Nos meus olhos vão lembranças de mar 
                                                                                      Que eu carrego até onde chegar 

                                                                                                           (Rumo Norte)

 

O quarteto pré-adolescente avançava em braçadas curtas, mas rápidas, em direção ao cais do porto de Maceió. Era este o objetivo a alcançar quando saímos da beira-mar da praia da Avenida da Paz, naquela manhã cheia de verão. 

Nada fora planejado. Pegamos uma “boia” – uma câmara de ar de pneu de caminhão, remendada -, que representava todo o nosso equipamento de segurança. Decidimos sem discussão qualquer: “Vamos!”. E fomos. 

Aquelas águas nos eram tão íntimas que a confiança se estabelecera para nós, ainda tão ignorantes dos ardis do calmo azul que nos envolvia de largo prazer. Mesmo tendo, já, acompanhado vários quase afogamentos por ali, ainda assim não batucava nos nossos ouvidos, insistente como viria a ser, o samba de Paulinho da Viola, a avisar que “o mar não tem cabelo/ que a gente possa agarrar”.

Nadávamos afoitos, sem muito estilo, é verdade, e empurrávamos para diante o nosso “barco” – os olhos vidrados nas pedras do porto. Fazíamos uma competição à parte, tudo sem palavras ditas, apenas remando com os braços que carregavam corpos leves, ainda em formação de homem.

Os minutos já eram muitos quando um de nós voltou o olhar para a beira da praia, nosso ponto de partida. Repetimos, cada um, o mesmo gesto, incontinênti, mudos. E assim permanecemos ao nos deparar com a remota imagem: víamos apenas pontinhos negros, lá distantes, parados ou se mexendo sobre aquele areal cor de nuvem. Tínhamos ido mais longe do que permitiria a sensatez. 

O primeiro fez meia-volta, e os demais, como num cardume, seguiram-no a uma velocidade que só o pavor é capaz de imprimir. Em pouco tempo, puxando o ar com força, arfantes, fincamos âncora no nosso ponto de partida. Silêncio.

Voltamos para casa mais cedo do que o previsto e nunca comentamos o ocorrido. Sabíamos que estivéramos perto demais de algo cujo nome não ousávamos pronunciar. Demos o fato por esquecido, e uma manta  de chumbo encobriu aquela aventura.

Mas ainda foi dessa vez que a praia da Avenida nos enxotou para dar lugar aos urubus e vira-latas, que passaram a buscar – no que fora nosso Éden – os restos do imprestável.

Quando isso aconteceu, e não tardou muito, foi como em toda boa vingança:  servida fria, num inverso pestilento. No retorno do verão à sua morada, aquele areal já tinha outros viventes – e nunca mais seríamos nós.

Fomos escorraçados para as praias ao norte, belas também, mas sem o latifúndio coberto pelas minúsculas partículas brancas. Todas elas com faixa de praia menos generosa, a aproximar até quem não desejava ares de maior intimidade.

Foram-se: Pajuçara, uma então desconhecida Ponta Verde, Jatiúca, e aí só nos restou Guaxuma, ao longe, e que também já sente o inexorável despejo da podridão humana.

Maceió, cidades de belas e inúteis paisagens marinhas! Até o dia em que o verde-azulado resolver regurgitar, numa única golfada oceânica, tudo o que lhe enfiamos goela abaixo.

Melhor para os peixes. Estes, sim, donos do leite que só teimamos em envenenar. 

 

 

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O juiz que deixou a tartaruga fugir
  • Frederico Farias

    “Mas ainda foi dessa vez que a praia da Avenida nos enxotou para dar lugar aos urubus e vira-latas, que passaram a buscar – no que fora nosso Éden – os restos do imprestável.”

    Uma pergunta: o que é que fizeram kátia born e sexta-feira? tá lembrado?

