Parece-me que uma infância mal resolvida há de nos cobrar por toda a existência a parte que haveria de lhe caber, e que ficamos devendo.

 É a surpreendente dedução a que pude chegar ao observar com mais acuidade o fluxo de “notícias” de uma das já “velhidades” da internet: o twitter. Há de se registrar que este é um bom caminho de comunicações curtas e sugestões de conteúdos mais interessantes, para os quais se busca compartilhamento.

Mas, por outro lado, eis um belo atalho para a infantilização de adultos, até de boa formação intelectual. Mais maduros, em tese, do que a garotada – que encontrou no computador o canal de contato preferido -, eles renunciam ao aprendizado de uma existência para expressar uma birra de menino mimado, mal-educado, que não admite ser contrariado. Daquele tipo que faz escândalo em supermercado. Arre! 

Celebridades, políticos, ministros, secretários, esportistas, estão quase todos lá, não apenas se manifestando sobre “as últimas” dos primeiros. Vão além: entram de sola sempre que se sentem provocados por um tema qualquer, em um processo de catarse, comparável – quem sabe? – a uma sessão com um psicanalista do teclado.

Os rasgos de sinceridade primitiva dos “famosos” vêm fazendo a festa da imprensa mais voltada ao entretenimento do grande público internauta. É um prato cheio de estultices e “denguinhos”.

Lá vem o iracundo senhor, incomodado com uma observação de “a” sobre o que “b” achou de “c”, espalhando bordoadas pela rede antes do final do primeiro ato: uma espécie de ejaculação precoce da pós-modernidade.

O que mais me impressiona é o fato de que não se dão tempo, nem mesmo o que seria minimamente necessário, para o processamento de uma informação, a metabolização da novidade, para, aí sim, dizer algo sobre ela. Mas, afinal, não somos todos muitos íntimos e compartilhamos dos mesmos interesses,  ainda que celeremente passageiros, quando nos vestimos de twitter man?

Temas da profissão, ou da vida privada da autoridade e/ou da celebridade, chegam ao teclado num impulso irrefreável, como se o tal (ou a tal) estivesse acometido por uma incurável bulimia de opinião.

Se os textos não são autoexplicativos e exigem justicativas posteriores e pedidos de perdão, é porque algo anda errado, e muito, nessa história. Palavras pobres, pobres palavras são – a dizer nada, a não ser da fúria incontida e lacerante do autor que busca a infância perdida.

Mas, pensando bem, ser “curto e grosso” pode sinalizar um sério e incômodo problema freudiano.

Dinheiro dos rodoleiros é estadual - Receita possibilitou investigação da PF
O verdadeiro tesouro da falsa elite
  • Valdeck

    Taí uma boa tese de mestrado ou doutorado em psicologia ou psicanálise. Vivemos num mundo tão cybereletronicamente corrido, que o turbilhão de informações nos chegam e vão com uma celeridade incrível. A paranóia mundial antes contida em setting terapêutico, ou remediada em tarjas pretas, agora são canalizadas em teclados computadorizados. Com isso, as idiossincrasias são postas na rede numa catarse freudiana ou lacaniana. O perigo é que além do sujeito colocar para fora suas neuras, tem no espaço cibernético a aprovação ou absolvição de seus atos impensados, pouco maturados ou insanos. Alguns, obviamente acima dos 30, usam como válvula de escape para seus traumas infanto-juvenis não ou mal resolvidos, crendo que o espaço virtual é a liberalização de seus conflitos internos. E quando perceber que não resolve? O que fará? Agirá como alguns estudantes que vão armados às escolas e descarregam além de balas, toda a sua ira, paranóia, frustração por algo não resolvido. Fico pensando o que diria Nietzsche, Foucault, Paulo Freire, Freud sobre o espaço cibernético.

  • anthony

    A internet é um caminho sem volta.E não existe idade para se embrenhar em suas redes e tentáculos.A rede mundial de computadores surgiu com toda sua força na década de 1990,portanto quem tem mais de 30 anos é um imigrante digital, enquanto quem já nasceu quando essa maravilha já existia, é um,digamos assim,
    nativo digital.Há diferenças de comportamento entre esses dois grupos. O primeiro ainda se sente inseguro diante dessa novidade e muito se deslumbra com as descobertas diárias. O segundo se sente em casa…mas é apenas uma coincidência…Há cada dia surgem novas descobertas tecnológicas e não podemos nos alijar de vivenciarmos a grande conquista tecnológica. esqueçamos o chato do politicamente correto…Sejam bem vindos…nativos e imigrantes digitais!

