Guardo, ainda, fragmentos do meu primeiro olhar para o mundo. Quase rente ao chão, não avistava nada além da pequena ponte de madeira sobre o riacho Salgadinho. Havia, sim, uma pequena depressão na calçada vizinha à minha casa, onde o velocípede de pequenas rodas tantas vezes emperrava, e meus braços miúdos, a muito custo, conseguiam superar.

A imaginação, entretanto, já me dava pernas de homem a varar um universo que me era desconhecido. Tempo de carinhos, afagos e, não esqueço, também de muito “não”.

Quando meu olhar varou quintais que não eram os meus, já corria pelas ruas, chapliniando a bola de borracha, as pernas velozes a me impulsionar em sonhos que ignoravam fronteiras. Tinha crescido tanto que o mundo haveria mesmo de ser pequeno para os desejos que carregava.

Havia, sim, os primeiros olhares furtivos, um peito que acelerava e ameaçava abandonar seu abrigo. Entre o suor e o sono, a vida trafegava ligeira, mas sem nenhuma pressa para sair dali.

Vieram outros amores e as certezas de que o que estava errado haveria de ter conserto, ante a disposição de quem não conhecia o impossível, ou dele desdenhava. A história existia para ser (re) escrita – e eu via com nitidez – pelos que desejavam um outro mundo. Não aquele, mixuruca, que pouco entregava aos que acreditavam merecer bem mais.

Havia, sim, a música que fazia trilha para cenas de paixão e guerra, pequenas batalhas, ambas, que deveriam prescindir de vitórias imediatas, definitivas  – elas viriam ao seu tempo. De convicções vivem os fortes. 

Mas quando dei de ver estrelas, tão afastadas do nosso já tão minúsculo mundo – para mim -, foi tempo também de rastrear a trajetória dos milhões que me antecederam.

Comecei, pois, a perder volume, tamanho, força, como se, num passe de mágica, encontrasse algo inimaginável, tão extraordinário, a ensinar que minha única vida não seria capaz de mover mais do que o vento impulsionado pelo bater das asas de uma borboleta.

Havia, sim, o rosto da morte. Que levou alguns dos meus, não satisfeita em  devorar Chaplin, Darwin, Rosa, Pessoa – todos imensos, mas  tão frágeis diante dela.
  
Quis, então, mirar a alma humana, talvez no meu último olhar de busca. Ver não uma – a minha, a sua –, mas aquela que sempre existiu desde quando se fez o Homem. E quanto mais enxergava, menos entendia. O que era luz virou breu. Meus olhos embaçados não vislumbraram mais o caminho a seguir.

Há, sim, os amigos, meus afetos, a música, o cinema, a poesia, os livros de aprender… E a boa certeza, das poucas que restaram, de que a vida vai continuar, mesmo que sem a minha presença.

Persisto, ainda. Mas estou algo convencido de que me darei por satisfeito se, ao fim, tiver legado ao mundo – mesmo aquele, lá da Buarque de Macedo – descendentes que possam ver mais do que eu, sabendo por onde trilhar. E que ajudem a refazer, minimamente que seja, o que chamamos de destino humano.

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  • José Jonatas de Almeida Mota

    Presenciei parte de suas colocações, vivenciei o rosto da morte como voce mui sabiamente relata de forma harmônica em sua crônica, mas a fila anda,acredito sim que você deixa um legado; não só para seus seguidores e admiradores, mas para esta sociedade hipócrita, apelidade de “democrática”, chega de tanta hipocrisia, mas vamos viver ainda muitos anos para ver onde vai parar este sitema de m…. Preceituado no nosso mundo HUMANO.
    A Buarque de Macedo, sim, tem sua história, sua igreja, a praia da avenida e outras mais. Com muita propriedae voce faz referência a musicalidade, leitura, palco de dantas inspirações, parabéns por suas colocações.
    Como diz o cantador e violeiro,Nilsons Chaves em de suas canções: “Não vou sair d’aqui deste lugar, pois os velhos de Brasília não são eternos”.
    Minhas considerações

  • Rosangela Santos

    Que belo texto! Comovente!
    Durante a leitura, fui vendo minha infância, ainda criança imersa na doce ignorância do que estaria porvir. Tantas dores; poucas ou tantas alegrias; muitas decepções.
    Hoje, mais madura , observo as crianças e seus largos sorrisos sinceros. O que a vida lhes reserva???

  • Joaquim Piraua

    Gostei Ricardo mota,suas reflexões sobre o inexorável,me fêz recordar minha infância.O tempo é nosso conpanheiro e amigo,passa por nos rapido e fagueiro,Na medida que vamos tendo a consciência da morte,deixamos nossa infância na lembrança e passamos para realidade, o tempo passa a conspirar contra nós.Passamos a correr contra o tempo em busca da felicidade,vem a velhice,a sensilidade;e o tempo?volta a ser nosso amigo na medida que esquecêmos dele e voltamos para o mundo espiritual.Parabens Ricardo Mota.

  • mirya ferro

    Você legou ao mundo essa sensibilidade que encanta! Quem dera todos pudessem definir o destino com tanta emoção….

