria de mim, faria algazarra, eu correria atrás da tropa a jogar pedra – todo louco joga pedra –, num ritual que se repetiria de segunda à sexta. Nos finais de semana, descansaria. Essa é a lei dos homens respeitada até mesmo pelos loucos.

E se as moças bonitas andassem por ali não me veriam, mas eu voltaria os olhos para elas, de esguelha, dissimulado. Não as teria nos braços, é certo, mas quem há de saber o que vai na cabeça de um louco? De repente, ele vive uma realidade que para nós, do lado de cá da fronteira, é apenas um sonho.

Seria ignorado pelos homens importantes, engravatados e solenes, que nem ao menos dirigiriam a mim um gesto de desprezo, de nojo ou algo assim. Seria visto, porém, pelos pequeninos melequentos nos braços das mães, olhares espantados em evidente perplexidade ao se depararem com aquele ser estranho coberto de trapos e com postura majestosa.

Os mais velhos sabem que a loucura não é contagiosa: “Não pega”, garantiriam do alto da sua autoridade adquirida. Mas haveria sempre uma balzaquiana a passar pela praça, as ancas em expansão, os peitos querendo romper a sufocante prisão. Ela? Fingindo medos em gritinhos quase sussurros, audíveis o suficiente para que o garanhão ao derredor lhe oferecesse segurança e lhe fizesse a corte. Retornaria para casa feliz em saber que foi desejada por um curto momento que fosse.

E o melhor de tudo eu deixo para o final: estaria livre da loucura ao sentir as dores e misérias dos homens.

Almeida faz cirurgia em São Paulo e passa bem
Uma câmera na mão e uma má ideia na cabeça
  • joao robson farias de almeida

    MAGNATA DA ESCRITA!QUE INSPIRAÇÃO MÍSTICA,GENIAL.

  • Clara

    Lírico e delicado. Para degustar.

  • THEO OLIVEIRA

    MAS LOUCO É QUEM ME DIZ, E NÃO É FELIZ…………

  • Japson cavalcante

    Dez, nota dez!

  • Noélia Costa

    Belo Texto! Feliz Páscoa!

  • Paulo Rostner de Olivença

    Bravíssimo, Ricardo!
    Que atire a primeira pedra quem nunca teve o seu momento de loucura…ou melhor, não atire pois só os loucos praticam esse ato!
    Nesta sexta-feira da paixão, ao parar o carro numa farmácia da Pajuçara, me deparei com uma criança moribunda deitada na calçada, e ali fiquei por alguns segundos, parado, observando, impotente, sem saber o que dizer e nem o que fazer, esperando um suspiro da criança para saber que ainda estava com vida. Foi aí que percebi que eu era o louco do pedaço, pois todas as pessoas que adentravam à farmácia nem sequer tomavam conhecimento de que havia uma criança ao alcance de todos nós que somos considerados normais perante à sociedade.

  • JGFO

    DOIDO POR TÍ;LOUCO PRA SER DESREGULADO DA IDÉIAS, ABESTALHADO… QUANTOS DE NÓS FICAMOS APRENSIVOS COM A OPINIÃO DOS VIZINHOS, DOS COLEGAS DA ESCOLA, DO TABALHO, DOS PARENTES. AÍ UM DIA O MAIOR PISIQUIATRA DE NOSSA PROVINCIA SE ENVOLVE EM UMA VIOLENCIA DOMÉSTICA… ôGENTE MINHA IRMÃ RECEBEU AQUELE PROCEDIMENTO DELE:ELETROCHOQUES(A GENTE VISITAVA ELA – NUM QUARTO DA CLINICA PROSTRADA NA CAMA, TODA SE TREMEDO RINDO FELIZ, DIZENDO QUE NÃO QUERIA APERREAR PAPAI POR CAUSA DO TAL AMOR IMPOSSÍVEL ( ISTO NA DÉCADA DE 1970).
    SEU LOUCO NÃO É TÃO INESQUECÍVEL QUE NEM O NOSSO ( QUANTAS FAMÍLIAS PASSARAM POR ISSO ) OBRIGADO PELA HOMENAGEM NESTA NOSSA SEMANA SANTA. DEUS ABENÇÕE A ELES ONDE ELES ESTEJAM…)

  • Rosangela Santos

    Bárbaro,Ricardo.
    A sanidade, às vezes, faz-nos sofrer com coisas tão dolorosas. Por outro lado, a loucura, destas, faria piada!