  • Expedito Lima

    Ricardo, há 10 anos fora de Maceió, visito minha cidade regularmente: fisicamente, de 15 em 15; virtualmente, todos os dias — e para lê-lo. Parabéns, amigo, pela inteligência, pela clarividência, pela coragem, pela imparcialidade, pela precisão, por tudo… Seus textos, sempre tão reveladores, somente me reforçam uma certeza: escreva um livro com suas crônicas. Precisamos — os que lemos você — desta obra imprescindível. Forte abraço.

  • Ruth Vasconcelos

    Caro Ricardo,

    É, no mínimo, curioso, para não dizer preocupante, o que estamos vendo acontecer através das redes de comunicação. Já não há discernimento entre o que é partilhável no espaço público, e o que precisa ficar resguardado ao mundo privado. A superexposição revela o que seria irrevelável da humanidade de muitos desavisados. A cada dia convenço-me que não conseguimos pensar na urgência. Na urgência, atuamos; fazemos “passagem ao ato”. Freud explica isso muito bem. Beijo, bom domingo!
    Ruth Vasconcelos.

  • Pablo Hernandez

    Bravo Ricardo! – este tema abre uma série de questionamentos: o que esta por trás do twitter e do facebook, chamadas de redes sociais? – ao meu ver trata-se de lobos disfarsos de ovelhas, onde o objetivo é aliciar e formar tribos com uma infomação uniformizada e direcionada para interesses comerciais e “políticos”, atingindo em cheio uma faixa etária que ainda não conseguiu ter vontade própria, se é que algum dia terá.
    Isso fica evidenciado na banalização das conversas, das dicas de informação e de sites que são sugeridos ou num clique “curtir”.Que tipo de nova geração estamos formando para o futuro, zumbis?

  • Pablo Hernandez

    Já há algum tempo existe um “movimento” dentro do Facebook organizado por usuários que acham o “Curtir” insuficiente, o que eles exigem: o “Não curtir”. À luz do comentário de Groys, torna-se claro o despropósito de uma funcionalidade como essa. Analisá-la com cuidado provê um fantástico exemplo da “política da menção” e a sua importância na configuração dos modos de crítica hoje.

    Imaginemos um exemplo: um usuário compartilha informações sobre uma determinada “tragédia” (ignoremos que ele já internalizou a abordagem midiática do evento). Hoje, os outros usuários tem a opção de ‘curtir’ isso. Mas o que não está claro pelas regras do sistema — e certamente causa grande desconforto nos ativistas a favor do “Não curtir” — é se clicar no “Curtir” poderá significar dizer que esse outro usuário gostou da catástrofe em si. Ou se significará que ele gostou que a informação foi compartilhada. Ou ainda se simplesmente significará que ele gostou de ver aquilo ali. Ou se ele gostou… enfim, não ficará claro exatamente o quê ele “curtiu”. No mesmo exemplo, supondo que existisse o botão “Não curtir”, facilmente chegaríamos aos mesmos problemas. Mais ainda, poderíamos considerar como o sistema do Facebook poderia lidar com uma análise quantitativa dos “Não curtir”: ele deveria restringir a promoção daquela informação? Ou deveria promovê-la como faz com aquelas que as pessoas “Curtam”? Ou qual outra possibilidade teria? É curioso que para os casos onde um “Não curtir” parece fazer sentido, ele deixa de fazer sentido exatamente por gerar popularidade (e talvez fazê-lo ‘indevidamente’).

    Mais um complicador é que não podemos ignorar que também gosta-se daquilo que não se gosta. O tema do exemplo anterior não foi escolhido por acaso. As “tragédias” midiáticas também exemplificam a lógica do “gostar” que opera — certamente (e para o conforto geral) de modo não-explícito — fora do Facebook: afinal, qual dono de jornal, revista ou qualquer meio de comunicação que não sabe que nada melhor que uma enchente, terremoto ou polêmica para ganhar mais dinheiro?

  • Fernando Sérgio T. de Amorim

    Prezado Ricardo

    Mais um excelente texto! Parabéns!

  • Celso Tavares

    A privacidade e a paz são essenciais. Assim, ao Urtigão e a mim basta o e-mail. Nas páginas, vejo o que me importa e acabou-se.