  • Osvaldo Epifanio

    “Não se luta contra o destino; o melhor é deixar que nos pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos.” Machado de Assis (em “Esaú e Jacó”). Assim é o acaso: a mais inútil tentativa de acerto. O que somos (e seremos) para os descendentes não está sob nossas ordens. Há, acredito, uma simétrica pirraça entre os desejos e o espólio que oferecemos, na prática, aos filhos e amigos. A herança vem numa proporção incrivelmente igual (é uma tese, claro, mas em que acredito sinceramente). Os que ficam – e não são poucos – conservam para si a mesma medida desse legado. Quando chegamos ao fim da jornada, deixamos um conteúdo que apenas coube suficientemente no corpo e na alma. Pife.

  • AAraujosilva

    “Persisto, ainda. Mas estou algo convencido de que me darei por satisfeito se, ao fim, tiver legado ao mundo -mesmo aquele, lá da Buarque de
    Macedo- descendentes que possam ver mais do que eu, sabendo por onde trilhar. E que ajudem a refazer, minimamente que seja, o que chamamos de destino humano.”(R.M.)
    Ricardo, meu caro jovem, eu tenho pleno convencimento, também, me darei por muito satisfeito …

  • Soraya Wanderley de Mendonça Arecippo

    Muito bom texto, Ricardo!

  • Luiz Carlos Godoy

    Texto supimpa. Parabéns, Ricardo!

    Gostei do “chapliniando a bola de borracha”. Mas, na minha compreensão, o “ataque á jugular” foi: “De convicções vivem os fortes”.
    Exemplo de homem forte que vive de convicções é o advogado e ex-deputado federal José Oliveira Costa, razão da matéria publicada neste blog no dia 20/07/2012, qual seja: “Congresso Nacional e OAB vão homenagear José Costa” (http://blog.tnh1.ne10.uol.com.br/ricardomota/2012/07/20/congresso-nacional-e-oab-vao-homenagear-jose-costa/#comments).
    O cinema também já abordou tal tema. O filme “…E o Vento Levou” é um bom exemplo. Scarlett O’Hara (Vivian Leight), filha de um imigrante irlandês que se tornou um rico fazendeiro do Sul dos Estados Unidos é uma linda e mimada jovem criada no conforto da fazenda de seu pai, em Tara.
    Ocorre que, não bastasse o contexto da Guerra Civil Americana, sua mãe é morta, seu pai enlouquece, sua filha morre tragicamente e toda a fortuna da família é destruída. Ainda assim, Scarlett O’Hara (a patricinha na infância), transforma-se em uma mulher forte que enfrenta todas as tragédias impostas pela vida.
    O filme “Alice não Mora mais Aqui” também “é um primor de realeza”.

    No passo de “chapliniando a bola”, vou de outro súdito da rainha, Sir William Shakespeare:

    “Combater e morrer, é pela morte derrotar a morte, mas temer e morrer é fazer-lhe homenagem com um sopro servil.”

    Em homenagem às bravas Alice e Scarlett O’Hara: “Secret Love. Women the World”

    http://www.youtube.com/watch?v=qepG_pb_ZJ4

  • carlos alves

    Parabéns, excelente leitura da vida. Vivemos a cada dia buscando o novo e procurando entender a alma humana. Viva as crianças.

  • Carlos Henrique B. Santos

    Parabéns pelo texto amigo. Mais uma vez, você foi muito feliz ao retratar a sua(nossa) visão de vida.
    Acho que pessoas como nós (sem querer entrar no reino do céu) merecem ter descendentes que verão mais do que nós, e farão mais do que nós para mudar esse status quo.
    Forte abraço do amigo e admirador,
    Henrique P.F. Santos

    ET: Estou em Brasília. Qualquer coisa, é só falar.

  • Luiz Carlos Almeida Belo

    Caro Ricardo, parabéns! cada dia melhor, abraços, Luiz Belo.

  • Carlos o Chacal

    Que bom, Ricardo, que na sua infância você teve, também, muito NÃO, além de afagos e carinhos. Isso falta hoje na infância de muitos. Ensinar o NÃO pode não ser fácil, mas é uma grande forme de amor. É assim que se constrói o caráter, pois a vida é composta por pequenas e grandes decepções. Pobre de quem não aprender isso, ainda muito cedo, pelos primeiros professores: papai e mamãe.
    Você deixará um belo legado, sim, pois aprendeu o essencial: os limites que a vida impõe a todos. É desse aprendizado que nasse a humildade, virtude tão importante para a vida saudável (em todos os sentidos) quanto o amor.
    Parabéns e um abraço

  • Maria

    Excelente texto.
    Seu legado será propagado por um longo tempo.
    A alma humana, para aqueles que tem sensibilidade, sempre nos surpreenderá com suas nuances.
    Até nos darmos conta de que estamos todos juntos nesta estrada, em que aparentemente, cada um segue seu caminho.

  • maria lLúcia dos Anjos

    Excelente,parabénspelo texto!

  • Janderlyer Gomes

    Caro Ricardo, parabens por mais uma belissima crônica!!Daqui distante, nessa saudade sem fim de Maceió,vossos textos são sempre uma boa lembrança do que há de bom na terra das Alagoas…sabe bem que prefiro os textos assim…é crônica, mas parece poesia..Um grande abraço!

  • Maria Cristina da Silva

    É por essas e outras que admiro o cronista, o jornalista, o escritor, o poeta… seus textos nos traz à lembrança cheiros, sabores, cores e tantas outras sensações, descritas pelo seu traquejo com as palavras e sobretudo pela sua sensibilidade.