  • six am

    saudade do tempo que nosos litoral era intocado, hoje a devastação promovida pelo setor imobiliario esta causando danos irreverssiveis, fazem condominios em mangues,acabando com nossa natureza tão exuberante, nosos litoral sendo vendido a estrangeiros fazendo com que os nativos nem na praia possam andar,lamento por nosso netos que não verão oq ue nós tivemos o privilégio de ver

  • Luiz Carlos Godoy

    “Voltamos para casa mais cedo do que o previsto e nunca comentamos o ocorrido. Sabíamos que estivéramos perto demais de algo cujo nome não ousávamos pronunciar. Demos o fato por esquecido, e uma manta de chumbo encobriu aquela aventura.”

    No filme “O curioso Caso de Benjamin Button”, a nadadora notívaga Elizabeth (Tilde Swinton) enfrenta sua antiga frustação e, aos 68 anos, atravessa (nadando) o Canal da Mancha. Cá pra nós, as pedras do porto, se comparadas ao Canal da Mancha, são “mamão com açúcar”. Não vale alegar a “muleta” da poluição, pois a kátia Born até tomou banho no Rio Salgadinho (tá bom, ela faz política populista). E aí, vais arregar?!
    http://www.youtube.com/watch?v=4LB9VQnRsfg&feature=fvst

  • jose antonio dos santos

    Esta questão da poluição das prais é uma vergonha assumida pelos incompetentes e corruptos gestores que a população besta de Alagoas, elege, ninguém devia reclamar de nada.

  • six am

    o banho da ne época prefeita foi algo surreal, enquanto na europa passaram uns 50 anos para depoluir um rio com as dimensões do salgadinho ela fez em alguns meses , deve ter sido uma tecnologia fora do comum , e jogando na midia a população votou feliz infelizmente o rio despoluido NAÕ ficou

  • Pablo Hernandez

    Ricardo, este sentimento saudosista toma conta de mim todos os dias, não só quando passo pela praia da Avenida, mas pela praia de Ponta Verde, da enseada da Pajuçara e da velha praça Sinimbú.O descaso e a omissão são as maiores armas da Prefeitura de Maceió e do Governo do Estado para destruição do patrimônio histórico e daquilo que a natureza nos deu de graça.Surpreende-me quando o vejo a nata da sociedade alagoana se deliciando nas choparias da orla de pajuçara e Ponta Verde ao lado dos córregos de esgoto que são despejados pelas próprias moradias de quem frequenta esses bares e restaurantes.
    Isso é Maceió!

  • Pablo Hernandez

    RETOMANDO UM PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA
    “Adolescente morre após colidir com sua moto na traseira da caminhonete na AL-115”
    “Estatísticas mostram aumento de acidentes com motos em Arapiraca”
    Estas são as manchetes do dia-a-dia da imprensa escrita e falada no Estado de Alagoas, notadamente nos municípios de Maceió e Arapiraca.Sugiro que vocês questionem a SMTT e o Detran para que estes órgãos respondam como podem circular livremente veículos ciclomotores sem registro e habilitação, desrespeitando tudo e a todos.

    ATENÇÃO:Todo veículo automotor independente da cilindrada, para ser conduzido na via pública, exige a devida documentação e habilitação, nos termos do artigo 140 do Código de Trânsito Brasileiro e conforme a regulamentação complementar do CONTRAN, prevista na Resolução nº 168/04. No caso dos veículos de duas ou três rodas com menos de 50 cc e com velocidade máxima de fabricação inferior a 50 km/h, denominados ciclomotores, exige-se Autorização para Condução de Ciclomotores, informação que deve constar no próprio documento de habilitação do condutor.
    COM A PALAVRA A SMTT E O DETRAN E MPF, RESPONSÁVEL POR FAZER CUMPRIR O CTB.

  • sebastiaoiguatemyrcadenacordeiro

    Bloguista Sr. Godoy,todos desconhecem as
    consequências daquele tresloucado ato
    promocional praticado pela candidata Born. Até hoje ela toma um banho de crio
    lina semanalmente,usa esfoliantes diaria
    mente,seu sabonete é veterinário,importa
    do da Austrália, aonde é utilizado para
    dar banho em cangurus infestados por ger
    mes politiqueiros,que atacam a pele da
    vitima deixando-a furta-cor para sempre.

