Uma das entrevistas que fiz e que guardo com imenso carinho, na minha memória afetiva profissional, foi com o escritor Antônio Torres. Ele já havia me capturado pela razão e pela emoção – o que os criadores buscam conquistar – com o seu romance “Essa terra”. Para mim, um clássico da Literatura Brasileira.

A conversa, assim defino, foi de um mestre na arte da escrita com um admirador de quem a domina. Disse-me, o sereno baiano do Junco, que o personagem central do seu romance foi criado a partir da vida real. Ele existiu. O escritor tratou de inventar o enredo que o levaria ao extremado ato – de se desfazer da própria vida. O quê? É lê-lo e entendê-lo.

Eis o poder fantástico da Literatura: elaborar, como um deus, destinos verossímeis, mesmo que surpeendentes, sem perseguir o que pode parecer mais fácil ao leitor. É um dos segredos dos grandes.

Ariano Suassuna nos alertou, lá atrás: escrever é prestar contas à própria infância. A arte não se inventa do imaginário – dele se utiliza para refazer o real. Em interpretação livre, é criar a partir do que o mundo à nossa frente nos dá a conhecer. Assim fez Antônio Torres; assim fizeram tantos outros a quem reverenciamos, por sedutores.

Na mesma senda seguiram autores em várias línguas – todas humanas. E aí nos deparamos com Ian McEwan,  inglês, no seu notável “Reparação” (virou um filme: “Desejo e reparação” – quase tão bom quanto o livro. Eu disse: quase). Ele pôs a ficção dentro da ficção, narrando a vida de uma escritora que, no outono do seu tempo, resolve reconstruir o destino de alguns personagens que sucumbiram à infelicidade. Se, na “vida à vera”, eles tiveram um fim trágico, ela refaz as suas trajetórias para dar-lhes a dignidade e o conforto do amor de que tiveram de abrir mão – e pagaram caro por isto – por um erro cometido pela “autora” do livro. O mais perfeito elogio ao poder da Literatura que pude conhecer até os dias de hoje.

Vira a página.

O “maldito” Lima Barreto, em seu primeiro livro publicado, “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, conseguiu dissecar, com as tintas do criador, as personalidades de uma redação de jornal – O Globo – num roman à clef (com base na realidade – coisa de francês). Traços que se reproduzem ao estender dos tempos: tediosa é a Humanidade, a se repetir nas virtudes e nos  vícios.

Era um ato de vingança, sim, mas apropriado para uma vítima dos preconceitos da imprensa de então, o que não conseguimos superar até hoje (Barreto era um mulato pobre no Rio de Janeiro do início do século XX). O livro, creio, deveria ser obrigatório para todos os jornalistas; não menos para quem quer compreender a relação do Homem com o Poder.

E se o tema é vingança a se servir fria, mais fria é impossível quando Adoniran Barbosa entra em cena. O inventor do improvável “samba paulista” (nascido do túmulo, diria Vinícius) andava a cercar uma morena sestrosa, de nome Iracema. A talzinha nenhuma chance concedera ao rouquenho e mal-humorado compositor.

Era assim? Pois que se preparasse para o seu triste fim! Com talento e despeito, Adoniran resolveu levá-la à pedra do IML, sem nem ao menos dar-lhe o gosto de ter seus belos traços (?) descritos pelo sambista.

Daí nasceu:

“Iracema, eu nunca mais que te vi”.

Depois do “atropelamento” da amada, restaram com o fervoroso apaixonado “suas meias e seus sapatos. /Iracema, eu perdi o seu retrato”.

Ninguém jamais o encontrou.

Apesar da Rodoleiro e da GDE, Assembleia e TC terão mais de 10% de aumento de duodécimo em 2012
Nascido para roubar?
  • Noélia Costa Fórum permanenete de combate ás drogas

    Sempre brilhante na sua escrita.Gostaria de aproveitar o espaço para divulgar nosso site ,www.forumdecombateasdrogas.com.br

  • Luiz Carlos Godoy

    “Se, na ‘vida à vera’, eles tiveram um fim trágico…”
    Fazia tempo que eu não “escutava” (lia, no caso) essa espressão “à vera”. Lembrei dos meus tempos de guri quando, antes de iniciar o jogo de pecas (bolinhas de gude), costumávamos falar: “É A VERA, OU NÃO?”
    E por “falar” em infância: parabéns, JEC!
    http://www.youtube.com/watch?v=j2_0GJV-ZMQ&feature=fvwrel

  • Celso Tavares

    De Grand para o Dr. Rieux, em A Peste, de Camus: O que eu quero, sabe, doutor, é que no dia em que o manuscrito chegar ao editor, ele se
    levante depois de ter lido e diga aos seus colaboradores: ”Meus senhores, tirem o chapéu”.
    A crônica de hoje é isso.

  • Antônio Carlos Barbosa

    Parabéns Mota. Um livro, um filme, um conto, é vivermos outras vidas.