  • Douglas Alcântara

    RICARDO N SEI SE VOCÊ TEM ALGO A FALAR SOBRE O Q VOU RELATAR, MAS POR ADMIRAR SUAS COLOCAÇÕES ACHEI A PESSOA IDEAL PARA FALAR. BOM QUERO RELATAR AQUI MAIS UMA AÇÃO DA GRANDE POLÍCIA DE ALAGOAS. N PEGUEI A DITADURA MILITAR POIS ESTAVA NASCENDO QUANDO ESTAVA ACABANDO ERA PEQUENO, HJ PUDE VIVER O Q PASSAVAM NA ÉPOCA. AO SER REVISTADO NA ENTRADA DO JOGO CSA X MURICI LEVEI UM SOCO NO SACO DE UM “POLICIAL” DO BOPE Q ESTAVA FAZENDO A REVISTA, PELO SIMPLES FATO DE PEDIR QUE MANEIRASSE POIS DOEU ELE VOLTOU A FAZER A MESMA COISA E ACERTOU NOVAMENTE. EM SEGUIDA BATEU O BONÉ QUE EU ESTAVA NA MINHA CABEÇA E QUANDO FALEI QUE N ERA NENHUM MARGINAL PARA SER TRATADO DAQUELE JEITO OUTROS 03(TRÊS)”POLICIAIS” JÁ CERCARAM EMPURRANDO E GRITANDO E MAIS DIZENDO Q EU N IRIA MAIS ASSISTIR AO JOGO. ENTÃO ABISMADO C A ATITUDE VOLTEI A DIZER Q N ERA MARGINAL E QUE TINHA IDO ASSISTIR AO JOGO E IRIA ASSISTIR. FOI AI QUE UM PEGOU MEU BRAÇO E PUXOU PARA TRÁS QUASE QUEBRANDO E OUTRO PEGOU NO OUTRO BRAÇO LEVANDO P SALA E DIZENDO Q EU ESTAVA PRESO POR DESACATO A AUTORIDADE (KKK) FALEI Q N TINHA PRECISÃO DE ESTA QUASE QUEBRANDO MEU BRAÇO POIS N ESTAVA REAGINDO E RECEBI COMO RESPOSTA DEIXE QUEBRAR. A TEMPO VENHO VENDO A AÇÃO DA “POLÍCIA” EM JOGOS E O TEMPO TODO É PROVOCANDO, EMPURRANDO E ATÉ BATENDO EM TORCEDORES. N TENHO NADA CONTRA A POLÍCIA POIS ATÉ FIZ CONCURSOS PARA ENTRAR MAS O TRABALHO QUE ESTA SENDO FEITO N É DE QUEM TEM Q CUIDAR DO CIDADÃO DE BEM. A POLÍCIA PRECISA GANHAR O RESPEITO DA POPULAÇÃO E NÃO IMPOR AUTORIDADE.

  • Fátima Almeida

    É um poeta! Amei a loucura!

  • Alexandre Câmara

    Massa, Ricardo!

  • Ubirajara Fernandes Vieira

    Caro Jornalista Ricardo Mota, “Dizem que sou louco” feito você. Mas, “louco é quem me diz que não é feliz”.

  • Maria Julia

    Fiquei sensibilizada ao extremo com o texto por lembrar de Jesus Cristo e seus apóstolos, Sócrates etc e tal vistos, temidos como ameaça a sociedade- lembro também dos manicômios que estão lotado e pior muitos com esperança de sair, restabelecer-se e o mais importante que é se aceito pela sociedade e não palhaço da mesma que com tamanha ignorância são capazes de julgar suas mentes como normais. Piada mesmo. Melhor ter o louco da cidade que o bandido(a) da mesma.

  • Saulo Araújo

    Fantástico texto! Nos faz entender que a correria em que vivemos de nada vale!