  • sebastiaoiguatemyrcadenacordeiro

    E mais! Engole um coquetel AntiHIV de
    ano em ano,vacina-se contra Hepatite A
    e B, tambem anualmente,vai ao cabelerei-
    ro duas vezes por semana com uma para –
    nóia de que os cabelos estão contamina –
    dos por seres marinhos microscópicos,
    resultantes de uma mutação do plancton
    marinho que se fundiu com a parte orgânica da poluição,em pleno riacho Sal
    gadinho,que,resignadamente,aceita o seu destino. ÔMI !

  • Jordan Costa

    Uma vez o escritor americano David Foster Wallace abriu um discurso de paraninfo contando uma fábula singela. Dois peixes jovens cruzam com um peixe mais velho, que lhes pergunta: “Como está a água hoje, rapazes?” Os dois não respondem e, quando o veterano se afasta, se entreolham: “Água? O que é água?”
    Certamente,as gerações futuras irão indagar:”Praia? o que é praia?”

  • Pablo Hernandez

    Ciço do forró, o que você pretende fazer para recuperar a praia da Avenida e praça Sinimbú?
    Convide a Kátia Born para vocês juntos tomarem um banho de m…na praia da Avenida.

  • marta lima

    Do passado o que nos resta são boas lembranças e por motivos obvios; o presente que mesmo sem ser de Grego, mancha-nos alagoanos, que inerte vemos nossa praias sendo transformadas em esgotos a céu aberto e nossa litoral loteado por poderosos, num triste fim: condominios, resorts e hoteis privados onde nós nem podemos olhar o mar porque as cercas são eletrificadas. Ai de nós,caro jornalista, simples mortais das Terras de Alagoas!

  • Paulo Barbosa

    Bloguista, tu é inteligente, sufiente até demais, para concluir esse texto de uma forma diferente; orientadora, esclarecida, com advertência e não assim, nefasta, funérica, pessimista, proclamando um holocausto. Deus nos livre.

  • Giuseppe Gomes

    Sem comentários, grande escriba. Vai direto pro meu arquivo!

  • Vivo

    Mota,

    Nefasta e funérica é a nossa situação sem contole e limites, não o que vcê apregoa nessa crônica leve e saudosista.

    Sou do tempo em que se via pescador pegando piaba no riacho salgadinho; ali mesmo perto do viaduto da Kátia. Era uma cena diária, porquanto minha mãe trabahava na LBA e passávamos todos os dias, a caminho do trabalho.

    O descaso foi e é total; em todo governo, seja de situação oou oposição, ouvimos as mesmas promessas que sabemos, antecipadamente, não serão cumpridas.

    A cena dantesca da Katia caindo da janga, porque escorregu na hora do banho, ainda é fresca na memória. Tanto com os bate-bola à beira-mar da Avenida da Paz, aos domingos à tarde; mesmo que já se tenham passado alguns 35 anos.

    A Ponta Verde de areia e barro, a partir dos Sete Coqueiros e a Jatiúca inalcançável do Restaurante Rainha do Mar. Éramos felizes e não sabíamos …

    Para uma cidade que tem no produto turismo a sua principal fonte de receitas, o mínimo que se poderia esperar seria a manutenção das praias através de saneamento básico e fiscaização pesada nas obras de prédios construidos sem a mínima preocupação ambiental.

    Não é funérica a visão; é realista ao extremo e pelo que vejo, não será ainda nas próxmas duas gerações que a cidade verá este problema solucionado.

    Abraço cordial!

  • Albert Stocker

    concordo com VIVO. a cidade tem que melhorar en qualquer epoca do ano a limpeza das praias. E falta de organisacao, nao e tao caro e o efeito seria lindo. Talvez um imposto cobrado por noite no hotel para solucionar a limpeza das praias lindas da cidade de Maceio.