  • Celso Tavares

    Hoje, na Folha, o Dimenstein escreveu algo interessante sobre o tema (veja em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gilbertodimenstein/999070-o-cancer-de-lula-me-envergonhou.shtml) e o Xico Sá teceu bons comentários sobre a nota (http://xicosa.folha.blog.uol.com.br/)

  • Celso Tavares

    Sobre mitos, vale ler o que Elio Gaspari escreveu nesse domingo:
    A última invenção de Steve Jobs:
    O gênio planejou seu funeral (Yo-Yo Ma ao violoncelo) e cuidou profissionalmente da própria biografia
    “Steve Jobs”, de Walter Isaacson, é como o iPad: o sujeito não sabe direito o que fará com ele, mas quer ter um. Como o iPad, essa biografia servirá para muitas coisas.
    Para quem gosta de novela, tem a história de uma criança entregue para adoção, que nunca quis conhecer o pai biológico e surpreendeu-se ao lembrar que, um dia, comera no restaurante de um gerente gordo e careca. (Era ele.) Esse garoto enjeitado recusou-se a reconhecer uma filha, ignorou-a por dez anos, mas deu o nome de Lisa a um de seus computadores.
    Para quem gosta de histórias de inventores, mostra o surgimento do computador pessoal, do iPod, do iPhone e do iPad. (Ele não inventou nenhum dos quatro.) Para quem prefere aventuras empresariais, o jovem que fundou a Apple, foi defenestrado, deu a volta por cima e transformou-a na empresa mais valiosa do mundo. Para hipocondríacos, um maníaco de dietas e jejuns, com um câncer de pâncreas e um transplante de fígado, controlando o próprio ocaso.
    Tudo isso num personagem genial, abstêmio, intratável, pouco higiênico e frugal. (Ele ficaria feliz ao saber que Michelangelo tinha essas características. Por intratável, um jovem pintor quebrou-lhe o nariz.)
    A biografia de Isaacson requer um acessório. Convém que se faça uma cópia das páginas iniciais, onde estão listados 57 personagens. Ajuda a leitura. Dentre os gênios da informática da segunda metade do século passado, Jobs foi o mais audacioso, implacável e egocêntrico. Mentiroso, controlador, argentário, despojado e, acima de tudo, narcisista.
    Quem criou o computador pessoal foi seu sócio, Stephen Wozniak, que sonhava com um mundo no qual eles fossem grátis. Quando Jobs fez a primeira distribuição de ações da Apple, deixou um dos parceiros de fora. Wozniak foi a ele e propôs:
    “O que você der, eu também dou”.
    “OK”, respondeu Jobs, “eu dou zero”.
    “Steve Jobs” foi sua última produção, burilada até os últimos dias, quando estava desnutrido e emaciado. Isaacson escreveu o que quis e conseguiu equilibrar o retrato de duas pessoas: uma que todo mundo gostaria de conhecer, e outra com quem foi perigoso lidar.
    E haja psicanálise, pois receio que logo surgirá uma nova religião, reverenciando o empresário.

  • O Ouvidor môco

    Ricardo, nos meus áureos tempos de pivete jogador de chimbras, uma frase muito usada pra atiçar os ânimos da molecada que queria brigar era: CABELO DE UM, CABELO DE OUTRO, QUEM NÃO PUXAR É GAFANHOTO. Essa popular frase traduzida pra os dias de hoje seria: TECLADO DE UM, TECLADO DE OUTRO, QUEM NÃO TWITTAR É GAFANHOTO.

    Tempos virtuais… A ficção científica se tornando realiadade… Humanidade se despersonificando… Egoísmo… Caráter binário… Máquinas desumanas.

    Internet. Os românticos dizem que nasceu nos primórdios, quando o homem primitivo fazia sinais de fumaça pra se comunicar. Ela encurta distâncias. Podemos interagir sem sair de casa com está do outro lado do mundo, porém ela também aumenta as distâncias, o filho twitteiro já não senta mais pra comer as refeições com os pais. Não conversam.

  • AAraujosilva

    Parafraseando o Dr. Celso: ‘Ao
    Urtigão, ao Celso e a mim basta
    o e-mail e meia dúzia de bons
    blogues(Ricardo, Pedro, CH, Berto,
    Josías …)’. Esse tal de ‘tuisti,
    feicibuki’ é chosideloki!!!

  • Julio

    Ricardo, o twitter é um microblog. Cabe ao usuário sua conduta na internet… Enfim,lembro do seu primeiro post sobre o twitter e vi até um certo “preconceito”. Dessa vez não, trata-se de uma opinião, bem coerente. Mas repito, só se torna algo “fútil” e “infantil” de acordo com o quem usa o microblog… Abraço!

  • Adriano Soares da Costa

    Ricardo, ótimo texto. Ri muito com algumas passagens, porque é isso mesmo: às vezes compramos boas “arengas”. Só senti falta de uma coisa: falta aqui o botão de “curtir” (Facebook) e para tuitar… Aí não dá para divulgarmos… Porque, afinal, twitter é muito interessante… Twitter é o filho do blog. Mais figadal, huperativo, mas tem a mesma finalidade… Falta só o seu! Rssss